Plano do governo Lula era reduzir tarifas de cerca de 300 produtos, mas tirar Pix, minerais críticos e política interna da negociação. Leia no Poder360
Plano do governo Lula era reduzir tarifas de cerca de 300 produtos, mas tirar Pix, minerais críticos e política interna da negociação
Ricardo Stuckert/Planalto - 20.abr.2026
de Brasília 17.jul.2026 (sexta-feira) - 17h19 Siga o Poder360 no Google
O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apresentou aos Estados Unidos uma proposta com concessões comerciais para tentar evitar a tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. O Brasil aceitou negociar temas como abertura de mercado e etanol, mas recusou propostas que envolviam o Pix, minerais críticos e restrições à relação com a China.
Desde o anúncio da nova rodada do tarifaço, o governo passou a separar as demandas americanas entre aquelas que poderiam ser negociadas e outras consideradas inegociáveis. O plano, entregue em 2 de julho ao representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, estipulava reduzir tarifas de importação em cerca de 300 linhas de produtos e discutir o mercado de etanol. Apesar das concessões, Washington passou a pressionar por uma abertura mais ampla, sem oferecer contrapartidas ao Brasil.
O documento foi elaborado pelo MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) depois de quase 1 ano de negociações entre os 2 países.
Segundo integrantes do governo, o Brasil sinalizou disposição para discutir temas de interesse dos Estados Unidos, desde que houvesse reciprocidade e ampliação do acesso de produtos brasileiros ao mercado norte-americano.
Entre os pedidos apresentados pelos Estados Unidos estavam a abertura de mercado para bens industriais, produtos da indústria química, setor automobilístico e aeronáutico, além da redução ou zeragem de tarifas sobre o etanol. Também houve demandas relacionadas à regulamentação de plataformas digitais e ao setor de minerais críticos, que foram consideradas pelo governo brasileiro como fora dos limites de negociação.
O principal tema levado pelo governo brasileiro foi a abertura comercial. A oferta brasileira foi reduzir tarifas de importação em cerca de 300 linhas tarifárias, concentradas em segmentos que o Brasil tem baixa produção nacional. A exemplo: máquinas, equipamentos e tecnologia da informação.
A avaliação do governo era de que a medida ampliaria o acesso de produtos americanos ao mercado brasileiro sem comprometer a indústria nacional.
O documento também buscava rebater os argumentos usados pelos Estados Unidos na investigação comercial contra o Brasil. Sustentava que políticas públicas brasileiras não criam distorções comerciais, nem discriminam empresas americanas.
O governo brasileiro aceitou discutir o mercado de etanol, mas qualquer concessão sobre o biocombustível deveria ser acompanhada da redução das tarifas aplicadas pelos Estados Unidos ao açúcar brasileiro –superiores a 100% para exportações acima da cota anual de 150 mil toneladas.
Apesar da disposição para negociar temas comerciais, o governo estabeleceu limites. O Pix ficou fora das conversas. A orientação dada foi não discutir qualquer mudança envolvendo o sistema de pagamentos desenvolvido pelo Banco Central.
Os Estados Unidos incluíram o Pix na investigação comercial aberta contra o Brasil sob o argumento de que políticas públicas na área de pagamentos digitais poderiam afetar empresas americanas do setor. O governo brasileiro rejeita essa interpretação e sustenta que o sistema é uma política pública, sem caráter discriminatório.
Embora a China não tenha sido mencionada nominalmente, integrantes do governo afirmam que a referência era ao país asiático. E o governo não cogita romper tratados com outros países para atender aos Estados Unidos.
O governo Lula recusou discutir esse tipo de compromisso. A avaliação foi de que aceitar restrições dessa natureza significaria interferir na autonomia brasileira para definir parceiros comerciais e investimentos em recursos estratégicos.
A proposta brasileira foi entregue depois de cerca de 30 reuniões realizadas ao longo de um ano entre representantes dos 2 governos.
Na avaliação do Planalto, o Brasil apresentou concessões comerciais e respondeu tecnicamente às críticas feitas pelos Estados Unidos.
Mesmo assim, Washington manteve a decisão de aplicar a tarifa de 25% sobre produtos brasileiros a partir de 22 de julho.
Apesar do fracasso das negociações, o governo afirma que pretende manter o diálogo com Washington. A avaliação é de que a relação bilateral vai além da disputa comercial e que é necessário preservar os canais diplomáticos para tentar reverter as medidas adotadas.
O cenário segue incerto, já que novas restrições podem ser impostas unilateralmente pelos americanos –como a taxa de 12,5%.
Ademais, por conta do caráter político do tarifaço, a avaliação no Planalto é de que as eleições presidenciais de 2026 tendem a influenciar os próximos passos da negociação.


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