Enquanto apostava bilhões de dólares no metaverso e em dispositivos para acessá-los, a Meta encontrou nos óculos casuais com inteligência artificial um sucesso inesperado. Se Google e Snap chegaram antes, foi a empresa

Enquanto apostava bilhões de dólares no metaverso e em dispositivos para acessá-los, a Meta encontrou nos óculos casuais com inteligência artificial um sucesso inesperado. Se Google e Snap chegaram antes, foi a empresa de Mark Zuckerberg que encontrou a fórmula para torná-los viáveis. Atingir 9 milhões desses aparelhos vendidos é sinal disso, mas são evidências maiores ter forçado o Google a esquecer do desastre do Google Glass e ver até a Apple seguir por esse caminho.

Com a popularidade, porém, vieram as inúmeras polêmicas. As crises de privacidade protagonizadas por Facebook, Instagram e companhia no mundo digital colocaram o pé em nossas ruas, praças e elevadores para reviver a incômoda sensação de ser filmado sem consentimento por alguém trajando um acessório casual.

E, se os óculos já respondem a comandos de voz, exibem informações na lente e até permitem executar ações em aplicativos com gestos manuais, agora a Meta está em busca de talentos brasileiros para desenvolver serviços para eles. E vai pagar por isso.

A Meta entabulou uma parceria com o CEIA-UFG (Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás) e criou o Programa AI Glasses Brasil:

Estudantes de Harvard criaram um sistema de reconhecimento facial para rodar nos óculos de IA da Meta. Com isso, surgiam nas lentes informações sobre alguém captado pelas câmeras do aparelho. Os dados eram extraídos da internet. Ainda que não tenha sido criado pela empresa, a função acendeu dois alertas:

Agora, a Meta quer induzir os desenvolvedores a pensar fora da caixa logo de partida e imaginar soluções para acessibilidade, educação, saúde, turismo, produtividade e criatividade. O primeiro item da lista, aliás, já apresenta entusiastas, visto que pessoas com deficiência visual abraçaram os acessórios, que dá a elas maior autonomia. Num supermercado, por exemplo, não precisam de auxílio para identificar entre diferentes tipos de marcas de sabão em pó ou de biscoitos. Basta perguntar aos óculos.

Paira sobre os óculos inteligentes a sombra do histórico da Meta, que coleciona casos de abusos à privacidade de seus usuários. O último deles foi liberar sua IA para usar fotos dos perfis no Instagram. Bastava indicar a conta e falar as instruções da alteração, e o Meta IA dava conta do resto. Prato cheio para golpes e modificações indesejadas com as fotos das pessoas. Depois da repercussão negativa, ela voltou atrás. Reconhecer é um passo importante, mas melhor mesmo seria aprender com erros do passado, já que o Facebook usou reconhecimento facial durante dois anos para identificar pessoas em fotos, mas tirou a função do ar em 2021 após uma chuva de críticas.

A despeito da desconfiança em torno da empresa de modo geral, os óculos despertam receios só seus. Muito disso vem da experiência desastrosa do Google Glass, cuja presença deixava quem estivesse próximo desconfiado de estar sendo filmado sem aviso. No caso dos óculos da Meta, um LED começa a piscar para sinalizar gravações. Usuários, no entanto, começaram a contornar o aviso, e a Meta passou a impedir os óculos de gravarem caso o LED fosse danificado ou inutilizado.

Ponto de alerta mesmo é onde ficam guardados as fotos e os vídeos gravados com os óculos. Esses arquivos são obrigatoriamente armazenados nos serviços de nuvem da Meta e usados para a empresa treinar seus modelos de IA. E boa parte desse aperfeiçoamento é feito por seres humanos com acesso a essas imagens, muitas delas íntimas —tem até atividades sexuais.

Não sei se está em vista, mas cairia bem exigir camadas adicionais de privacidade para aplicações criadas pelos brasileiros —e, na verdade, por quaisquer outros.

Toda semana, Diogo Cortiz e Helton Simões Gomes conversam sobre as tecnologias que movimentam os humanos por trás das máquinas. O programa é publicado às terças-feiras no YouTube do UOL e nas plataformas de áudio. Assista ao episódio da semana completo.

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