Augusta Candiani Reprodução/Unicamp Se a vida de Augusta Candiani fosse um romance, ela teria todos os elementos de uma personagem impossível de ignorar: uma cantora que atravessou o oceano grávida, denunciou violência doméstica, perdeu a guarda da filha e fi…

Augusta Candiani — Foto: Reprodução/Unicamp

Se a vida de Augusta Candiani fosse um romance, ela teria todos os elementos de uma personagem impossível de ignorar: uma cantora que atravessou o oceano grávida, denunciou violência doméstica, perdeu a guarda da filha e ficou sem os próprios bens. Mesmo exposta e atacada publicamente pelo ex-marido, ela não abandonou os palcos.

Mas a história da artista, considerada a primeira cantora lírica do Segundo Reinado, acabou apagada da memória cultural brasileira após a Proclamação da República, em 1889. A mudança de regime e questões políticas influenciaram a forma como a trajetória de Candiani seria preservada — entenda abaixo.

No entanto, a trajetória da artista foi reconstruída em um livro vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico 2026, em 11 de agosto. A obra "Augusta Candiani – A prima-dona da época de D. Pedro II" foi escrita pela linguista Andrea Carvalho Stark e publicada pela Editora da Unicamp, em Campinas (SP).

Segundo a escritora, a jornada de Candiani não deve ser vista apenas como um drama biográfico isolado, mas como o retrato de resistência sob as dificuldades enfrentadas pelas mulheres para se firmar no mercado de trabalho artístico do século XIX.

“Ela conseguiu trabalhar durante cerca de 40 anos em todas as possibilidades de trabalho de uma artista da música e do teatro [...] Muito corajosa como mulher, e eu acho que a maior lição do ponto de vista pessoal, é essa coragem de se impor como mulher na sociedade e como artista de não fechar o leque. [...] Acho que a grande palavra seria resistência”, descreveu Andrea.

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Augusta Candiani — Foto: Reprodução/Unicamp

Quem foi Augusta Candiani?

Nascida em Milão, na Itália, Augusta Candiani chegou ao Brasil e estreou no Rio de Janeiro em 17 de janeiro de 1844, interpretando a protagonista da ópera Norma, de Vincenzo Bellini. Ela havia viajado grávida do primeiro marido e primo, Gioacchino Candiani.

Pouco depois da estreia, conquistou o público carioca e passou a ser chamada de “Deusa da ópera”. Candiani era a prima-dona da companhia, título dado à principal cantora de uma companhia de ópera, responsável pelos papéis de destaque.

Segundo Andrea, os admiradores mais fiéis da cantores se chamavam “candianistas” e promoviam homenagens e festas nos teatros onde ela se apresentava.

"Ela foi uma celebridade e mesmo assim ela foi para a música, foi para a modinha, ela foi para o teatro francês, trabalhou com peças de José de Alencar, Martins Pena... o que existia de possibilidade, ela fez", contou a escritora.

Por sua importância nos palcos, também ficou conhecida como “prima-dona de Pedro II” e “primeira cantora lírica do Segundo Reinado”. Sua chegada ajudou a recuperar o interesse do público pela ópera no Brasil, em uma época em que o gênero passava por um período de pouca atividade.

Candiani permaneceu por cerca de 40 anos nos palcos brasileiros e construiu uma carreira marcada pela versatilidade. Começou na ópera e no bel canto, participando das primeiras montagens de diferentes obras no país.

De acordo com a escritora, as mudanças no mercado teatral, também passou a atuar em peças dramáticas, operetas, vaudevilles e comédias, incluindo textos de autores como Martins Pena e José de Alencar.

Ela também se aproximou da música popular brasileira da época, interpretando lundus e modinhas imperiais. Com companhias teatrais, viajou por diferentes regiões do país e se apresentou em cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco e Rio Grande do Sul.

"Ela foi uma mulher, acho que muito à frente do seu tempo. Você segue a história, você vê uma história de muita luta, de muita luta e também de como o teatro e a música serviam como mercado e como forma de trabalhar para uma mulher. Então era fácil, ganhava-se muito? Não. Mas sobreviveram, sobreviveram, criaram filhos”, explicou.

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