No dia 4 de Outubro 160 milhões de eleitores vão às urnas decidir o futuro do Brasil. Flávio Bolsonaro e Lula estão na frente da corrida presidencial. O que pode ditar a vitória e derrota de cada um?
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Começa agora o Contracorrente da Rádio Observador. Esta segunda-feira lançamos a pergunta: que Brasil vai a votos e que Brasil resultará destas eleições? Gostamos sempre de conhecer a sua opinião, por isso participe, ligue-nos para o 91 002 41 85, envie-nos a sua mensagem de voz através do WhatsApp usando o mesmo número ou deixe os seus comentários nas nossas redes sociais. Luís Soares.
Hoje viajamos até ao Brasil, onde já está em marcha a campanha eleitoral para as eleições presidenciais de 4 de outubro. Daqui a um mês e meio, mais coisa menos coisa, mais de 158 milhões de eleitores vão a votos para decidir quem será o próximo presidente brasileiro. Há dois candidatos que são os mais bem posicionados para vencer, Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Isto, pelo menos, é o que dizem as sondagens. Neste Contracorrente, vamos tentar perceber que Brasil é este que vai a votos e que Brasil poderá resultar destas eleições. Ao longo destas duas horas vamos ter vários convidados, entre eles o José Bourbon Ribeiro, especialista em comunicação, que está já conosco em estúdio. Bom dia, bem-vindo.
Bom dia, muito obrigado pelo convite.
Mas Helena, vamos começar por contextualizar aquilo que nos traz aqui hoje, não é?
Bem, para já convém dizer a lista dos candidatos à presidência em 2026. Serão eles Luiz Inácio Lula da Silva, Clariana Barão, Edmilson Costa, Augusto Curi, Flávio Bolsonaro, Hertz Dias, Pablo Marçal, Renan Santos, Ronaldo Caiado, Rui Costa Pimenta, Samara Martins, Wilson Grassi e Zema. Espero não ter errado.
São 13, ao todo, se não me engano.
Treze candidatos. Agora, é claro que também interessa perceber o porquê de várias destas candidaturas, sabendo, à partida, que várias destas pessoas não têm qualquer possibilidade de ser eleitas. E por que é que estão nesta corrida e o que é que pretendem estando nesta corrida? A realidade política brasileira, aquilo que é o mundo parlamentar brasileiro, aquilo que é a forma como depois se fazem os diversos arranjos entre os candidatos e os eleitos, os diferentes eleitos, deputados, tudo isso, os congressistas, é algo que não tem paralelo com a nossa realidade. Convém que se perceba que não podíamos vir aqui apetrechados da nossa grelha, os nossos partidos, as nossas disciplinas de voto. Por exemplo, a questão da disciplina de voto é um mundo absolutamente ao inverso e que cria, muitas vezes, resultados e dinâmicas que a nós aqui nos escapam por completo. E não estou a dizer que sejam melhores, que sejam piores, estou a dizer que há duas coisas a ter em conta antes de irmos com os nossos óculos, aqui portugueses e um pouquinho europeus, para estas eleições. Em primeiro lugar, a escala. Nós não estamos a falar de um país qualquer. Nós estamos a falar de um país que não tem a dimensão dos Estados Unidos, mas estamos a falar de um dos grandes. Ou seja, nós podemos pensar que tivemos eleições há tão pouco tempo, foram recentes, no Chile, tivemos na Colômbia, tivemos na Argentina, ganhou o Milei, o Peru, mas quer dizer, nós aqui estamos a falar de algo completamente diferente pela escala que o próprio país tem. Depois, estamos a falar de um país que, pela sua própria dimensão e pela sua inserção, aí já falando no subcontinente, é um país que tem fronteiras com 10 outros países. Eu, como disse hoje quando apresentei o programa, de repente percebi que o Brasil tem fronteira com a França. Aliás, será a maior fronteira terrestre da França, por causa da Guiana. É um detalhe, mas é o que é. Dá muito conta daquilo que é o Brasil. O Brasil só não tem fronteira terrestre no subcontinente com o Chile e com o Equador. De resto, tem fronteira com a Argentina, tem fronteira