Psicanalista de 45 anos que trocou o Brasil pelo Japão em 2019 fala sobre sua experiência vivendo no país que é adversário da Seleção na Copa.
Terremoto e xenofobia são as duas grandes preocupações da brasileira Carine Sayuri Goto, psicanalista de 45 anos que trocou o Brasil pelo Japão em 2019. Embora essas duas palavras de sons fortes e significados assustadores metam certo medo, ela acredita que o saldo é positivo.
"O Japão apresenta dificuldades para os brasileiros. Mas a vida que eu levo aqui é muito melhor do que a vida que eu levava no Brasil", diz ela. "Moro em uma cidade tranquila, me locomovo de bicicleta com a segurança de que nenhum carro vai me atropelar, enquanto mulher não me sinto ameaçada na rua, não sofro assédio andando pela rua, coisa que no Brasil a gente sabe que é muito comum…"
"Acho que tive alguma sorte de conseguir ter essa vida agora", comenta.
A comunidade brasileira no Japão é imensa — dados oficiais do Itamaraty registram mais de 210 mil cidadãos do Brasil morando lá, o que faz da nação o quinto país estrangeiro com o maior número de brasileiros. A grande maioria desses brasileiros está lá para enfrentar jornadas exaustivas de trabalho em fábricas, com o objetivo de juntar dinheiro e voltar para o Brasil. São os chamados decasséguis, palavra que significa "trabalhador distante de casa".
Foi uma estratégia do governo japonês para resolver a escassez de mão de obra na produção fabril. Nos anos 1980, para enfrentar essa questão, o Japão passou a ter uma legislação que facilitava a entrada de operários estrangeiros. Na década seguinte, uma nova norma tornou o procedimento mais claro — a partir de então, descendentes de japoneses até a terceira geração, os chamados sanseis, podem trabalhar lá com um visto de residência longo.
Nesta segunda-feira (29/06), essa comunidade brasileira planejava estar atenta ao confronto no futebol entre seu país natal e a nação que escolheram para morar. Brasil e Japão fizeram o confronto na fase mata-mata pela Copa do Mundo, e a Seleção brasileira levou a vaga nas oitavas.
Ao pensar nesse modelo de trabalho como regra, a psicanalista Goto é uma exceção. Mas foi como decasségui que ela viabilizou seu projeto de morar no Japão — e por 18 meses ela madrugou para trabalhar em uma fábrica de doces.
Nascida em Guarulhos, na Região Metropolitana de São Paulo, Carine Sayuri Goto formou-se em psicologia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2006. Em 2011 e 2012 ela fez uma especialização na área de assistência social na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em 2018, concluiu seu mestrado — também na Unesp.
No Brasil, ela construiu sua carreira no Centro de Atenção Psicossocial (Caps), instituição do Sistema Único de Saúde (SUS) de atendimento de saúde mental.
"Eu trabalhava com políticas públicas de saúde mental", recorda. "Era supervisora clínica do Caps, fazia supervisão das equipes. Rodava o interior de São Paulo."
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Foi nesse contexto que, no primeiro ano da gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro no comando do país, ela achou que era hora de procurar outros ares. "Nessa época, essas políticas públicas começaram a ficar um tanto vulneráveis. O governo havia mudado e as parcerias que a gente tinha com o Ministério da Saúde começaram a ser desmontadas", conta. "Eu me vi com mestrado na mão e à beira de não ter mais trabalho."
Ela atribui a esse "cenário político e econômico" a decisão de emigrar.
A ideia, compartilhada com o marido, foi tentar a sorte no Japão. Na época, como ela ressalta, o país extremo-oriental "parecia um pouco isolado das questões que já estavam circulando no mundo da política, da extrema-direita, de xenofobia". "Parecia que o Japão não estava participando dessas discussões", relata.
No finzinho de 2019 Goto chegou à província de Yamanashi, com um contrato de três meses para trabalhar como operária em uma fábrica de doces. Ficou nessa profissão por um ano e meio.
"Trabalhar numa fábrica não é exatamente estar na sociedade japonesa", comenta — isso ela aprendeu na prática.
"Eu penso que a questão do trabalho é marcante sobre a forma como você enxerga o mundo", reflete. "Eu trabalhava na fábrica por muitas horas. Não tinha espaço para viver fora do trabalho."
Goto lembra que em determinadas épocas seu turno era transferido para uma jornada que começava às 3h da madrugada. "Eu tinha de acordar meia-noite. Não via a luz do sol", lamenta.
Mesmo assim, foi renovando seu contrato e trabalhou nessa situação por um ano e meio. Mas não perdeu seu foco: sua carreira na área de psicologia e psicanálise. Mesmo com jornadas estafantes, ela continuou participando de grupos de estudos de universidades brasileiras, de forma online.


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