Resposta à catástrofeBombeiros, rota terrestre e porta-helicópteros: como o Brasil pode agir no terremoto na VenezuelaPor Aline Rechmann

Por Luis Miguel Vieliczko Kawaguti

Dê de presentePrefira a Gazeta no GoogleO porta helicópteros Atlântico foi projetado para atuar oferecendo ajuda humanitária em catástrofes naturais. (Foto: Alexandre Durão/Revista Força Aérea/Wikimedia Commons)Ouça este conteúdo

O Brasil tem condições logísticas, materiais e estratégicas para prestar assistência rápida à Venezuela no socorro à catástrofe provocada pelos terremotos devastadores da quarta-feira (24). Entre as opções estão o envio de socorristas ou tropas por via aérea e terrestre e o deslocamento do porta-helicópteros Atlântico - navio de guerra projetado para exercer a função de ajuda humanitária.

Analistas ouvidos pela reportagem avaliam que, caso resolva se envolver de verdade, o governo pode romper o isolamento internacional do Brasil.

"Os Estados Unidos já estão com ajuda a caminho, possivelmente a China vai tentar agir também. O reordenamento político em curso na América do Sul vai ser muito influenciado pelo socorro ao terremoto. O Brasil pode participar desse processo por meio da diplomacia humanitária", disse o general da reserva André Luís Novaes Miranda, ex-comandante do Comando de Operações Terrestres do Exército e analista de geopolítica da FGV.

Apesar de ter uma vantagem geográfica e estratégica, o governo Lula ainda não anunciou medidas concretas de assistência. Em nota divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores, o Brasil manifestou solidariedade às vítimas, informou que não há registro de brasileiros entre os mortos e feridos e manteve o plantão consular ativo, mas não detalhou o envio de equipes, recursos ou suprimentos para o país vizinho.

Em publicação no X, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez menção ao envio de apoio, mas sem detalhar ações. “Instruí o ministério das Relações Exteriores que avalie, juntamente com a embaixada do Brasil em Caracas, a situação no país e as medidas de assistência que o Brasil possa adotar”, escreveu o petista.

A cautela adotada pelo governo contrasta com a capacidade logística brasileira e com a movimentação de outros governos que já começaram a organizar apoio aos venezuelanos.

O coronel da reserva do Exército, mestre em Operações Militares, Paulo Filho, colunista da Gazeta do Povo, aponta que o Brasil dispõe de meios prontos para uma resposta imediata, caso haja decisão política para isso.

“Pode enviar equipes de socorro e resgate. Certamente os corpos de bombeiros do país possuem equipes treinadas e em condições de serem acionadas. Pode enviar comboios com suprimentos de primeira necessidade. Não vejo por que tenha que demorar”, afirmou.

As primeiras respostas internacionais a catástrofes de grande magnitude ocorrem necessariamente por via aérea, mas primeiras 24 ou 48 horas. Isso porque o transporte naval pesado pode levar dias para ser organizado.

Os Estados Unidos já anunciaram que o socorro será "grande, rápido e efetivo". Segundo André Novaes, umas das primeiras medidas americanas deve ser pousar nos aeroportos de Caracas ou La Guaíra, que estão atualmente fechados, para desobstruir as pistas, ativar novas torres de controle e reestabelecer o tráfego aéreo militar.

Uma grande quantidade de aeronaves de carga deve então passar a operar transportando socorristas, material de apoio e mantimentos. O Brasil já participou de uma operação muito similar no megaterremoto de 2010 no Haiti. Na época, a Força Aérea criou uma ponte aérea sem precedentes na história brasileira com o envio ininterrupto de aeronaves para Porto Príncipe. Na fase mais crítica da crise ocorriam três pousos diários de aeronaves Hércules C-130 e KC-137 repletos de mantimentos e tropas.

Hoje a FAB possui oito aeronaves de carga Embraer KC-390 Millennium, das quais em média três costumam ser mantidas prontas para uso imediato. Elas poderiam ser integradas à operação americana levando comida, medicamentos e bombeiros brasileiros e retirando civis do território venezuelano.

Em teoria, tropas das Forças Armadas poderiam atuar desarmadas, mas usando a farda brasileira, em ações de resgate, desobstrução de vias e recuperação de corpos.

Especialistas em operações de resgate alertam que o fator tempo é determinante em situações de colapso estrutural após terremotos.

“Numa situação como essa, as pessoas podem conseguir sobreviver até 10 dias sob os escombros, mas vai depender muito da infraestrutura, do tipo de ajuda, o quão rápido ela chega e se tem informações suficientes dos pontos que mais necessitam”, afirmou o capitão da reserva do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, Léo Farah.

A existência de uma rota terrestre, com cerca de 1.300 quilômetros de estradas ligando Pacaraima (RR) a Caracas coloca o Brasil em uma posição privilegiada para fornecer assistência ao povo venezuelano.

Bombeiros, resgatistas e material de socorro podem ser enviados a Boa Vista por via aérea, seguir em automóveis e chegar em Caracas com equipamento completo em aproximadamente três dias.