Especialistas apontam que o desafio agora é garantir a permanência dos estudantes e transformar o aumento das matrículas em formação e diplomas

O Brasil atingiu um número recorde de pessoas matriculadas em universidades. Dados mais recentes apontam que 10,23 milhões de estudantes estão vinculados a algum curso de graduação, somando instituições públicas (20,2%) e privadas (79,8%). Em contrapartida, ainda há dificuldade no País em reter esses alunos até o final do curso.

Uma a cada quatro pessoas (24,8%) abandona o Ensino Superior presencial antes de se formar, enquanto 41,6% dos que fazem a graduação na modalidade de ensino a distância (EAD) desistem do curso no meio do caminho.

Os dados estão na edição deste ano do Mapa do Ensino Superior, um estudo do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp), que traça um raio-X da educação universitária brasileira. Os números são referentes ao ano de 2024.

Especialistas ouvidos pelo Estadão apontam que o País tem avançado na oferta de vagas para o Ensino Superior, sobretudo dentro de um desenho de expansão do ensino a distância (EAD). Mas precisa se debruçar sobre desafios, como tornar o ensino mais acessível para um público mais aderente - sobretudo os jovens - e converter as matrículas em diplomas e aprendizados.

"O desafio brasileiro já não é apenas abrir a porta da universidade. É criar condições para que o estudante permaneça, aprenda e conclua sua formação", diz Priscila Claro, diretora de Graduação do Insper.

Em resposta, o Ministério da Educação (MEC) destacou medidas para melhorar a qualidade e a permanência no ensino superior, especialmente no EAD. A pasta cita a nova política para a modalidade, que ampliou exigências e proibiu cursos 100% a distância em licenciaturas, além do novo Enade e da Prova Nacional Docente.

O governo afirma que a nova política, instituída pelo Decreto nº 12.456/2025 e pela Portaria MEC nº 381/2025, busca garantir que a expansão da modalidade não resulte em precarização da formação. Os cursos EAD que foram proibidos pelos novos normativos, segundo o ministério, já entraram em processo de extinção no sistema e-MEC.

Sobre evasão e ampliação de cursos, o MEC informou que ampliou investimentos na Educação Superior, abriu novos campi universitários e fará abertura de novas universidades federais em 2027. Diz também ter ampliado e reajustado o valor das bolsas de permanência estudantil para indígenas e quilombolas (veja mais abaixo).

Um dos principais fatores que explicam o recorde de matrículas é a expansão acelerada do ensino a distância, que hoje responde por mais da metade dos inscritos no Ensino Superior no País. São cerca de 5,18 milhões de alunos aprendendo de forma remota (50,7%), ante 5,03 milhões dos que estudam presencialmente.

O alto índice de desistências, em parte, também está relacionado ao EAD e ao perfil prevalente de quem procura o ensino remoto. "São pessoas mais velhas, que já estão no mercado de trabalho e buscam fazer um curso a distância para ter uma melhoria profissional", explica Rodrigo Capelato, diretor executivo do Semesp.

Mais de 60% dos matriculados em EAD têm acima de 30 anos, enquanto 65% dos estudantes no ensino presencial têm até 24 anos.

Apesar do recorde de matriculados, ele destaca que apenas 20% dos jovens no Brasil estão em uma universidade. Ou seja, cresce porque a demanda é alta e a margem para crescimento também é grande. "Tem muita gente ainda para entrar. Muito mais que esse crescimento tem sido registrado", aponta.

Nesse sentido, o EAD tem se apresentado como alternativa aos cursos presenciais, que tendem a ser mais custosos aos alunos. Além de as matrículas serem mais caras no caso de instituições privadas, o estudante precisa gastar ainda com deslocamento, alimentação e, eventualmente, moradia.

Em geral, dizem os especialistas, a desistência é explicada por fatores como perda de renda, incapacidade de pagar mensalidades, dificuldade de conciliar estudo com outras tarefas, além do arrependimento da escolha do curso.

"90% dos alunos têm renda familiar de até três salários mínimos. Além disso, muitas vezes, há uma formação na escola básica pública deficitária. O aluno chega na graduação e não consegue acompanhar o curso", diz Capelato.

Há também motivos inerentes ao próprio ensino a distância, como a falta de contato com professores e colegas e dificuldades para organizar os estudos no ensino remoto.

"O EAD leva ao Ensino Superior quem não chegaria, mas, quando é oferecido sem interação, acompanhamento e apoio, pode transformar flexibilidade em isolamento e, consequentemente, evasão", diz Priscila Claro.

O diretor executivo do Semesp volta a citar o perfil dos alunos como um fator importante para as interrupções das graduações remotas.

"No caso dos estudantes mais velhos, já estão há mais tempo fora dos estudos, têm dificuldade para acompanhar e precisam combinar (o curso) com todo o seu tempo de trabalho e família. Então, a probabilidade de evadir acaba sendo crescente."

Diante desse cenário, o MEC afirma que promoveu uma reestruturação das regras para a modalidade. Além de restringir a oferta de cursos 100% a distância em licenciaturas, o ministério destaca a criação do novo Enade das Licenciaturas e da Prova Nacional Docente (PND).