com a Bolívia. Sobretudo a fronteira com a Bolívia é uma fronteira importante, tem fronteira com a Argentina. Portanto, estamos a falar de um país que tem uma inserção geográfica que não tem paralelo, muitas vezes, naquilo que nós estamos a pensar. Depois, estamos a falar de um continente que tem nas outras eleições, estou a pensar, sei lá, o caso da Argentina, do Chile, da Colômbia, do Equador, da Bolívia, El Salvador, Paraguai, que estará a virar à direita. Mas é claro que, o Peru, sem qualquer desprimor para estes países e até para a sua dimensão, que em muitos casos é muito superior à portuguesa, a verdade é que ao lado do gigante, que é o Brasil, as eleições no Brasil acabam por ter um efeito no subcontinente muito superior. Temos também a questão da Venezuela, com a intervenção norte-americana. Portanto, estas eleições são muito mais. São as eleições do Brasil, mas são as eleições de um Brasil que tem um peso, que é certamente o que corresponde à sua dimensão, à sua importância, à sua economia, à sua influência. Nunca subestimar a diplomacia brasileira. Nunca convém subestimar a diplomacia brasileira. Há muitas coisas extraordinárias no Brasil, até porque o Brasil, pela sua própria dimensão, é um país onde pode acontecer tudo e o seu contrário, e acontece, certamente. Mas há algumas coisas que o Brasil tem
A uni-lo, a dar-lhe estrutura, densidade e união, que é muitas vezes aquilo que não acontece noutros países. O Brasil tem uma língua, que felizmente é a nossa, que o une. Depois haverá outros fatores, alguns falarão da questão do futebol e de outros assuntos e de outras questões, talvez a melhor música do mundo, mas isso é outro assunto e para ser discutido noutros programas. Mas tem uma noção, e sempre teve, muito clara da defesa dos seus interesses. Aquela ideia sambinha e distração, e muito sol e muito samba, e vamos todos dançar, não se aplica à diplomacia brasileira. É muito clara naquilo que lhe interessa, naqueles que são os seus objetivos, e muitas vezes, e nós vemos isso aqui, até na questão dos PALOP, por exemplo, a forma como o Brasil impôs a sua versão da norma do português. Não há grandes abraços fraternos, muitas vezes, entre o Brasil e os outros PALOP, nada disso. Aliás, vê-se o mal-estar que isso causa com um outro país muito importante, que é Angola. O Brasil é muito claro nisso e sempre teve uma diplomacia muito bem estruturada, nada leve, por assim dizer. A forma como, por exemplo, os acordos para o açúcar e para outras questões têm sido negociados pelo Brasil, nomeadamente em Bruxelas, são importantes e muitas vezes interessantes de seguir. A questão da relação com os Estados Unidos, que o Brasil entende e percepciona como uma relação estruturante. Aliás, a influência americana no Brasil é enorme. Muito daquilo que acontece no Brasil, percebe-se muito mais à luz daquilo que são os Estados Unidos e da influência dos Estados Unidos, do que à luz daquilo que é a origem, que nós achamos sempre que ainda estamos no tempo dos capitães donatários. É muita influência norte-americana e, por outro lado, é a noção de que esta relação, e é claro que haverá tensões dentro da política brasileira sobre isso, ou seja, nunca se deixarem capturar, embora às vezes isso pareça acontecer, pela administração norte-americana do momento. Essa é uma tentação, às vezes, mais ou menos óbvia, mas a questão é que a relação com os Estados Unidos é muito importante. Quando as administrações norte-americanas ou não são da mesma área política, ou são mais erráticas, como a presente administração, há ali momentos de tensão. Mas curiosamente, esta noite já aconteceu um debate entre alguns candidatos. É interessante, o Brasil só começou a ter debate entre os candidatos, por razões que a história do Brasil explica, não por eles não fazerem boa televisão, mas porque não eram propriamente uma democracia. Os debates entre os candidatos presidenciais começam em 89.
