Cofundador da Coalização Brasil Clima, Florestas e Agricultura conversou com o 'Estadão' depois de participar do evento Brasil Adiante

O conceito de "capital natural" é o valor que um produto ou serviço pode adquirir com base na utilização de recursos naturais na sua cadeia de produção. Ou seja, atribuir ao valor final deste bem um preço relacionado ao insumo utilizado, que foi fornecido pela natureza — que é finito e importante para o sucesso das empresas.

E valorizar este capital natural é o que Roberto Waack, cofundador da Coalização Brasil Clima, Florestas e Agricultura, acredita para a Amazônia se tornar também um vetor de desenvolvimento para o Brasil.

"Para dar tangibilidade ao que a gente diz quando fala que a natureza é importante, a gente precisa transformar em política pública que permita medir e relacionar essa medição com incentivos fiscais, aporte de recursos de um banco de desenvolvimento, o reconhecimento de municípios, reconhecimento de proprietários que têm isso", diz Waack.

O especialista, que também é presidente do conselho do Instituto Arapyaú, conversou com a reportagem na quarta-feira, 19, depois de participar do Brasil Adiante, evento organizado pelo Estadão que reúne especialistas para debater soluções concretas que podem ser aplicadas ao longo dos próximos dois anos pelo governo eleito em 2026.

Na conversa, ela cita também a importância de levar maior infraestrutura para a Amazônia — saneamento básico, educação e ferrovias —, e como a ausência do Estado e de investimentos na região também favorecem o crescimento do crime organizado e de atividades ilegais como alternativa aos serviços regulares.

"Você tem o garimpo ilegal, a legalização de madeira de origem ilegal e a área de conquista de terras ilegais, esquentando o dinheiro da droga. Essas questões estão totalmente conectadas. E pior: ela está contaminando tremendamente o ambiente político", diz. Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

Valoração do capital natural. Um país como o Brasil, que tem a riqueza que a gente tem do capital natural, devia liderar essa discussão no mundo. Do que estou falando? Quando eu falo de capital natural, eu estou falando de serviços que a natureza oferece para a humanidade: provimento de água, ar, minérios, biodiversidade.

A relação do capital natural com o clima tem a ver com a emissão de carbono. Então, nós precisamos ter uma regulação muito avançada, muito sofisticada de como a gente mede carbono. O Brasil tem uma capacidade importante de estoque de carbono, mas também de retirada de carbono da atmosfera, mas a gente ainda não está com todas as metodologias reconhecidas de carbono no solo e a relação do carbono com o agronegócio, por exemplo. Então, precisamos avançar na discussão de carbono.

No caso de recursos hídricos, a água provavelmente é o bem mais importante da humanidade. E nós não estamos gerenciando bem os recursos hídricos, nós não estamos reconhecendo o que significam, por exemplo, as chuvas e o quanto elas estão ligadas com a conservação da Amazônia. A ciência já está mostrando esses caminhos, mas a gente precisa de políticas públicas que reconheçam a importância desse serviço ecossistêmico.

No Brasil, 20% da produção de café depende de polinizadores que saem das áreas de conservação. Para dar tangibilidade ao que a gente diz quando fala que a natureza é importante, a gente precisa transformar em política pública que permita medir e relacionar essa medição com incentivos fiscais, aporte de recursos de um banco de desenvolvimento, o reconhecimento de municípios, reconhecimento de proprietários que têm isso.

Então, é um processo de dar tangibilidade ao capital natural e aí ele virar política pública que vire reconhecimento econômico do capital natural.

Não é uma coisa fácil. O capital, principalmente o capital natural no Brasil — ainda bem — é extremamente biodiverso, a gente tem vários sistemas de produção. O que a gente não teve ainda é a necessária dedicação para essa caracterização. Ele é complexo, e, por ser complexo, a gente já se afasta um pouco.

Tem uma coisa revolucionária acontecendo, que é a inteligência artificial e data management. Eu costumo dizer que a inteligência artificial e a gestão de dados vão nos aproximar da natureza como nenhum outro instrumento. Pode parecer uma contradição, porque a gente vai usar algo artificial para nos aproximar da natureza. Nós estamos cercados de expressões da natureza: no que a gente come, no que a gente veste, nas madeiras, enfim.

Mas a gente não tem ainda uma relação de como aqueles produtos foram originados a partir de um gene, por exemplo. E a inteligência artificial, data management, o que se chama de sequenciamento gênico, etc., está nos aproximando do que é a natureza, como ela funciona e como a gente pode interagir melhor com ela.

Então acho que são avanços tanto no campo de políticas públicas que considerem a complexidade, mas também avanços na ciência. E aí o Brasil precisa avançar demais. A gente está muito aquém da revolução que está acontecendo nessa área.

Lá, 30% dos domicílios têm tratamento de esgoto. Não é possível que a gente tenha acesso ao saneamento com uma porcentagem como essa. Todas as vias de acesso são extremamente complicadas. A gente tem um potencial de recursos, dos rios, no transporte fluvial, ferrovias... A gente não está levando a sério o quanto as ferrovias podem ser economizadoras de custos, que têm um impacto na redução de emissões de carbono.

Mas é uma discussão difusa. O que acontece no fim é que as populações da Amazônia ficam isoladas, com acessos a sistemas de transporte extremamente precários, caros. A Amazônia gera 35% da energia do Brasil, mas, desse total, 8% ficam na Amazônia.

Essas contradições precisam ser resolvidas: investimento em hospitais, investimento em escolas, investimento em mobilidade. Tudo é muito abaixo do que é a média brasileira. Nós estamos falando de 15% da população brasileira, 8% do PIB, 4% do investimento em ciência e tecnologia. Essa equação precisa ser mudada, porque lá tem o capital natural, que é considerado um dos mais importantes do mundo.

Na hora em que a gente fala de benefícios para a população local, a gente também tá endereçando o crescimento da criminalidade. Porque, de certa maneira, a criminalidade vai ocupando espaços em que o Estado não está presente, e começam a oferecer, por exemplo, internet, as milícias, etc. Então, claro que a gente tem de combater o crime, mas o combate ao crime está associado a oferecer às populações locais melhores condições de vida, de uma maneira geral.

"Com certeza. Grande parte do que acontece na relação droga, ouro, madeira e terra é praticamente um combo. Você tem o garimpo ilegal, a legalização de madeira de origem ilegal e a área de conquista de terras ilegais esquentando o dinheiro da droga. Essas questões estão totalmente conectadas. E pior: ela está contaminando tremendamente o ambiente político.