Os canadenses queriam que seu primeiro-ministro, Mark Carney, mantivesse uma posição firme e não assinasse um acordo comercial ruim com os Estados Unidos. Mas o colapso das negociações com o governo de Donald Trump e a escalada da guerra tarifária terão um pr…
Os canadenses queriam que seu primeiro-ministro, Mark Carney, mantivesse uma posição firme e não assinasse um acordo comercial ruim com os Estados Unidos. Mas o colapso das negociações com o governo de Donald Trump e a escalada da guerra tarifária terão um preço.
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Os EUA implementaram no sábado uma nova tarifa de 50% sobre as importações de centenas de produtos canadenses, incluindo móveis, plásticos, madeira compensada e equipamentos elétricos. A alíquota é tão elevada que pode, na prática, fechar o maior mercado do mundo para algumas empresas canadenses.
Trevor Tombe, professor de economia da Universidade de Calgary, estima que 90 mil empregos — cerca de 0,4% da força de trabalho do Canadá — poderão ser perdidos caso as novas tarifas permaneçam em vigor.
Os mercados já estão reagindo: o dólar canadense caiu até 0,6%, para 1,3840 por dólar americano, registrando o pior desempenho entre 31 das principais moedas acompanhadas pela Bloomberg. O movimento reduziu parte da alta de 0,8% da semana passada, impulsionada pelo enfraquecimento da moeda americana e por sinais de que os dois países estavam próximos de um acordo.
Muitos pequenos fabricantes canadenses haviam ficado protegidos das primeiras rodadas de tarifas dos EUA, como as chamadas tarifas da IEEPA, porque Washington isentou produtos que cumpriam as regras do acordo comercial entre EUA, México e Canadá (Usmca), assinado por Donald Trump durante seu primeiro mandato.
A nova tarifa de 50%, porém, foi determinada por Trump com base em dispositivos nunca antes utilizados da Lei Tarifária de 1930 e ignora o acordo comercial. E o Canadá provavelmente sentirá os efeitos da disputa antes dos Estados Unidos.
O governo de Carney prometeu apoio financeiro às empresas atingidas pela guerra comercial. Isso, porém, pode ser mais complicado do que os pacotes de ajuda anteriores destinados a setores como o siderúrgico, que enfrenta tarifas americanas há mais de um ano.
As novas tarifas são “muito difusas e atingem, em particular, pequenas e muitas médias empresas em várias partes do país e em cadeias de suprimentos radicalmente diferentes”, afirmou Matthew Holmes, diretor de políticas públicas da Câmara de Comércio do Canadá. “É muito difícil, especialmente para o governo federal, elaborar um pacote de apoio para elas.”
Carney anunciou que o Canadá responderá com tarifas retaliatórias sobre US$ 20 bilhões em produtos americanos, incluindo aço, laticínios, eletrodomésticos e eletrônicos, a partir de 8 de setembro. O premiê reconheceu que a guerra comercial prejudicará a economia, mas enfatizou que o Canadá não iniciou o confronto.
“Você está em guerra quando é atacado. Nós fomos atacados”, disse Carney durante uma coletiva de imprensa de 50 minutos em Ottawa, menos de 12 horas depois do encerramento oficial das negociações.
Três em cada quatro canadenses apoiam a decisão de Carney de abandonar as negociações, segundo uma pesquisa online realizada pelo Angus Reid Institute após o colapso das conversas. Ao mesmo tempo, 38% das pessoas que estão no mercado de trabalho temem que a disputa afete seus empregos, e 89% receiam uma piora do custo de vida.
O fracasso das negociações reflete uma mudança permanente na postura comercial americana, afirmou a ex-ministra do Comércio canadense Mary Ng em entrevista à Bloomberg Television.
“Não vemos os EUA valorizando a integração de nossos mercados, que desenvolvemos ao longo de décadas”, afirmou, observando que o Canadá é o principal destino das exportações de pelo menos 25 Estados americanos e está entre os três maiores mercados para mais de 40 deles.
A postura de resistência permanece mesmo depois de setores da economia, como as montadoras de Ontário e as siderúrgicas, já terem sofrido perdas significativas e demissões em consequência das tarifas setoriais impostas por Trump no ano passado.
“Vimos que a população canadense está pronta para responder e não quer ceder ao que considera intimidação. Então, isso vai doer um pouco antes de melhorar”, disse Holmes.
Segundo pessoas familiarizadas com o assunto, o governo Carney vê poucas chances de retomada das negociações antes das eleições de meio de mandato dos EUA, em novembro.
O primeiro-ministro canadense está elaborando medidas para ajudar empresas prejudicadas pelas tarifas americanas a atravessar o restante do mandato de Trump, se necessário, acrescentaram as fontes, que pediram anonimato para discutir deliberações confidenciais.
Algumas delas ressaltaram, no entanto, que a situação continua em aberto e que os EUA não descartaram a retomada das negociações.
Carney afirmou que o acordo Usmca vem sendo “violado dia após dia” durante o segundo mandato de Trump e que os compromissos assumidos por Washington às vezes são “escritos a lápis”.




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