89. Collor contra Lula.
Temos aí tudo o José Borbon Ribeiro. Nós esperaríamos que tivessem começado muito antes, tendo em conta a pujança, mas como é óbvio, não puderam começar antes. Embora haja países que têm democracias e demoraram, resistiram muito a estes modelos de debates, mesmo aqui na Europa. Estou a pensar o caso da França, que também resistiu um pouco aos debates entre os candidatos presidenciais. Portanto, o que nós temos aqui é uma eleição que é muito mais do que a eleição do Brasil, pelos efeitos que pode ter, as ondas de impacto que terá, certamente, seja qual for o resultado, e depois o resultado que vai ter e o impacto que irá ter dentro do próprio Brasil. Como disseste, Luís, nós estamos com dois candidatos principais, Luiz Inácio Lula da Silva, um veterano já destas coisas, atual presidente, e temos Flávio Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro. Eles estão praticamente empatados, embora com números mais favoráveis a Luiz Inácio Lula da Silva. Mas como dizia, é perceber se Flávio Bolsonaro consegue ser e afirmar-se como um candidato per si, e não como a pessoa que está porque o pai não pode estar. E o pai era, de facto, um bom candidato, no sentido até desarmante do discurso. Muitas vezes havia ali, por um lado, um dizer de coisas que o caracterizava, mas depois isso partilhava com o Lula uma afetividade. Agora estamos em uma eleição em que Lula da Silva está mais, pareceu-me, daquilo que tenho ouvido, e note-se que Luiz Inácio Lula da Silva deu uma entrevista ao mesmo tempo que estava a decorrer este debate, ao qual ele não foi. Luiz Inácio Lula da Silva parece estar mais gastado ou, pelo menos, com uma voz mais gastada, mas vamos ver como é que isso se confirma durante a campanha, que será certamente profissionalíssima. E vamos ver também como é que Flávio Bolsonaro consegue, ele mesmo, afirmar-se não apenas como o eco Do pai que não pôde ser o candidato e em que aquele setor político apostou durante muito tempo, ainda na possibilidade de ele poder vir a ser candidato. Portanto, apenas e para acabar, isso nota-se na entrevista que Luiz Inácio Lula da Silva deu e também um pouco em algumas preocupações do lado da campanha de Flávio Bolsonaro, que são os escândalos nos círculos mais próximos destes dois principais candidatos. E vimos como isso foi explorado ontem naquele debate para início de campanha, e que nós vemos Luiz Inácio Lula da Silva tentar minorar as consequências do escândalo em que está envolvido um dos seus filhos. E durante a entrevista, ele aludiu diretamente a isso, procurando certamente cobrir essa parte. Temos também Flávio Bolsonaro, aqui com um problema com um banqueiro, que também apanha o PT de Luiz Inácio Lula da Silva, mas também, na verdade, patrocinou um filme sobre Jair Bolsonaro, e isto teve uma consequência nos números de intenção de voto em Flávio Bolsonaro. Portanto, os candidatos, não sei se vão ambos procurar apagar estes rastilhos que aqui estão, mas por aquilo que se viu ontem, parece-me que os outros candidatos não os vão deixar esquecer desses grandes problemas. Portanto, é isto, o Brasil vai a votos. Agora vamos ver. Que Brasil é este?
Zé Bermudo Ribeiro, mais uma vez, bem-vindo, especialista em comunicação, que acompanha de perto esta realidade política e social do Brasil, escreve até bastante sobre ela.
12 anos. Sou neto de brasileira, pai de brasileira, tenho uma filha a viver no Brasil, só não sou brasileiro por acaso.
Está mais do que habilitado a falar sobre aquilo que vem passando no Brasil. E começo, se quer, por lhe lançar uma das perguntas, que é o mote deste programa. Que Brasil é este que vai a votos?
