Pixabay O Federal Reserve, banco central dos EUA, elevou os juros pela primeira vez desde julho de 2023, para a faixa de 3,75% a 4%, por unanimidade. Kevin Warsh, novo presidente do banco, fez o que disse que iria fazer, reafirmando a independência da institu…
O Federal Reserve, banco central dos EUA, elevou os juros pela primeira vez desde julho de 2023, para a faixa de 3,75% a 4%, por unanimidade. Kevin Warsh, novo presidente do banco, fez o que disse que iria fazer, reafirmando a independência da instituição diante de novas investidas do presidente Donald Trump para que as taxas fossem reduzidas. As projeções dos membros do Comitê de Mercado Aberto, que determinam os juros, sinalizam mais uma elevação ainda este ano, para 4%-4,25%. O Banco Central do Brasil (BC), como esperado, reduziu a taxa Selic para 13,75%, sem indicar seus próximos passos, com as apostas dos investidores divididas entre a continuidade dos cortes nas próximas reuniões e uma pausa na redução.
O comunicado do Fed, lacônico desde que Warsh demonstrou sua aversão a que o banco dê orientação futura, repetiu os termos do anterior, indicando que a economia segue em ritmo sólido, o crescimento da produtividade é forte, os investimentos são robustos e a taxa de desemprego não se alterou. Desta vez, acrescentou que os gastos domésticos são resilientes, sugerindo que esse é um fator a mais a manter a força da inflação, que há cinco anos e meio está acima da meta de 2% do Fed.
A decisão foi o primeiro teste de fato do novo presidente do banco. Warsh, por dois meses, se recusou a dar maiores informações sobre o futuro da política monetária, argumentando que isso interferiria na bússola dos mercados, que para ele são quem indica os rumos da economia. Mas, no fim de agosto, no encontro em Jackson Hole, Warsh deu uma guinada importante, definindo pontos sobre os quais evitou ser claro antes. Sua principal mensagem foi que se a inflação não caísse rápida e consistentemente para a meta de 2%, o Fed teria "trabalho a fazer".
Warsh seguiu seu script. A inflação em agosto não piorou, pelo menos não a dos preços ao consumidor (CPI), que se manteve em 3,4%, o que municiou expectativas, mesmo entre membros do Fed, de que o banco poderia esperar mais tempo para elevar taxas. Mas o indicador favorito do Fed, o núcleo do índice gastos pessoais de consumo anualizado (PCE), subiu de 3,3% para 3,4% (o PCE cheio se manteve em 3,7%), muito longe de 2%.
Outros índices divulgados pouco antes da reunião mostraram mais pressão sobre os preços a caminho. O índice de preços ao produtor, galvanizado pelo recrudescimento da guerra dos EUA contra o Irã, subiu. Os custos medidos pelo índice dos gerentes de compras (ISM) de agosto subiu pelo 23º mês consecutivo, com pressões generalizadas. Os bens intermediários processados aumentaram 11,5% de agosto de 2025 ao mesmo mês deste ano, e os não processados, 12,8%. O preço médio do frete, empurrado pela disparada dos combustíveis, variou 16% no período.
O mercado de trabalho acrescentou 162 mil postos no mês passado, bem acima do esperado, e manteve a taxa de desemprego em 4,1%, isto é, pleno emprego. As contratações nos setores cíclicos da economia estão se aquecendo novamente, com maiores ganhos salariais para os trabalhadores que trocam espontaneamente de emprego.
Warsh ontem disse que o que mudou entre a manutenção das taxas da última reunião e a alta de agora é que as tendências subjacentes da inflação não melhoraram, com várias categorias de preços subindo acima de 3% ao ano e aumento de preços das commodities. Por outro lado, a economia deu sinais de que está se fortalecendo, e as condições financeiras, para ele e a diretoria do Fed, não eram restritivas, mas acomodatícias, e uma parte dessa acomodação foi removida agora com o aumento dos fed funds. No balanço de riscos, a inflação é o problema principal, já que o mercado de trabalho se encontra forte e equilibrado.
Na projeção de pontos dos membros do Fomc, a inflação pelo PCE cairá para 2,4% em 2027 e só chegará a 2% em 2028. Os juros, depois de subirem mais uma vez no ano corrente, deverão estacionar entre 4%-4,5% no ano que vem e recuar para 3,75%-4% em 2028. Warsh não faz projeções e não participou delas, mas se o desenho traçado pelos membros do Fed estiver correto, o aperto monetário esboçado será de baixa magnitude, mas de média duração. Ele é mais comedido que a expectativa anterior dos investidores, que prenunciavam até três elevações de 0,25 ponto percentual.
O Comitê de Política Monetária (Copom) apontou a continuidade da moderação gradual da atividade econômica e nova desaceleração nos índices de preços (houve deflação de 0,32% em agosto) para reduzir a Selic a 13,75%. O IBC-Br do BC teve nova queda em julho, com variação anual de 1,5% e crescimento zero dos serviços, setor que tem puxado a inflação há tempos. A inflação prossegue desancorada. A dúvida sobre o futuro é se o BC interromperá o ciclo de redução dos juros para avaliar os efeitos sobre os preços do El Niño ou se, dado o nível fortemente contracionista dos juros, continuará cautelosamente a diminuí-los. O comunicado não sinaliza qual será a direção. E sempre vale lembrar que uma contenção fiscal possibilitaria um corte estrutural dos juros.




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