Márcio Elias Rosa afirma que tarifaço dos EUA mira o governo Lula e relata pedido de abertura industrial rejeitado pelo Brasil.
O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, afirmou que o tarifaço de 25% imposto pelos Estados Unidos ao Brasil funciona como uma sanção ao governo Lula (PT), e não como instrumento comercial de arrecadação ou regulação de mercado.
Participante das tratativas com representantes americanos, Elias Rosa disse que rejeita a ideia de que o estilo de negociação de Donald Trump represente um “novo normal”. “O Brasil é vítima nesse processo, mas não é covarde. Nós não vamos ficar amedrontados frente a uma potência, que realmente é importante, significativa, e está nos causando dano. Não vamos ceder”, afirmou em entrevista à Folha.
O ministro relatou que os americanos pediram a abertura total do mercado brasileiro para bens industriais dos EUA, especialmente nos setores químico, automotivo e de autopeças, em modelo semelhante ao acordo firmado pela Argentina de Javier Milei. “O governo do presidente Lula não vai negociar isso. Nem hoje, nem amanhã, nem depois”, disse.
Para Elias Rosa, a investigação americana baseada na Seção 301 reuniu fundamentos que não correspondem à relação comercial entre os dois países. Ele afirmou que os EUA usam instrumentos tarifários há anos, mas disse que não se pode usar tarifa “para obter resultado político eleitoral numa outra nação soberana”.
Segundo o ministro, Washington propôs que o Brasil reduzisse a zero as tarifas sobre bens industriais americanos, sem contrapartida equivalente. Elias Rosa afirmou que o Brasil acumulou déficit de US$ 450 bilhões com os EUA em 15 anos e que uma abertura ampla poderia ampliar esse desequilíbrio e atingir a indústria de base.
O governo brasileiro, de acordo com ele, apresentou proposta de redução de impostos em mais de 300 linhas tarifárias para tentar equilibrar a relação. Entre os exemplos citados pelo ministro estão equipamentos médicos, bens de capital e alguns eletroeletrônicos, com alíquotas que poderiam cair de 25% para 18% ou de 7% para 0% ou 3%.
Elias Rosa disse que o Brasil também deixou claro desde o início que não negociaria o Pix. Sobre o etanol, afirmou que a discussão deveria incluir o açúcar, já que 100% do produto exportado pelo Brasil aos EUA paga tarifa e o volume acima de uma cota pequena enfrenta alíquota de 100%.
Na última reunião com Jamieson Greer, representante de Comércio dos Estados Unidos, na terça-feira (14), o ministro pediu que nenhuma tarifa fosse aplicada, que a lista de exceções aumentasse, que ela pudesse passar por revisão a qualquer momento e que a alíquota de 25% fosse rediscutida para baixo. Ele disse que o Brasil não sairá da mesa de negociação.
O ministro afirmou que os dois governos tiveram mais de 30 reuniões desde abril do ano passado e rejeitou a acusação de que o Brasil não negociou. Ele também apontou risco de a alíquota chegar a 37,5%, caso outra recomendação da Seção 301, relacionada a trabalho forçado, tenha efeito cumulativo.
Sobre a Lei da Reciprocidade, Elias Rosa disse que o governo só decidirá após medir o impacto econômico do tarifaço. “A Lei de Reciprocidade não nos autoriza a aplicação de uma medida irrazoável. Ninguém está autorizado a perder o juízo com a lei. Não vamos usar se for ruim para o Brasil”, afirmou.
O ministro também acusou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de prejudicar as negociações ao questionar o governo brasileiro em conversas com americanos. “Ele foi lá falar: ‘Olha, tem muita corrupção, não tem combate ao crime transnacional’. Esse era um dos argumentos da 301 e foi usado para justificar a tarifa”, disse.
O governo ainda calcula o reforço ao Plano Brasil Soberano para apoiar setores atingidos. Elias Rosa disse que a definição do valor deve começar na próxima semana, em conversas com segmentos afetados e com a Confederação Nacional da Indústria; a estimativa inicial é de montante inferior aos R$ 15 bilhões ou R$ 20 bilhões cogitados em fases anteriores, e o Congresso já aprovou a medida provisória que permite ampliar a disponibilidade de recursos.

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