A ponta do compasso de Flávio Bolsonaro está fixada agora nos Estados Unidos. Esse movimento faz com que as principais estratégias de sua pré-campanha sejam penhoradas ao presidente Donald Trump e ao secretário de Estado dele, Marco Rubio, cujas decisõ

A ponta do compasso de Flávio Bolsonaro está fixada agora nos Estados Unidos. Esse movimento faz com que as principais estratégias de sua pré-campanha sejam penhoradas ao presidente Donald Trump e ao secretário de Estado dele, Marco Rubio, cujas decisões a respeito de taxações, Pix, facções e sanções tornaram-se o centro gravitacional da disputa pré-eleitoral aqui no Brasil.

Hoje, a política externa dos Estados Unidos, ditada em Washington, com base nos interesses norte-americanos, está tendo mais proeminência na disputa eleitoral brasileira do que o debate sobre temas iminentemente nacionais, como educação, saúde ou saneamento básico. Note bem: não significa que a política externa dos Estados Unidos em relação ao Brasil seja, de fato, mais importante do que os temas nacionais; o que acontece é que ela foi deliberadamente guindada a essa condição, como parte da dinâmica de um discurso político que se internacionalizou.

O deslocamento desse centro gravitacional para o exterior não é comum em eleições brasileiras, nas quais a política externa sempre foi mera coadjuvante quando comparada às questões da agenda doméstica. Mas, ao fixar seu ponto de apoio em Washington, o bolsonarismo acabou arrastando consigo toda a agenda eleitoral dessa pré-campanha, fazendo com o que o principal antagonista de Flávio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, também passasse a triangular seu discurso de pré-campanha no exterior.

No caso do bolsonarismo, a exportação da disputa política nacional teve início ainda muito antes da pré-campanha. Ela começou com a imigração de algumas figuras relevantes da ultradireita brasileira que, sob o argumento de que sofriam perseguição política e cerceamento em sua liberdade de expressão nas redes sociais, passaram a fazer de outros países - dentre eles, muito especialmente os Estados Unidos - sua nova base de ação, a partir da qual seguiram influenciando o debate nacional em favor da família Bolsonaro.

Quando o Supremo Tribunal Federal começou a responsabilizar os envolvidos na tentativa frustrada de golpe de Estado ocorrida em 8 de Janeiro de 2023, esse fluxo migratório da ultradireita se intensificou e se diversificou, tanto no que diz respeito aos fugitivos condenados pela Justiça - influenciadores digitais, ex-deputados e militantes radicalizados - quanto aos países de destino: Espanha, Itália, Paraguai e Argentina, além, é claro, dos Estados Unidos.

O personagem mais marcante dessa diáspora bolsonarista é o agora ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro - irmão mais novo de Flávio -, que se mudou para os Estados Unidos em fevereiro de 2025 e, após a cassação de seu mandato, dez meses depois por mera ausência em mais de um terço das sessões deliberativas da Câmara dos Deputados, acabou cortando de vez os laços de residência com o Brasil, o que se tornou praticamente irreversível após a condenação a mais de 4 anos de prisão que ele viria a sofrer em junho deste ano, por justamente incitar o governo norte-americano a agir contra autoridades judiciais brasileiras responsáveis pelos processos que pesam contra ele, contra o pai dele e contra uma porção de outros personagens que o acompanham.

Se, por um lado, esse autoexílio bolsonarista deu visibilidade à versão de que todos eles eram perseguidos dentro do Brasil, e por isso precisavam de proteção e de solidariedade internacionais, por outro acabou abrindo um flanco inesperado de desgaste na pré-campanha de Flávio, na medida em que a resposta a esse apelo por atenção internacional acabou se convertendo, no caso dos Estados Unidos, na aplicação de medidas que estão sendo percebidas pela maioria dos brasileiros como lesivas à soberania nacional.

Não faltam pesquisas de opinião atestando que a taxação das exportações brasileiras e o risco de uma intervenção norte-americana no Brasil sob o pretexto de combater facções são extremamente impopulares. Em resposta a essas pesquisas, os dois campos envolvidos na pré-campanha presidencial tiveram de ajustar suas próprias estratégias. Lula encampou o mote patriota que, desde pelo menos 2013, havia sido sequestrado pela ultradireita, enquanto Flávio, cuja pré-campanha foi ferida por um tiro no pé, passou a militar, nos Estados Unidos, contra as medidas que ele mesmo e o irmão dele tanto incitaram anteriormente.

O problema para a pré-campanha de Flávio é que ele e seus ajudantes deixaram de ser os sujeitos da própria ação. Ao pedir que o governo norte-americano faça ou desfaça isso ou aquilo, o bolsonarismo entregou o leme do próprio barco a um ator sobre o qual eles até podem ter influência, mas jamais terão controle.

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