A disparada do dólar em meio à turbulência política e econômica que se seguiu ao segundo turno das eleições presidenciais pode encarecer os carros vendid...
A disparada do dólar em meio à turbulência política e econômica que se seguiu ao segundo turno das eleições presidenciais pode encarecer os carros vendidos no Brasil nos próximos meses, especialmente os importados. A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que contrariou as expectativas de parte do mercado financeiro, provocou uma forte reação dos investidores. A incerteza também foi alimentada pela recusa inicial de Flávio Bolsonaro (PL) em reconhecer o resultado das urnas.
O impacto, porém, vai depender de quanto tempo a moeda americana permanecerá valorizada. Enquanto especialistas alertam para o risco de reajustes, as importadoras afirmam que a cotação atual ainda não justifica mudanças na política de preços.
Na segunda-feira (26), primeiro pregão após o segundo turno das eleições presidenciais, o dólar comercial fechou em R$ 5,40, uma alta de 8,21% em relação à sexta-feira (23). Durante o dia, a moeda chegou a ultrapassar R$ 5,60, mas perdeu força antes do encerramento das negociações.
A preocupação do setor automotivo não está apenas nos veículos importados. Mesmo os carros fabricados no Brasil dependem de componentes, matérias-primas e tecnologias adquiridos no exterior, cujos custos são influenciados pela cotação do dólar.
Segundo Milad Kalume, consultor automotivo, aproximadamente um terço do custo de um veículo produzido nacionalmente pode estar exposto à variação cambial.
"Em uma produção local, estima-se que, sendo otimista, um terço do custo de um veículo seja dolarizável. Então não existe dúvida de que a manutenção do dólar em patamares elevados irá trazer elevação do valor dos veículos", afirma.
Pela estimativa do especialista, uma valorização de 10% do dólar, mantida no médio e longo prazo, poderia representar uma pressão equivalente a pelo menos 3,33% sobre o valor de um automóvel nacional.
Em um carro de R$ 150 mil, isso significaria aproximadamente R$ 4,5 mil adicionais, caso o aumento dos custos fosse integralmente repassado ao consumidor.
O impacto pode ser maior nos veículos importados. Kalume explica que, nesses casos, a variação cambial incide diretamente sobre o valor do automóvel no país de origem. Como o custo de importação e os impostos também são influenciados pelo câmbio, uma alta persistente do dólar pode aumentar significativamente o preço final ao consumidor.
Para uma valorização sustentada de 10% do dólar, Kalume estima um aumento de pelo menos 5% no preço final dos importados, a depender da estrutura de custos e da estratégia comercial de cada fabricante. Isso significa que um automóvel importado vendido por R$ 200 mil poderia ficar ao menos R$ 10 mil mais caro nesse cenário.
A pressão cambial atinge veículos importados de todas as nacionalidades, inclusive os chineses. Já nos modelos produzidos ou montados no Brasil, o impacto depende da participação de peças e componentes estrangeiros.
Para Cássio Pagliarini, consultor especializado no setor automotivo, o efeito nos veículos montados com kits importados CKD e SKD pode corresponder a aproximadamente metade daquele observado nos automóveis importados completamente montados. O especialista, entretanto, considera prematuro afirmar que a disparada do dólar provocará reajustes imediatos.
"Vamos aguardar os próximos dias. Era óbvio que essa eleição iria deixar um impacto forte no primeiro dia. Tanto a baixa da bolsa quanto a alta do dólar terão um efeito de rebound parcial nos próximos dias", afirma.
Na avaliação de Pagliarini, a possibilidade de reajustes se torna mais concreta caso o dólar se estabilize em um patamar mais de 5% superior ao observado antes das eleições.
Apesar da forte reação do mercado financeiro, a Associação Brasileira das Empresas Importadoras e Fabricantes de Veículos Automotores (Abeifa) avalia que o atual patamar do dólar não deve provocar aumentos imediatos nos preços.
Segundo o presidente da entidade, Marcelo Godoy, as importadoras não definem suas estratégias comerciais com base nas oscilações diárias da moeda americana. As decisões de preços e volumes de importação consideram uma cotação média projetada para períodos mais longos.
"A gente trabalha com um dólar médio para tomar decisões estruturais. E esse dólar médio estrutural nunca ficou muito longe dos R$ 5,30, R$ 5,40, que é o que está agora", explica.
Para Godoy, a valorização do real nas semanas anteriores à eleição havia levado o dólar a um patamar excepcionalmente baixo, que não servia como referência para o planejamento de longo prazo das empresas.
Antes das eleições, a moeda americana chegou a ser negociada abaixo de R$ 5. Com a reação do mercado ao resultado das urnas, voltou à faixa de R$ 5,40, próxima da referência já considerada por parte das importadoras.
"O que aconteceu foi que antes das eleições, naquelas duas semanas, ele ficou muito, muito baixo. E ali não era um dólar para se tomar decisão a longo prazo", afirma Godoy.




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