É um Brasil muito complexo. Bom dia e muito obrigado pelo convite. É um gosto estar aqui na Rádio Observador. Desde logo, complexo pelo primeiro tema que a Helena Matos trouxe, que é a escala. A escala, se nós traçarmos uma linha reta entre Moscovo e Lisboa, não é suficiente para ligar o Óio Pochoí, que é o ponto mais alto e o ponto mais baixo do Brasil. E a escala, além de dar uma imensidão territorial, e depois populacional, são 213 milhões de habitantes. Esta eleição serão 158 milhões de eleitores.
Com voto obrigatório.
Com voto obrigatório a partir dos 18 anos até aos 70, facultativo dos 16 aos 17 e a partir dos 70, mas sobretudo com voto obrigatório. O efeito da escala no comportamento das pessoas, na forma como se fala a língua portuguesa. O efeito da escala no tempo, nordeste muito quente, o sertão nordestino árido, o sul, onde neva, tudo isto transforma aquele país em muito mais do que um ponto no mapa. E nós muitas vezes, e a Helena tocou nisso e eu acho que muito bem, tendemos a olhar o Brasil como a realidade que nos entrou em casa desde os anos 70 com a Gabriela Cravo e Canela, com as férias em Porto Galinhas, etc. É muito mais do que isso. É isso, mas é muito mais do que isso. O Brasil é um país com algumas desigualdades, é um país que fez avanços muito grandes nos últimos anos, sobretudo a partir dos governos de Fernando Henrique Cardoso e depois consolidado por Lula, com o Bolsa Família, que é um tema ainda hoje de grande discussão, mas retirou de pobreza extrema dezenas de milhões de brasileiros. E é um país que está a viver uma polarização extremada, este país que vai a votos. Mas não é uma polarização política. A polarização política é aquela em que os extremos discutem impostos, se eu vou taxar as empresas, se eu vou taxar os rendimentos, se faço um imposto flat ou se faço proporcional ou de outra forma qualquer. Não, aqui é aquilo que os cientistas políticos chamam de polarização afetiva. Eu convido quem nos está a ouvir e quem se possa interessar por estes temas a pegarem dois livros, um de Felipe Nunes, que se chama "Brasil ao Espelho", e outro do Felipe Nunes e do jornalista Thomas Traumann, que se chama "Biografia do Abismo", onde se explica sociologicamente, que é o tema que me interessa mais aqui, que é a sociopolítica, essa análise sociológica e política, que explica que o Brasil não está dividido ao meio. O que acontece é que há dois blocos, esquerda e direita, que estão calcificados, é a expressão que o Felipe Nunes usa, e a direita é a direita bolsonarista, que vale 12%, e a direita não bolsonarista, que vale 21%, grosso modo, vale 35% este bloco. Do outro lado, a esquerda lulista, que vale 20%, e a esquerda não lulista, que valerá uns 12% a 15%, outros 35%. E no meio, há 30% de independentes, que na realidade são quem decide as eleições. Destes 30%, 20 não se interessam pela política. São obrigados a ir, se forem obrigados a ir, votar e fazem qualquer coisa, e há 10% que são uma parte muito interessante no Brasil, e talvez a parte que eu acho mais interessante no Brasil, porque são microempreendedores, pessoas que a ciência política define como classe C, que ganha entre, o salário mínimo brasileiro são 1200 reais, é uma miséria, mas ganha entre 210 reais até 2 mil e poucos reais. E essas pessoas, que não foram beneficiárias do Bolsa Família diretamente, porque não eram habilitados a receber, acabaram por ser indiretamente beneficiados porque tinham o seu pequeno salãozinho de beleza e quem tinha o Bolsa Família conseguia aceder finalmente ao salão de beleza E são pessoas muito empreendedoras. Em 52% dos lares brasileiros, o arrimo familiar é uma mulher. Ou seja, quem paga a conta é uma mulher.
Daí também temos, neste momento, uma preocupação muito grande nas duas principais campanhas, e penso nas outras também, mas nas duas principais, o Flávio Bolsonaro e o Lula, em torno do voto feminino.
Claro. Sobretudo o Bolsonaro, porque no meio disto tudo, brigou com a madrasta, publicamente, com vídeos. Ela é muito inteligente.
E foi um trunfo da campanha do Jair Bolsonaro.




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