Desde 2024, médicos-veterinários podem receitar tratamento com cannabis medicinal para animais - Canva A medicina veterinária no Brasil já tem autorização para usar cannabis medicinal no tratamento de animais desde 2024, mas o que isso representa para a saúde dos pets? O uso da cannabis medicinal na medicina veterinária atua na modulação do Sistema Endocanabinoide, que é uma estrutura responsável por manter o equilíbrio celular e fisiológico do organismo de todos os vertebrados.
Por atuar como um fitocomplexo, o extrato da planta consegue tratar simultaneamente múltiplos sintomas em vez de isolar moléculas, apresentando alta eficácia em condições como dores crônicas, ansiedade, artrite, alergias, sequelas de cinomose e transtornos neurológicos.
Segundo Maíra Meira, Médica-veterinária com pós-graduação em Acupuntura, Fitoterapia e Cannabis Medicinal (@mairameira.vet), cada paciente tem sua necessidade e o uso de fitocanabinoides é uma das opções.
“O tratamento com cannabis pode ser a solução para condições clínicas onde o paciente não responda à alopatia (medicina convencional), mas não é regra que será sempre a melhor opção. O mais importante é entender a disfunção orgânica e escolher o melhor tratamento”, explicou Maíra.
A médica-veterinária salientou que o funcionamento da medicação com cannabis atua simulando o que o próprio corpo faz.
“Há produção natural, pelo próprio corpo, de moléculas muito semelhantes às moléculas que são encontradas na planta cannabis. Utilizar fitocanabinoides, que são moléculas da cannabis, auxilia o funcionamento deste sistema, que deveria estar acontecendo sem intervenção mas, por alguma disfunção, está em falha”, contou.
Um caso de sucesso acompanhado por Maíra foi o de Mel, uma cadelinha de oito anos que chegou ao ambulatório em dezembro de 2024. Sem movimentos nos membros pélvicos e dor intensa na coluna causados por meningoencefalomielite, Mel fazia uso de corticoide, gabapentina, fenobarbital e dipirona sem resolução do quadro.
"Iniciamos o óleo de Cannabis e fomos desmanando os medicamentos. Atualmente ela está totalmente recuperada e só utiliza o óleo", contou a médica-veterinária.
Desde 2022, Maíra trabalha com o uso de cannabis medicinal em animais dentro do Grupo de Estudos de Medicina Veterinária Integrativa da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) (@mv.integrativaufrpe). Coordenado pela professora Dra. Evilda Rodrigues de Lima, o grupo atua desde 2019 para desmistificar e promover o uso combinado de tratamentos convencionais e práticas integrativas com embasamento científico.
Em 1986, Evilda organizou o primeiro simpósio sobre práticas integrativas no departamento de medicina veterinária da universidade, convidando profissionais de acupuntura, homeopatia e florais. Na época, o tema sofria ainda mais discriminação.
Atualmente, as práticas são mais aceitas, mas o uso de cannabis medicinal ainda é um tabu. A regulamentação do uso de cannabis medicinal para pets no Brasil foi aprovada pela Anvisa apenas em outubro de 2024. Desde lá, todo médico-veterinário pode receitar o tratamento.
A docente destacou a aplicação dos fitocanabinoides no tratamento de distúrbios neurológicos em cães e gatos, ressaltando os avanços na síndrome de hiperestesia felina, onde o uso de cannabis medicinal substituiu o uso de medicamentos sintéticos, além do manejo da epilepsia e da disfunção cognitiva.
Para Evilda, é um desperdício não usar tratamentos como fitoterapia, visto que nem sempre o paciente apresenta melhora com a medicina tradicional.
"Por uma questão de preconceito e interesse de mercado, essa medicação (fitocanabinoides) foi marginalizada por muito tempo. Mas, se você tem receptores por todo o seu organismo, como é que a medicação não não faz efeito?”, questionou a pesquisadora.
A eficácia de tratamentos não convencionais nos animais tem comprovação ainda mais rápida que em humanos, segundo a coordenadora.
“No animal não existe nada sugestivo. Você dá uma medicação e não tem a parte em que ele vai achar que vai ficar bom ou não, ele não vai achar nada. Não existe efeito placebo no animal", contou.
Ciente disso, Evilda enfatizou que o ambulatório de rotina em Medicina Veterinária Integrativa do Hospital Veterinário da UFRPE, é um exemplo de sucesso nos tratamentos. A fila de espera para tratamento no ambulatório, segundo a pesquisadora, é imensa.
Para solicitar uma consulta no ambulatório, que é gratuito, assim como todo o serviço do Hospital Veterinário da UFRPE, o tutor deve ir presencialmente à recepção do Hospital Veterinário, na própria universidade, e colocar o nome do animal na lista de espera.
A regularização É importante reforçar que os fitocanabinoides para medicação não atuam no corpo de forma igual à planta in natura. O extrato medicinal de cannabis é um produto padronizado, composto por concentrações controladas de fitocanabinoides (como CBD e THC) diluídos em um veículo adequado.
Além de não apresentar potencial de dependência, o óleo conta com uma margem de segurança extremamente alta: mesmo em casos de ingestão acidental em maior quantidade, o efeito resultante limita-se à sonolência temporária, sem os riscos de overdose ou de complicações graves. Por essa razão, a administração medicinal do extrato distancia-se do uso empírico ou recreativo da planta e requer prescrição e acompanhamento veterinário para a definição da dose terapêutica individualizada.



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