Escritor, morto há 30 anos, teve obra marcada por exílio, angústias sem fim e HIV
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Danilo Thomaz Jornalista com mestrado em ciência política pela Universidade Federal Fluminense
[RESUMO] Caio Fernando Abreu morreu em fevereiro de 1996 em decorrência de Aids. Nesses 30 anos, firmou-se como grande contista e um dos mais pops escritores brasileiros, criador de um retrato vivo dos anos 70 e 80 que diz muitos aos jovens leitores de hoje. No texto a seguir, amigos relembram a trajetória singular, sardônica e angustiada do artista.
Em dezembro de 1995, a astróloga Graça Medeiros acompanhou o amigo Caio Fernando Abreu em uma visita ao médico. Vivendo em Nova York, Graça vinha ao Brasil a cada 15 dias, trazendo na mala frascos do 3TC para o escritor. À época, o acesso a medicamentos contra o HIV era ainda bastante restrito no Brasil pelo SUS.
Ao final da consulta, Caio perguntou ao médico se poderia ir à praia e ele o autorizou, para espanto de Graça. Assim que o amigo saiu para ir ao banheiro, ela tentou entender.
"O médico disse que não havia mais o que fazer", conta Graça, amiga de Caio desde a época em que os dois eram jovens universitários em Porto Alegre, na segunda metade dos anos 1960. "Ele não tem mais glóbulos brancos", disse-lhe o médico, em referência às células responsáveis pela defesa do corpo humano.
Era o início do fim da jornada de um peregrino que, ao longo de seus deslocamentos dentro e fora do Brasil, construiu uma obra que sintetizou as questões dos anos 1970 e 1980, sem se poupar do que aquele tempo reservou à sua geração.
Quando Caio nasceu de parteira, em 12 de setembro de 1948, em Santiago do Boqueirão —"terra de macho, tchê, quase na fronteira da Argentina, já ouviu falar?", como brincava—, as ruas eram de terra batida, não havia luz elétrica e chegava a nevar nos invernos mais rigorosos.
A mãe, Nair Loureiro de Abreu, era professora e sempre foi motivo de orgulho para o filho. Chegou a fazer faculdade e, vivendo em Porto Alegre, a cursar pós-graduação.
Foi, porém, Zaél Abreu, que seguiria na carreira militar até 1964, quem despertou nos cinco filhos o hábito da leitura, lendo para eles antes de dormir. Caio, "talvez por defeito de fabricação", como disse ao jornal O Globo, começaria a escrever aos 6 anos.
Ainda menino, passou a enviar textos para concursos locais. O primeiro, "O Príncipe Sapo" , foi publicado na revista Cláudia, em 1966. Anos depois, Caio comentou assim sua estreia:
"Numa tarde de novembro de 1966, eu estava em meu quarto no IPA, internato em Porto Alegre, lendo Graciliano Ramos, quando vieram trazer um envelope grande chegado de São Paulo. Era um exemplar da revista Claudia com este conto publicado e uma carta de Carmen da Silva [psicanalista e escritora]. Um ano antes eu enviara o texto a ela pedindo apreciação, e não recebera resposta. A carta explicava: Carmen queria me proporcionar a surpresa da publicação. Foi naquele momento que me tornei definitivamente escritor".
Foi na capital gaúcha, já vivendo em uma pensão na rua general Vitorino, no centro da cidade, que escreveu seu primeiro romance, "Limite Branco", publicado em 1971. A escritora Hilda Hilst sugeriu o título.
O livro conta os conflitos do processo de amadurecimento de Maurício, jovem que se muda do interior para a cidade grande. Ao reeditá-lo, pela Nova Fronteira, 25 anos depois, Caio confessou ter ficado "chocado com a sua, por assim dizer, inocência".




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