Um influente estudo publicado pela revista científica The Lancet em 2001 apontava que um em cada dez pacientes que sofrem parada cardíaca volta à vida com uma nova memória profunda. Essa chamada experiência de quase morte (EQM) é tão vívida e convincente que muitas vezes reformula a visão do paciente sobre o mundo, a vida após a morte e sua própria identidade. Leia mais (06/26/2026 - 14h58)
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26.jun.2026 às 14h58
Jorge Andrés Delgado-Ron Analista de dados sênior na Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade Simon Fraser
Um influente estudo publicado pela revista científica The Lancet em 2001 apontava que um em cada dez pacientes que sofrem parada cardíaca volta à vida com uma nova memória profunda. Essa chamada experiência de quase morte (EQM) é tão vívida e convincente que muitas vezes reformula a visão do paciente sobre o mundo, a vida após a morte e sua própria identidade.
Ao contrário das experiências fragmentadas ou desorganizadas observadas em alucinações ou delírios, as narrativas de EQMs são caracterizadas por um alto grau de clareza e persistência. Quando questionados pelos pesquisadores, muitos pacientes identificaram a EQM como o momento mais importante de suas vidas.
Apesar de décadas de pesquisa acadêmica sobre essas experiências, pouco sobre as EQMs foi incorporado ao currículo das faculdades de medicina. Os pesquisadores de EQMs Marieta Pehlivanova e Bruce Greyson realizaram uma pesquisa com 215 médicos da Universidade da Virgínia, em 2024. Embora muito poucos deles tivessem visões patologizantes ou desdenhosas sobre as EQMs, esta pesquisa mostrou que a principal barreira para aceitá-las era o conhecimento. Consequentemente, a maioria dos médicos consultados expressou o desejo de aprender mais sobre elas.
Esse desafio não era desconhecido. De muitas maneiras, ele ecoava experiências de trabalho na área dos psicodélicos, outro domínio que envolve experiências profundas e muitas vezes transformadoras que continuam sendo mal compreendidas na medicina convencional.
Apesar do uso generalizado e do crescente interesse científico pelos psicodélicos, o Laboratório de Ecologias e Estilos de Vida Saudáveis (HEAL) da Universidade Simon Fraser constatou a falta de orientações claras e baseadas em evidências sobre o tema, tanto para o público quanto para os profissionais de saúde. Em resposta, o HEAL Lab desenvolveu um guia de saúde pública para o uso de baixo risco de psilocibina e está atualmente desenvolvendo orientações baseadas em evidências para a terapia assistida por psicodélicos de transtornos de saúde mental e de uso de substâncias.
Para abordar uma lacuna semelhante nas orientações baseadas em evidências no campo das experiências de quase morte, havia a necessidade de reunir a literatura científica disponível e fornecer guias práticos para médicos e outros profissionais que buscam entender melhor essas experiências.
Meu artigo "Cinco coisas a saber sobre: Experiências de quase morte", publicado no periódico Canadian Medical Association Journal (CMAJ), oferece orientações sucintas sobre o que são as EQMs e o que fazer a respeito delas. Talvez o ponto mais relevante do artigo seja que essas experiências não devem ser vistas como um comprometimento ou distúrbio mental, pois muitas vezes resultam em mudanças positivas na saúde mental.
Também reconheci o elefante na sala: as EQMs frequentemente apresentam narrativas do que os pacientes percebem como uma vida após a morte. Elas também podem descrever experiências extracorpóreas, que podem ou não ser verificáveis. No entanto, estruturas centradas no paciente e baseadas em evidências sugerem que os profissionais de saúde devem validar e explorar essas experiências com abertura e sem julgamentos.
A principal característica da EQM é um forte sentimento de pertencimento ou de estar "de volta ao lar", o que muitas vezes se traduz em uma profunda sensação de fusão com tudo. Os pesquisadores se referem a esse fenômeno como dissolução do ego.
É difícil estabelecer uma cronologia específica das EQMs, pois as pessoas muitas vezes não conseguem sentir a passagem do tempo. Elas diriam que o tempo parou ou que não havia tempo. É nesse contexto que surgem imagens vívidas de memórias. Não se trata de memórias comuns, mas de versões intensificadas, pois evocam não apenas os sentimentos do paciente, mas também os de outras pessoas que compartilharam cada momento com ele. Muitos chegam a um ponto sem volta, como um túnel ou uma ponte. O estudo AWAreness during REsuscitation II (AWARE II) inclui uma descrição temática abrangente das EQMs em seu material suplementar.
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As EQMs são frequentemente avaliadas por meio da Escala de EQM de Greyson, ou de um instrumento semelhante que avalia a intensidade desses diferentes aspectos. Usando esse método, pesquisadores identificaram uma afinidade entre as EQMs e outros estados alterados de consciência, particularmente aqueles produzidos por psicodélicos como a dimetiltriptamina (DMT). Compreender essa afinidade é útil porque estudos subsequentes sugerem que experiências com psicodélicos podem alterar significativamente traços psicológicos que são considerados os componentes da nossa personalidade.




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