Candidatos têm visões completamente opostas em temas de política externa. Lula propõe aposta em multilateralismo e reforço do Brics. Já Flávio fala em aliança com EUA de Trump e se "libertar das amarras do Mercosul".

https://p.dw.com/p/5MjHxAnúncioEm uma eleição presidencial que ocorre à sombra de tensões internacionais, os programas de governo dos dois candidatos mais bem posicionados nas pesquisas, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro(PL), apresentam propostas e visões diametralmente opostas em temas de política externa.

As diferenças de visão de mundo são explícitas quando se trata de temas como relações com os Estados Unidos, a participação do Brasil no Mercosul e no Brics, e até relações com Israel.

Os programas de governo dos dois candidatos protocolados junto à Justiça Eleitoral são vagos em vários temas específicos de política externa que vêm dominando o noticiário, muitas vezes sem detalhar propostas ou metas. Temas como relações com a União Europeia e as guerras no Oriente Médio e na Ucrânia, por exemplo, estão completamente ausentes das propostas.

Mas falas e ações de Lula e Flávio Bolsonaro nos últimos meses permitem preencher algumas lacunas e apontar que direção os dois candidatos pretendem dar à diplomacia brasileira nos próximos quatro anos.

Lula ainda voltou a bandeiras tradicionais do seu governo, como a defesa do Conselho de Segurança da ONU e de organismos como Organização Mundial do Comércio (OMC) e o Banco Mundial OMC.

O plano de diretrizes de governo de Flávio Bolsonaro é bastante breve em política externa, dedicando apenas duas páginas ao assunto, com boa parte dos parágrafos sendo usados para criticar a diplomacia da administração Lula em temas como Venezuela e Irã, argumentando que "política externa brasileira trocou o interesse nacional pela ideologia, protegendo regimes propensos ao terror e seus criminosos".

"Nossa proposta é o oposto: uma diplomacia guiada pelo profissionalismo e pelo pragmatismo, não pela ideologia", disse Flávio Bolsonaro, que é alinhado com os governos de ultradireita dos EUA, Argentina e Israel.

De específico, o programa de Flávio menciona que seu governo pretende retomar a inserção do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). E, de maneira mais genérica, o plano fala em aumentar a abertura comercial e ampliar acordos que abram novos mercados para o Brasil.

Lula: fortalecimento do bloco e defesa de alternativa ao dólar

O programa de Lula menciona o Brics três vezes. Atualmente, o Brics é formado por dez países: Brasil, Rússia, China, Índia, África do Sul, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos, Irã e Indonésia. Foi no segundo governo Lula que o bloco foi formado, com o Brasil entre seus fundadores.

No seu programa, Lula defende o aprofundamento das relações entre países do Brics e o fortalecimento de mecanismos financeiros do bloco – uma medida que é vista com hostilidade pelos EUA de Trump, que temem que o Brics possa minar a hegemonia do dólar no comércio mundial.

Desde que voltou ao Planalto, em 2023, Lula também defendeu publicamente que o bloco deveria adotar uma moeda de referência alternativa ao dólar para trocas comerciais entre países do Brics ou que os países usem suas próprias moedas locais. Em fevereiro, por exemplo, Lula mencionou essa possibilidade em entrevista a uma rádio da Índia. "Não é necessário que um acordo comercial entre Brasil e Índia precise ser feito em dólares americanos. O que eu defendo é que podemos usar nossas próprias moedas", disse.

Flávio Bolsonaro: retirar o Brasil do Brics?

O programa de Flávio não menciona o Brics uma vez sequer. Mas o candidato, que é alinhado com Trump, já deu declarações sinalizando que pode ser hostil ao bloco, que costuma ser alvo de críticas e ameaças por parte da Casa Branca.

Flávio, por exemplo, afirmou num podcast em junho que seu governo pode vir a retirar o Brasil do Brics. "No primeiro dia que eu me sentar na cadeira de presidente, vou reavaliar se o Brasil deve ficar em um bloco que é muito ideológico, usado para provocar os Estados Unidos", disse.

Ao mesmo tempo, Flávio Bolsonaro, novamente alinhado com os EUA, disse ser contra a possibilidade de redução de dependência do dólar americano em transações internacionais, refutando propostas de Lula e da Rússia nesse sentido, que já provocaram ameaças de retaliação por parte de Trump no passado.

Em julho, num ofício encaminhado ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), Flávio também propôs que o Brasil deve impedir que o Pix seja integrado a mecanismos internacionais de compensação financeira fora da esfera ocidental – ou seja, fora do alcance dos EUA.

Lula: "reafirmar soberania"

Desde a volta de Donald Trump ao poder nos EUA, em 2025, o Brasil sob Lula passou a ser alvo de repetidas rodadas de tarifas por parte da Casa Branca. Algumas com objetivos comerciais, outras foram encaradas como tática de pressão para beneficiar a família Bolsonaro, aliada de Trump.

O programa de governo de Lula não menciona os Estados Unidos nominalmente, mas faz várias referências veladas à posição de confronto da Casa Branca, defendendo que o Brasil determine suas políticas sem interferência externa e com autonomia. O texto parece seguir a postura do Planalto nos últimos meses, que tem criticado a interferência de Trump no Brasil, mas sem romper completamente com os EUA ou direcionar animosidade diretamente ao presidente americano, buscando uma solução negociada.