Fogachos estão entre os sintomas mais conhecidos da menopausa. Mas, além do desconforto, estudo aponta a relação entre os fogachos e a saúde cardiovascular

Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Acompanhada por Jennifer Aniston em uma entrevista, Drew Barrymore interrompeu a conversa de maneira inesperada. A atriz abriu o paletó, expirou e começou a se abanar. “Acho que estou tendo meu primeiro calorão”, anunciou. Aniston respondeu: “Estou tão honrada!”. Em seguida, pousou a mão sobre o corpo de Barrymore, como quem verifica a febre de alguém. O momento, registrado em vídeo, viralizou nas redes sociais.

Barrymore sentiu algo que a maioria das mulheres experimentará. Cerca de 70% a 80% delas apresentam fogachos, ondas repentinas de calor, durante o climatério e a perimenopausa. Por muito tempo, esses episódios foram tratados apenas como um desconforto associado à menopausa. Hoje, porém, estudos sugerem que eles também podem sinalizar um risco cardiovascular maior.

“O calorão é uma falha”, explica o médico ginecologista Jan Pawel Pachnicki, doutor em cirurgia e professor na Universidade Federal do Paraná, durante o IMS Rio 2026*. O fenômeno envolve os neurônios KNDy, um grupo de células localizado no hipotálamo que participa da regulação do sistema reprodutivo e da temperatura corporal. “Quando o estrogênio cai, o mecanismo de regulação fica desregulado e surgem as ondas de calor.”

Um estudo publicado no Journal of the American Heart Association mostrou que os fogachos estão associados a um maior risco cardiovascular. Uma das hipóteses é que a repetição das alterações que ocorrem durante esses episódios possa contribuir para mudanças na parede dos vasos sanguíneos e, consequentemente, aumentar a probabilidade de problemas cardiovasculares.

“Quando existe um fogacho, o vaso sanguíneo sofre uma alteração. Ele vai dilatar muito e depois ficar mais fino. A hipótese científica é que esse mecanismo de dilatação e de voltar outra vez ao normal provoca lesões na parede dos vasos sanguíneos, o que aumenta depois o risco cardiovascular”, diz Cecilia Caetano, vice-presidente de assuntos médicos e líder de geração de evidências em saúde feminina na Bayer.

Por isso, mulheres que apresentam mais fogachos podem ter maior risco de eventos cardiovasculares do que aquelas que apresentam menos episódios ou não os têm.

O tratamento precoce dos fogachos pode ser uma estratégia para reduzir o tempo de exposição a esses episódios. Até então, a terapia hormonal era uma das principais opções de tratamento, mas novos medicamentos específicos para os fogachos também devem chegar ao Brasil nos próximos anos.

Controlar os fogachos, porém, não elimina a discussão sobre a saúde cardiovascular. O aumento do risco após a menopausa já é conhecido e costuma ser associado, entre outros fatores, à queda dos níveis de estrogênio. “O homem pode infartar durante toda a vida, enquanto a mulher tende a aumentar o risco de infarto depois da menopausa. Com a queda do estrogênio, ela deixa de ter essa proteção [sobre o sistema cardiovascular]”, pontua Pachnicki.

Ao mesmo tempo, o sono é um fator de risco independente. Sua privação pode afetar diversos processos biológicos e também está associada ao ganho de peso, a escolhas alimentares menos saudáveis e à redução da atividade física. “E mais de 60% das mulheres apresentam algum tipo de alteração do sono durante a transição para a menopausa”, segundo Caetano.

Embora os fogachos possam contribuir para a fragmentação do sono, especialmente quando ocorrem durante a noite, a relação não é tão simples. Estudos que avaliaram objetivamente o momento dos fogachos e dos despertares indicam que, em uma parcela significativa dos casos, as mulheres acordam antes de apresentar o episódio de calor. Ou seja, nem todo despertar noturno durante a menopausa é causado por um fogacho.

Isso ajuda a explicar por que a terapia hormonal, embora reduza os fogachos, nem sempre elimina os problemas de sono. “Se fosse tudo relacionado aos fogachos, a terapia hormonal teria um efeito incrível sobre o sono, e não é isso que acontece. Existe mais alguma coisa. O sono é sempre multifatorial”, pontua Caetano.

Com a chegada da menopausa, diversos fatores de risco cardiovascular podem se somar, inclusive a redistribuição da gordura corporal. “Essa redistribuição acontece porque o estrogênio diminui. É como se o corpo passasse a ter uma proporção maior de androgênios, os hormônios masculinos. Então, muda aquele desenho de pera, mais comum nas mulheres, para um padrão mais parecido com o de maçã, associado aos homens”, explica Pachnicki.

Essa mudança é relevante porque a gordura acumulada na região abdominal está mais associada a alterações metabólicas e cardiovasculares. Assim, a mulher pode perder parte da proteção cardiovascular relacionada ao estrogênio e, ao mesmo tempo, passar a acumular outros fatores de risco.

A lógica, portanto, não é a de um único fator isolado, mas a de uma combinação de mudanças que podem ocorrer simultaneamente. A mulher pode perder parte da proteção cardiovascular proporcionada pelo estrogênio, apresentar mais fogachos, ter alterações no sono, ganhar peso e reduzir a atividade física, este último por conta do cansaço. “São vários fatores de risco que vão se somando e contribuem para que essa paciente tenha um evento cardiovascular no futuro”, afirma Pachnicki.

*A jornalista viajou para o IMS Rio 2026 a convite da Bayer.

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