Segundo maior emissor de gases de efeito estufa no Brasil, o setor agropecuário é hoje um desafio para o cumprimento das metas climáticas. Puxado pelo aumento da atividade de criação de gado, principal propagadora de metano na atmosfera, o segmento foi

Segundo maior emissor de gases de efeito estufa no Brasil, o setor agropecuário é hoje um desafio para o cumprimento das metas climáticas. Puxado pelo aumento da atividade de criação de gado, principal propagadora de metano na atmosfera, o segmento foi responsável por 29% das emissões totais em 2024 - último dado disponível. Foi a maior participação em mais de 30 anos. Em 2023, era 24%. O metano é muito mais potente que o dióxido de carbono (CO?) e responde por cerca de um terço do aquecimento global.

O assunto será debatido na segunda edição do Sustainable Finance Summit, evento sobre economia "verde" e estratégias de financiamento dessa nova economia que tem o UOL como parceiro. O summit acontece em Goiânia no dia 3 de setembro.

A categoria chamada de mudança de uso da terra, onde as queimadas estão inseridas, é a líder em poluição climática, mas sua participação caiu de 46% para 42%. Como resultado, as emissões totais de gás carbônico equivalente foram reduzidas em 16,7%, para um total de 2,14 bilhões de toneladas. Foi a segunda maior queda anual desde 1990, quando o Seeg (Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa) passou a produzir relatórios sobre o tema.

Por outro lado, a agropecuária teve uma redução pontual de 0,7% nas emissões, mas sua trajetória continua sendo de alta, acompanhando o crescimento do rebanho, estimado em 238 milhões de animais pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Isso demonstra, segundo especialistas, que as políticas públicas estão funcionando na questão de queimadas, mas são menos adotadas ou menos eficientes no agro.

Em 2024, o Brasil emitiu 21 milhões de toneladas de metano na atmosfera, equivalentes a 579 milhões de toneladas de CO?. A agropecuária foi responsável por 75% desse volume, sendo 92% advindas da fermentação entérica, o arroto do boi. O país é o quarto maior emissor mundial desse gás.

Considerado uma das maiores bases de dados sobre efeito estufa, o Seeg lançou, em agosto, um relatório voltado exclusivamente a soluções para a queda de emissões de metano no país. Entre as 37 propostas, 15 são voltadas à agropecuária, com foco na redução dos efeitos do arroto do gado bovino.

A maioria das medidas já é conhecida e faz parte de programas do Ministério da Agricultura, mas precisam ser adotadas em maior escala. Para a pecuária, incluem consumo de alimentos de menor emissão, redução da idade de abate, melhoramento genético, recuperação de pastagens e crédito para essas práticas, principalmente para pequenos e médios produtores, além de sugestões que valem também para a agricultura, como sistemas integrados agricultura-pecuária-floresta.

O coordenador de Ciência do Clima do Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola), Gabriel Quintana, diz que o relatório reúne alternativas viáveis para cada setor. Segundo ele, a agropecuária é o único setor que consegue, ao mesmo tempo, reduzir as emissões e tornar-se mais produtivo e eficiente. "Adotar essas práticas é uma chance de ouro."

Uma medida defendida por Quintana é a ampliação do uso de tecnologias, especialmente no rastreamento do gado, essencial para acompanhar as práticas adotadas pelos produtores. O rastreamento já é previsto nos planos ABC, vigente de 2010 a 2020, e ABC+, de 2020 a 2030, do Ministério da Agricultura, mas começou a avançar apenas há três anos. De acordo com ele, "ainda há um caminho longo a ser percorrido" para aperfeiçoá-la.

Um chip, geralmente instalado na orelha do animal, é conectado a uma central de dados e permite o acompanhamento de todo o ciclo de sua vida: local de nascimento, de engorda e de abate, vacinas e alimentação. Também ajuda a gerar dados oficiais, hoje não disponíveis em todas essas etapas, por exemplo sobre número de cabeças monitoradas e de propriedades que já adotam a prática, informações que podem orientar políticas específicas para cada região.

Na opinião de Michelle Borges, gerente executiva da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável, a adoção dessas práticas pode ser maior do que indicam os dados atuais. Falta, diz ela, um padrão nacional de informações. Os números disponíveis não retratam completamente o setor e há divergências, por exemplo, até sobre o tamanho do rebanho.

A associação reúne mais de 60 organizações de todos os elos da cadeia pecuária e defende linhas de crédito específicas para práticas sustentáveis, especialmente para pequenos produtores. Entre as prioridades do setor, Michelle destaca a integração lavoura-pecuária-floresta, rastreabilidade e capacitação dos produtores, além de políticas públicas e subsídios governamentais.

Apesar da redução dos desmatamentos, o Brasil não deve conseguir atender seu primeiro compromisso estabelecido pela NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada), uma espécie de prévia voluntária sobre as emissões totais de 2025. O resultado será divulgado em outubro.

David Tsai, coordenador do Seeg, afirma que as projeções apontam para um aumento das emissões no ano passado. Se confirmadas, o resultado será 9% superior ao limite da meta climática, que prevê corte de 37% nas emissões até 2025 em relação a 2005. Outro compromisso, o de reduzir em 30% as emissões de metano até 2030, provavelmente também não será cumprido, ficando para 2035.

Apesar dos desafios, há produtores que avançam em ações sustentáveis. A fazenda centenária Gabinete, em Sidrolândia (MS), conseguiu aumentar sua produtividade de até seis arrobas por hectare, quando tinha 3.500 cabeças de gado, para 36 arrobas, com 1.200 animais.

A melhoria ocorreu ao longo de dez anos, após a introdução gradual de várias medidas sustentáveis orientadas por uma consultoria. O tempo de engorda caiu de três ou quatro anos para 10 a 12 meses.

A divisão do uso da terra foi invertida: 10% passou a ser destinada à pecuária e 90% à agricultura (boa parte arrendada para terceiros). Com a redução da quantidade de gado, foi possível fazer um rodízio de pastos, com uma parte para o gado usufruir da grama farta em épocas de chuva e outra para se regenerar na seca. Nesse período, ocorre a integração lavoura-pecuária com o cultivo de soja.

A fazenda de 4.600 hectares foi adquirida em 1846 pelo tataravô de Ruy Fachini Filho, de 63 anos, um dos quatro membros da sexta geração da família —a sétima está sendo preparada. Seu pai, que morreu em 2023 após comandar o negócio por 73 anos, manteve 21% da área como reserva florestal, assim como as várias nascentes que hoje fornecem água canalizada para o gado.

Facchini conta que a fazenda também produz milho e, em 2022, inaugurou uma fábrica de ração que complementa a alimentação do gado. Ela é preparada com milho, torta de algodão e DDG, um derivado do milho rico em proteína e de alta digestibilidade. Em dez anos, ele pretende voltar a ter cerca de 3.200 cabeças.

Toda a carne é destinada ao mercado europeu, mas a exportação será interrompida a partir de setembro devido à norma da União Europeia que proíbe o uso de antimicrobianos como promotores de crescimento, embora seus animais não recebam esses produtos. Enquanto não houver acordo entre Brasil e UE, Fachini pretende vender o produto no mercado interno.