Para analista, ao criar novas situações negativas na relação Brasil-EUA, Trump provoca um peso sobre o governo Lula, que terá que se defender. Mas impacto sobre eleitores indecisos tendem a ser pequeno.

Role, Da BBC News Brasil em São PauloPublished 6 agosto 2026Tempo de leitura: 7 minA dois meses da eleição de outubro, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta duas frentes de crise diplomática que podem atrapalhar o petista no objetivo de avançar sobre eleitores indecisos, segundo analistas ouvidos pela BBC News Brasil.

De um lado, está mais um capítulo da crise com os Estados Unidos de Donald Trump, que revogou o visto da embaixadora do Brasil no país; do outro, menos influente, está a piora na relação com a Argentina de Javier Milei, que tem feito críticas ao presidente brasileiro, levando o Itamaraty a rebaixar o nível das relações diplomáticas com Buenos Aires.

Para o cientista político Hilton Fernandes, do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), ao criar uma série de situações negativas na relação Brasil-EUA, seja com as tarifas, a classificação de organizações criminosas como terroristas e, agora, com a retirada do visto da embaixadora, Trump provoca um peso sobre o governo Lula.

"O governo terá de se defender e, como consequência, pode alimentar o discurso da oposição de ser um governo radical, antiamericano, comunista", avalia.

A também cientista política Mayra Goulart, coordenadora do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ressalta, porém, que a proximidade das novas crises ao período de campanha, que tem início em 16 de agosto, oferece menos possibilidades de se conquistar o pequeno grupo de eleitores que flutuam entre os dois candidatos.

"A proximidade de qualquer crise que ocorra perto das eleições não aumenta a magnitude do seu efeito sobre os votos, na medida em que a maioria já está decidida. Mas ela aumenta sua decisividade, pois sobra menos tempo para reversão do pequeno grupo de eleitores voláteis", avalia Goulart.

Segundo a última pesquisa Nexus/BTG, divulgada nesta semana, entre os eleitores de Lula, 83% dizem ter o voto definido; entre os de Flávio Bolsonaro, 80%.

A pesquisadora ressalta que as rusgas internacionais "não convertem ninguém" nesse grupo, já decidido com Lula ou Flávio. Mas elas podem aparecer com força na propaganda eleitoral a partir de 16 de agosto, tendo algum papel nos poucos votos em disputa.

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Fim da Promoção da eleição 2026

Segundo os analistas, o momento dessa crise é diferente de outras envolvendo especialmente os EUA. Em 2025, no primeiro tarifaço de Trump, a esquerda e Lula tentaram uma união em torno da bandeira da "soberania nacional". Nas pesquisas que se seguiram, o governo melhorou sua avaliação.

Mas Goulart explica que o discurso de "soberania" não mudou o fato de que o país seguiu polarizado sobre tema tarifaço, que voltou à tona em junho com uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros.

De acordo com a última pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, de agosto, 49,2% dos eleitores não veem ameaça à soberania na tarifas, 47,7% veem.

Também segundo a última pesquisa da Genial/Quaest, divulgada nesta quarta-feira (5/8), diminuiu o número de brasileiros que consideram a resposta de Lula à guerra comercial de Trump positiva.

Em maio, 39% avaliavam bem a resposta do governo petista à ação de Trump; agora, em agosto, foi para 38%, dentro da margem de erro. Entre os que avaliam mal a resposta do presidente, o índice saiu de 36% em maio para 43% agora. Ou seja, o saldo era positivo de +3 para o governo, mas passou para o negativo de -5 pontos percentuais.

A professora avalia que o discurso de soberania acabou, como tantos outros, polarizado, com pouco efeito sobre eleitores que não se enxergam fiéis a um dos lados. Porém, diz Goulart, há alguma chance de o governo surfar no conflito envolvendo a retirada do visto embaixadora brasileira nos EUA, Maria Luiza Ribeiro Viotti, na terça-feira (4/8)

Como o caso não envolve uma repercussão econômica, pode se sobressair a ideia de "humilhação simbólica do Estado".

"Para disputar o pouco de voto que ainda está em jogo, o canal produtivo hoje é o da dignidade diplomática, não o comercial", diz.

A medida contra Viotti, segundo apurou a BBC, foi um retaliação pelo fato de o governo brasileiro ainda não ter aprovado a indicação do nome do deputado estadual da Flórida Daniel Perez ao cargo de embaixador no Brasil, solicitada em junho.

Integrante do Partido Republicano, ele é aliado de Trump e, no ano passado, chegou a ser citado como possível candidato ao cargo de procurador-geral do estado.