A perícia de São Paulo se recusou a periciar ao menos 17 dispositivos apreendidos com a empresária Karina Ferreira da Gama, dona do Instituto Conhecer Brasil (ICB), e em empresas que prestavam serviços ao instituto, entre celulares, notebooks e pen drives. Em…
A perícia de São Paulo se recusou a periciar ao menos 17 dispositivos apreendidos com a empresária Karina Ferreira da Gama, dona do Instituto Conhecer Brasil (ICB), e em empresas que prestavam serviços ao instituto, entre celulares, notebooks e pen drives. Em uma das justificativas, a perita Viviane Fleitas Menezes afirma que a embalagem plástica dos equipamentos foi lacrada de maneira incorreta, o que poderia permitir a manipulação de dados, mesmo sem romper o lacre de segurança.
ICB alegou 'desconfiança nas comunidades' para justificar cobrança antecipada em contrato em SPEmpresa cobra R$ 4,5 milhões de Karina Gama e questiona pagamentos por pontos de wi-fi em SP
Os dados constam de material que teve o sigilo levantado pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, neste domingo (13). Dino relata investigação que envolve o envio de emendas parlamentares por deputados do PL para a rede de empresas ligadas a Karina e à produtora Go Up Entertainment, responsável pela produção do filme "Dark Horse", sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. No curso do processo, a Polícia Federal apontou para uma rede de entidades suspeitas de fraude em série de contratos públicos e lavagem de dinheiro.
Em um termo de recusa de 13 aparelhos, a perita diz que a embalagem tem espaço suficiente para introdução de cabos de alimentação e transferências de dados “sendo possível a manipulação dos dados no interior do equipamento”. Em outro, Menezes registra a recusa de quatro aparelhos porque há um “vão suficiente para a retirada da peça a ser periciada”. No termo de recusa enviado à Polícia Civil, a perita anexou fotos mostrando problemas em embalagens lacradas.
Dois celulares coletados em endereços ligados diretamente a Karina da Gama estão no grupo de aparelhos recusados. Um dos aparelhos não foi periciado porque o software de perícia não era compatível com o sistema operacional IOS, presente em celulares da Apple. Já um dos computadores apreendidos tinha conteúdo criptografado internamente que a polícia também não conseguiu acessar.
‘Consistentes suspeitas’ de desvios
O relatório da Polícia Civil de São Paulo tornado público neste domingo registra indícios de desvio de recursos municipais de São Paulo pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB), da empresária Karina Ferreira da Gama, e “consistentes suspeitas” de que os recursos do programa “Wi-Fi Livre SP” foram desviados para custear a produção do filme Dark Horse, sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Segundo a Polícia Civil, o instituto comandado por Karina Gama teria utilizando as contas de empresas subcontratadas e de organizações sociais geridas pela empresária “para a lavagem dos valores desviados do erário de São Paulo”. O ICB foi contratado para instalar pontos de wi-fi na cidade, sobretudo em bairros periféricos, apesar de não ter experiência na área e de ter cobrado mais do que o dobro do que a empresa municipal Prodam cobrava da prefeitura para prestar um serviço semelhante. A investigação policial registra ainda que o instituto teria recebido R$ 26 milhões por serviços não prestados.
O inquérito indica possíveis irregularidades na contratação, ao mostrar que “o ICB, que até então atuava na promoção de eventos religiosos e literários gospel”, teria sido a única entidade a apresentar proposta para o programa de wi-fi, “frustrando a concorrência e o caráter competitivo”.
