Em todo o Brasil, a arquitetura continua a tomar forma por meio de diferentes práticas, escalas e relações com o lugar. A seleção deste mês destaca atuações que operam além dos limites convencionais da disciplina, abordagens coletivas que reconectam projeto e…
Escrito por Reyyan Dogan
Leia a versão original em inglês aqui.
Publicado em 16 de Setembro de 2026
CompartilharFacebookTwitterMailPinterestWhatsappOuhttps://www.archdaily.com.br/pt/1185209/brasil-em-foco-este-mes-na-arquitetura-no-paisagismo-e-na-pratica-coletiva
Prancheta "COPY" copiarEm todo o Brasil, a arquitetura continua a tomar forma por meio de diferentes práticas, escalas e relações com o lugar. A seleção deste mês destaca atuações que operam além dos limites convencionais da disciplina, abordagens coletivas que reconectam projeto e construção, e projetos que respondem à paisagem, à memória e à comunidade. Ao lado de edifícios e espaços públicos recém-concluídos, novas intervenções culturais em São Paulo e no Rio de Janeiro evidenciam ainda mais como a arquitetura se cruza com a arte, o patrimônio e o ambiente urbano.
Práticas brasileiras expandem o escopo da atuação arquitetônica
Duas práticas brasileiras estiveram entre as 20 selecionadas no 2026 ArchDaily Next Practices Awards, premiação que reconhece abordagens voltadas a ampliar o papel da arquitetura por meio de diferentes formas de atuação. Sediada no Rio de Janeiro, a AGENCIA TPBA trabalha com instalações temporárias, edifícios, propostas urbanas e concursos, utilizando diferentes escalas e formatos para explorar as relações entre espaço, construção e cidade. Em Anápolis, Goiás, Talles Lopes, com atuação em arquitetura, artes e pesquisa, recorre ao levantamento arquivístico e visual para examinar as paisagens periféricas do Brasil e suas formas de representação. Embora utilizem métodos distintos, ambas as iniciativas abordam a arquitetura para além de um formato profissional rígido, utilizando a obra construída, a especulação, a pesquisa e o material de arquivo como meios de engajamento com o ambiente construído do país.
USINA revisita a arquitetura por meio da construção coletiva
Mais de três décadas de atuação em habitação de interesse social e autogestão tornaram a USINA — Centro de Trabalhos para o Ambiente Habitado (USINA CTAH) uma referência fundamental em construção coletiva no Brasil. Um editorial sobre a atuação do grupo analisa como a industrialização e a crescente especialização separaram o projeto dos processos de construção, financiamento, gestão e habitação. Em contrapartida, os mutirões coletivos, as cooperativas e a construção autogerida reaproximam essas etapas, tratando o canteiro de obras como um espaço de saber partilhado e decisões conjuntas. O trabalho da USINA demonstra de que maneira a participação pode ir além da simples consulta, inserindo o próprio ato de construir no cerne do processo arquitetônico e questionando quem detém o conhecimento e o poder de decisão na produção do ambiente construído.
Projetos em Destaque
Território-Parque / MACh Arquitetos + Connatural
No Córrego do Feijão, a MACh Arquitetos e a Connatural desenvolveram o Território-Parque como uma premissa para reconectar a comunidade com sua paisagem e história após o rompimento da barragem em 2019. O projeto articula quatro áreas interligadas: a Área Central, o Campo de Futebol, o Parque Ecológico e a Área Simbólica, por meio de uma estratégia paisagística centrada na água. Canais de irrigação, wetlands construídos e jardins filtrantes combinam-se com espaços públicos, culturais, recreativos e ecológicos. Elementos preexistentes, como uma casa de adobe, a vegetação nativa e os muros de pedra seca do cemitério, foram incorporados ao projeto. A proposta também introduz um jardim sensorial e um espaço de velório dedicado à memória das 272 vítimas, enquanto um mercado comunitário e o Centro de Cultura e Artesanato oferecem espaços para produção local, oficinas e atividades culturais.
Infantil do Colégio Santa Cruz / Andrade Morettin Arquitetos Associados
Em São Paulo, o escritório Andrade Morettin Arquitetos Associados projetou o Infantil do Colégio Santa Cruz em torno de um pátio central que atua como o principal espaço de convivência e lazer. O pátio também cria uma zona de transição entre a escola e a Marginal Pinheiros, com a volumetria do edifício funcionando como barreira acústica, ao mesmo tempo que se abre para o norte. As salas de aula organizam-se ao redor do pátio e conectam-se a quintais individuais, favorecendo a iluminação natural, a ventilação cruzada e as atividades ao ar livre. Uma rampa leva ao pavimento superior, onde o refeitório, as salas administrativas e os ateliês de artes se abrem para terraços cobertos. O edifício de 3.417 metros quadrados adota um sistema estrutural modular que combina madeira engenheirada, concreto, aço e drywall, permitindo que os espaços se adaptem às transformações do projeto pedagógico ao longo do tempo.
Mirante de São Jorge / Alan Chu
Localizado na Chapada dos Veadeiros, próximo ao Parque Nacional, o Mirante de São Jorge ocupa o topo de um morro que já era utilizado pela comunidade para contemplar o pôr do sol. Projetado por Alan Chu, o projeto minimiza seu impacto no terreno ao se implantar em uma clareira em desuso e utilizar uma estrutura elevada sobre pilotis que preserva a topografia, a drenagem natural e a vegetação nativa. Uma fita circular de oito metros de largura conforma um mirante com 57 metros de diâmetro em torno de um grande vazio central, criando um espaço contínuo para permanência e observação da paisagem circundante. Uma cobertura curva de madeira garante abrigo, enquanto árvores preexistentes atravessam a estrutura, reforçando a conexão com o lugar. O projeto concilia um espaço de encontro público com uma abordagem de baixo impacto na paisagem do Cerrado.
MASP inaugura nova passagem subterrânea interligando seus dois edifícios em São Paulo
View this post on Instagram A post shared by Fortes D'Aloia & Gabriel (@fortesdaloiagabriel)
Em São Paulo, o MASP concluiu a nova passagem subterrânea que conecta o icônico edifício de 1968 projetado por Lina Bo Bardi ao recém-inaugurado edifício Pietro Maria Bardi. Projetada para integrar a circulação entre os dois blocos do museu, a galeria de aproximadamente 50 metros de comprimento foi aberta ao público em 11 de setembro e conta com Pietrolina, uma nova obra de 98 metros de extensão da artista brasileira Beatriz Milhazes. Desenvolvida especialmente para o local, a instalação combina um trecho de pintura de 60 metros com elementos reflexivos, trazendo uma experiência imersiva à conexão subterrânea do museu.
ArtRio 2026 explora arte, arquitetura e espaço público no Rio de Janeiro
No Rio de Janeiro, a ArtRio 2026 acontece na Axia Marina da Glória de 16 a 20 de setembro, estendendo-se além dos pavilhões de exposição por meio de uma série de instalações site-specific e intervenções ao ar livre. O Jardim das Esculturas da feira reúne trabalhos de 18 artistas sob seleção da curadora Christiane Laclau, com as obras posicionadas em diálogo com o Pão de Açúcar, a Baía de Guanabara e os jardins de Burle Marx no Parque do Flamengo. Entre os destaques, Caminho de Casa, de Heberth Sobral, utiliza o cobogó como ponto de partida para uma instalação espacial que discute memória, pertencimento e transformação, enquanto o inflável de sete metros de altura Soft Power, de Gabriel Massan, ocupa as áreas verdes na parte externa dos pavilhões.



0 Comentário(s)
Deixe seu comentário