Índice registrou deflação de 0,40% em agosto, analista do Banco Daycoval avalia cenário e perspectivas para a política monetária

Compartilhar matériaO IPCA-15, conhecido como a prévia da inflação, registrou deflação de 0,40% em agosto, segundo dados divulgados pelo IBGE nesta quarta-feira (26). O resultado veio acima das expectativas das projeções do mercado, surpreendendo analistas.

Para Julio Cesar Barros, economista do Banco Daycoval, o número não é suficiente para alterar o cenário geral da política monetária. Segundo ele, os principais fatores que puxaram a inflação para baixo neste mês são de natureza volátil e temporária.

Diante do quadro apresentado, Barros afirmou que o cenário mais provável é que o Banco Central promova um novo corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic na reunião de setembro.

"O mais provável é que o Banco Central caminhe na direção de um novo corte de juros, de 0,25% na próxima reunião de setembro", declarou o economista, acrescentando que, após esse movimento, a autoridade monetária deve pausar o ciclo de afrouxamento para avaliar os efeitos das medidas adotadas.

O principal driver da deflação de agosto foi o bônus de Itaipu, que gerou um desconto temporário nas contas de energia elétrica.

"Como já era esperado, os itens que puxam a inflação para baixo esse mês são itens voláteis e alguns temporários", afirmou Barros. Ele destacou ainda que as passagens aéreas também contribuíram para a surpresa, registrando queda de 13%, ante uma projeção de recuo de 0,6%.

A alimentação no domicílio também apresentou deflação, embora um pouco mais intensa do que o esperado.

"A gente tinha uma expectativa em torno de 0,6%, 0,7%, então veio um pouco maior, mas perdendo força em relação à leitura anterior", explicou o economista. Para os próximos meses, ele alertou que esses efeitos deflacionários sazonais tendem a se dissipar.

Apesar da deflação no índice geral, o núcleo de serviços — componente considerado mais persistente e sensível à política monetária — veio acima do esperado. A projeção era de 0,3%, mas o resultado foi de 0,5%. "Essa leitura mantém o alerta na parte da inflação dos serviços e do seu núcleo", disse Barros.

O economista ressaltou que o Banco Central acompanha com atenção especial o grupo denominado "serviços intensivos em trabalho", associado ao mercado de trabalho, que representa a tensão mais significativa no quadro inflacionário atual.

Ainda assim, Barros avalia que o núcleo de inflação deve continuar desacelerando, encerrando o ano em torno de 5,2% a 5,3% — patamar que, segundo ele, "inspira cautela".

Para o último trimestre do ano, Barros aponta dois riscos relevantes: o El Niño e a volatilidade do preço do petróleo.

O fenômeno climático pode pressionar a inflação de alimentos de forma mais intensa do que o habitual, com impactos esperados também no primeiro trimestre de 2024. A projeção do Banco Daycoval para a inflação de alimentação no domicílio no ano é de 8,4%.

Em relação ao petróleo, o economista ponderou que, apesar da volatilidade recente, a curva futura do produto não se alterou de forma significativa, com projeções em torno de 80 dólares por barril ao final do ano.

Barros lembrou ainda que o subsídio à gasolina tem amortecido o repasse dos preços internacionais ao consumidor doméstico, embora reconheça que essa política enfrenta limitações caso a pressão sobre o petróleo persista por um período prolongado.