Negociações climáticas em Bonn avançam pouco, travadas por impasses sobre adaptação, fósseis e combate ao desmatamento
Por Carla Fischer e Alice Martins Morais
Edição de Natália Mello
Matéria originalmente publicada em Amazônia Vox
Sob uma temperatura de 35 a 37º graus e com baixa adesão tanto de delegações quanto da sociedade civil, a Conferência de Bonn foi um retrato do calor das tensões que aguardam a 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP31), em novembro de 2026. Não houve consenso em torno de temas considerados centrais para a agenda, como a meta global para a adaptação, que estabelece as diretrizes para que os países monitorem suas ações de preparação para um mundo mais quente.
Bonn é a principal reunião preparatória para a conferência da ONU, que será sediada pela cidade de Antália (Antalya), no sul da Turquia. Encerrada em 18 de junho, na cidade alemã, a 64ª sessão dos Órgãos Subsidiários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC)* reuniu representantes de 194 países e da União Europeia para discutir aspectos técnicos e políticos que servirão de base para COP31. A reunião também representou o primeiro grande teste político após a COP30, realizada em Belém, em novembro de 2025.
Segundo ela, essa edição de 2026 foi marcada por um esvaziamento incomum. “O número de pessoas que costuma chegar a sete mil foi para três mil. Algumas delegações não apareceram, outras foram com muito poucas pessoas”, relatou.
As tensões geopolíticas mundiais podem ter influenciado essa baixa expectativa em torno do encontro, acredita Ciro Brito, analista sênior de Políticas Climáticas do Instituto Socioambiental (ISA). “A COP de Belém já passou por um momento muito desafiador por conta dos conflitos internacionais, e Bonn chegou ainda pior. O avanço das disputas tarifárias do Trump, as guerras que não terminaram, pelo contrário, continuaram crescendo. Então, realmente, a expectativa para Bonn era muito baixa”, afirmou.
Um dos principais entraves das negociações esteve relacionado ao financiamento para adaptação climática, ou seja, quem vai pagar e quanto será destinado para ajudar comunidades, ecossistemas e economias a se ajustarem e a se protegerem contra os impactos negativos das mudanças climáticas. Países em desenvolvimento defenderam ampliar esses recursos, enquanto países desenvolvidos resistiram à criação de novos compromissos financeiros.
O impasse refletiu diretamente nas discussões sobre os Objetivos Globais de Adaptação (GGA), um dos temas mais sensíveis da conferência. Com a falta de consenso entre os países, foi acionada a Regra 16, dispositivo que suspende a negociação quando não há consenso entre os países.
Para Ciro, a consequência prática é um atraso no processo negociador. “Você não ter um texto aprovado em Bonn para a COP31, na prática, retarda o trabalho e diminui ainda mais as expectativas para a COP31.”
Apesar das dificuldades, algumas frentes avançaram durante as negociações. Na avaliação de Caroline Rocha, um dos principais resultados positivos de Bonn foi o avanço do Programa de Trabalho sobre Transição Justa (JTWP, do inglês Just Transition Work Programme). Apesar de ser considerado um dos legados da COP30, foi classificado como “pouco ambicioso” pela Colômbia.
Mas o encontro na capital paraense estabeleceu um procedimento formal para coordenar esse Programa, apelidado de BAM (da sigla em inglês, Belém Action Mechanism). Destinado a proteger pessoas e comunidades dos impactos da transição energética, esse trabalho seria feito por meio da cooperação internacional, da assistência técnica, da criação de capacitações entre países e do compartilhamento de conhecimento para garantir uma transição equitativa.
A ideia é criar uma estrutura formal, com entidades operacionais próprias, dentro da Convenção do Clima. No entanto, no ano passado ficou a pergunta de como, na prática, o mecanismo vai funcionar. Em Bonn, chegou-se a um acordo para encaminhar um esqueleto do mecanismo para ser debatido na próxima conferência, na Antália. Desse modo, o que já foi discutido neste mês será a base para as negociações do tema no próximo novembro, embora haja explicitamente uma frase no texto dizendo que “este documento não é base para negociações”, conforme ressaltado pelo Observatório do Clima.
Caroline Rocha ressalta ainda que esse esboço encaminhado para a COP31 passou a incorporar temas relevantes para a Amazônia. “A gente teve menções à agricultura, ao oceano, carbono azul, ecossistemas de manguezais e sistemas alimentares, que é algo realmente muito importante para a região amazônica e uma das bases da nossa economia”, acrescenta.
Colômbia e Holanda, que sediaram a conferência dedicada ao assunto em abril, também fizeram um evento em Bonn para falar sobre esse processo e, na semana passada, entregaram formalmente o relatório da cúpula de Santa Marta para André Corrêa do Lago, presidente da COP30. O documento expressa uma necessidade de ações dentro e fora do âmbito da UNFCCC.
Ao longo de 2026, o documento tem sido construído a partir de consultas internacionais e pretende ser uma contribuição aos países, mas sem caráter negociador ou vinculante. A proposta é ser como um guia, reunindo referências, boas práticas e possibilidades de cooperação internacional que possam inspirar as nações a fortalecerem ou desenvolverem suas próprias estratégias nacionais para deter e reverter o desmatamento e a degradação florestal nos próximos quatro anos, respeitando as diferentes realidades, capacidades e circunstâncias nacionais.
Durante este último encontro, a presidência brasileira apresentou a estrutura preliminar do texto e as áreas de convergência identificadas ao longo das consultas realizadas desde a COP30. As discussões serviram para recolher contribuições e aperfeiçoar o texto antes de sua divulgação oficial.
Ciro Brito aponta ainda como destaque da conferência o fortalecimento da Plataforma de Povos Indígenas e Comunidades Locais da UNFCCC. “As comunidades locais chegaram muito mais organizadas politicamente. Na COP de Belém elas, lançaram o Fórum Global das Comunidades Locais, e essa foi a primeira conferência de Bonn em que elas participaram já mais organizadas. Isso foi fundamental para aumentar a importância da plataforma e melhorar as discussões”, avaliou.
Segundo ele, o fortalecimento desses espaços deverá influenciar as próximas etapas das negociações climáticas, especialmente os debates que serão retomados na COP31 e posteriormente na COP32, prevista para ocorrer na Etiópia.
Finalizada a conferência em Bonn, o sentimento predominante entre os participantes foi de incerteza, segundo Caroline Rocha. “As pessoas saem de Bonn com uma sensação de ponto de interrogação. Não foi nem terrível, nem super bom, e também não foi médio. Foi um momento de questionamento sobre o que está acontecendo, para onde a gente vai e como a gente muda esse processo de negociação para implementação”, resumiu.