Além do vício de origem da seleção da empresa, o contrato mostrou uma disparidade de custos: enquanto a Prodam cobrava do município R$ 230 para a implantação de cada ponto de internet e a R$ 306 para a manutenção mensal, o ICB cobrou R$ 1.800,00 por ponto instalado, “correspondendo a uma cobrança pelo menos duas vezes superior aos preços usualmente praticados” pela prefeitura. A gestão municipal previu a instalação de 5 mil pontos de wi-fi, que foi “consideravelmente antecipada” por interferência política direta nas eleições de 2024, alcançando 1.605 pontos ativos no final de outubro de 2024. Depois da eleição, “o ritmo de instalações desacelerou bruscamente, atingindo apenas 3.200 pontos em junho de 2025”. Os 1.800 pontos restantes nunca foram instalados, registra o inquérito policial.
A prefeitura pagou ao instituto, de forma antecipada, R$ 69 milhões, mas como não houve a instalação de todos os pontos previstos, o valor deveria ter sido de R$ 43 milhões — R$ 26 milhões foram pagos por serviços que não teriam sido executados, segundo a polícia.
“Diante disso, o rastreamento do fluxo financeiro é o único meio capaz de descortinar a destinação final das verbas recebidas pelo Instituto Conhecer Brasil — ICB e repassadas de forma suspeita a empresas subcontratadas e às contas pessoais da investigada Karina Ferreira da Gama e de suas firmas individuais, como a Go Up Entertainment”, diz o relatório da Polícia Civil.
Karina comanda o Instituto Conhecer Brasil, que recebeu recursos de emendas parlamentares e firmou contratos com o poder público. A empresária é sócia da produtora Go Up Entertainment, responsável pela produção do filme Dark Horse. Segundo a investigação, a relação entre o ICB, a Go Up e outras entidades ligadas à empresária está no centro das suspeitas de confusão patrimonial e desvio de recursos públicos.
O relatório informa ainda que o ICB teria assinado contratos de subcontratação que somam R$ 98 milhões, destacando-se o pagamento de R$ 36 milhões à empresa Make One, R$ 30 milhões à UltraIP e cerca de R$ 12 milhões às empresas Complexys e Fast Future, pertencentes a um mesmo casal associado à Karina Gama. “Há consistentes suspeitas de confusão patrimonial e de que os recursos públicos do programa ‘Wi-Fi Livre SP’ tenham sido desviados para custear as atividades de produção do referido filme, utilizando as contas das empresas subcontratadas e das demais organizações sociais geridas pela investigada para a lavagem dos valores desviados do erário de São Paulo”, diz o relatório assinado pelo delegado Antonio Carlos Munuera Silveira, em 22 de maio.
O relatório registra a possibilidade de que os recursos teriam ido para contas no exterior ou empresas de fachada, e diz que a empresária tem conexões comerciais no exterior, incluindo empresa registrada na Flórida (EUA) com o mesmo nome da produtora cinematográfica brasileira, “indicando elevado risco de evasão de divisas e ocultação patrimonial definitiva”.
O que dizem Karina Gama e a prefeitura
Em nota, a defesa de Karina Gama afirmou que “recebe com absoluto respeito e considera positiva” a decisão do ministro Flávio Dino de levantar o sigilo sobre os elementos da investigação conduzida pela Polícia Civil do Estado de São Paulo envolvendo o Instituto Conhecer Brasil e o contrato celebrado com a Prefeitura de São Paulo. “A transparência interessa à Justiça, à sociedade e, sobretudo, à própria defesa. Quem já apresentou voluntariamente mais de 20 mil páginas de documentação não teme a transparência.”
A Prefeitura de São Paulo informa que a assinatura e execução do termo de colaboração firmado com o Instituto Conhecer Brasil (ICB) não têm qualquer irregularidade identificada. O Programa Wi-fi Livre segue em pleno funcionamento na cidade com 3.200 pontos instalados e mais de 760 milhões de acessos registrados, conforme pode ser verificado no link https://wifilivrecomunidades.org/sp. A administração municipal reitera que o serviço contratado foi prestado, passando a parceria por prestações de contas semestrais, período mais rigoroso do que o mínimo legal. As movimentações financeiras da entidade não integram a relação contratual com a administração municipal.




0 Comentário(s)
Deixe seu comentário