Pesquisa em cinco países aponta que 89% dos profissionais brasileiros ouvidos estão preocupados com os efeitos das altas temperaturas sobre mães e recém-nascidos
Compartilhar matériaO calor extremo é apontado por profissionais de saúde como uma ameaça crescente à saúde de gestantes e recém-nascidos. No Brasil, 89% dos profissionais que atendem esse público dizem estar preocupados com os impactos das altas temperaturas sobre os bebês, enquanto 77% acreditam que os riscos para mães e crianças devem aumentar nos próximos cinco anos.
Os dados fazem parte de uma pesquisa encomendada pela organização britânica Wellcome e divulgada nesta segunda-feira (5). O levantamento, realizado pelo instituto Censuswide, ouviu mil profissionais de saúde materna no Brasil, Reino Unido, Austrália, Índia e Zimbábue, com 200 entrevistados em cada país.
Considerando os cinco países, 73% dos profissionais afirmam ter observado aumento de casos ou complicações relacionados ao calor entre gestantes nos últimos cinco anos. Outros 76% relatam crescimento de problemas que afetam fetos ou recém-nascidos.
No Brasil, 79% dos entrevistados avaliam que a proteção de gestantes e bebês deveria receber mais atenção dos formuladores de políticas públicas. Para 80%, evidências científicas mais robustas poderiam contribuir para ampliar as ações de proteção. Entre os profissionais dos cinco países, 92% dizem precisar de mais treinamento e recursos para lidar com os impactos do calor sobre as gestantes.
A pesquisa foi divulgada antes da COP-31, conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas que será realizada entre 9 e 20 de novembro, na Turquia. Segundo a Wellcome, gestantes e bebês ainda são pouco contemplados em políticas e planos de adaptação às mudanças climáticas.
No Brasil, a organização financia pesquisas realizadas pelo Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs), da Fiocruz Bahia, que investiga a relação entre mudanças climáticas e saúde. O centro utiliza uma base de dados com informações de cerca de 140 milhões de pessoas, construída a partir do Cadastro Único e integrada a registros de saúde e dados climáticos.
Entre os principais efeitos investigados está a prematuridade. Estudos internacionais já associam a exposição a temperaturas extremas a um aumento do risco de parto prematuro. Pesquisadores do Cidacs buscaram identificar em quais períodos da gestação esse risco é maior.
Os resultados indicam que a exposição a temperaturas extremas está especialmente associada ao aumento do risco de parto prematuro no início da gestação e nas últimas semanas antes do nascimento.
Para definir o que é considerado calor extremo, os pesquisadores não utilizam apenas um limite fixo de temperatura. A análise leva em conta a temperatura habitual de cada município, já que a mesma marca no termômetro pode representar condições muito diferentes dependendo da região.
Os mecanismos que explicam a relação entre calor e complicações na gravidez ainda são estudados. Uma das hipóteses é que as alterações metabólicas e respiratórias provocadas pela gestação dificultem a capacidade do organismo de dissipar calor, aumentando a vulnerabilidade da mulher a temperaturas elevadas.
No caso do feto, as evidências ainda são mais limitadas. Uma possibilidade investigada pelos pesquisadores é que os efeitos do calor sobre o organismo da gestante possam contribuir para o início antecipado do trabalho de parto.
As consequências da exposição ao calor podem continuar após o nascimento. Um estudo realizado pelo Cidacs com cerca de 350 mil crianças identificou uma associação entre ondas de calor e redução da amamentação. Outra pesquisa, publicada na revista The Lancet Planetary Health, analisou aproximadamente 6 milhões de crianças registradas no Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), do Ministério da Saúde, e encontrou efeitos do aumento da temperatura sobre indicadores de crescimento infantil.
Os pesquisadores também identificaram diferenças nos impactos de acordo com características sociais e raciais das crianças. Segundo o grupo, a análise dessas desigualdades é uma das frentes que devem ser aprofundadas nas próximas pesquisas.
Além dos efeitos imediatos provocados por ondas de calor, os pesquisadores alertam para consequências menos perceptíveis do aumento gradual das temperaturas médias. Enquanto eventos extremos podem provocar aumento rápido de atendimentos e mortes, a elevação contínua da temperatura pode produzir um excesso de casos que não é necessariamente identificado pelos serviços de saúde como consequência do calor.
Para especialistas, medidas de proteção individual, como manter a hidratação e buscar ambientes mais frescos, são importantes, mas não mais suficientes. A capacidade de se proteger também depende das condições de moradia, trabalho e acesso a espaços climatizados.
A adaptação às altas temperaturas envolve ainda medidas urbanas e sociais, como arborização, criação de espaços públicos mais frescos e adequação das condições de trabalho para pessoas expostas ao calor. Os pesquisadores defendem que gestantes e crianças pequenas sejam consideradas grupos prioritários nas políticas de adaptação às mudanças climáticas. Segundo eles, além de ampliar a produção científica sobre o tema, é necessário transformar as evidências em medidas de prevenção e preparação dos serviços de saúde.
*Sob supervisão de Carolina Figueiredo




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