Documento do Instituto de Criminalística afirma que a versão do tenente-coronel não condiz com a análise e os testes realizados pela perícia; laudo foi feito após pedido da defesa do próprio acusado

Compartilhar matériaUm novo laudo do Instituto de Criminalística de São Paulo concluiu que a soldado Gisele Alves Santana não cometeu suicídio. O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, então marido da vítima, é acusado pelo feminicídio e está preso desde março deste ano. 

O documento da perícia, ao qual a CNN Brasil teve acesso, determina a "impossibilidade de que Gisele tenha atirado contra a própria cabeça".

De acordo com o laudo, foi constatado que houve um desacordo material entre o que condiz com um suicído e um assassinato. Os peritos realizaram a verificação da capacidade física e mecânica da vítima, um teste de visibilidade e a medida técnica do padrão e do sentido em que o sangue da sargento escorreu. 

O laudo é o segundo realizado para responder a questionamentos apresentados por um assistente técnico da defesa. O Instituto de Criminalistíca manteve a mesma conclusão do laudo anterior.

A defesa da família de Gisele diz que "o feminicídio é patente" e que não possuem "nenhuma dúvida" de que o tenente-coronel cometeu o crime. Ele deve ser ouvido em audiência nesta segunda-feira (5).

De acordo com o documento, os testes realizados pela perícia não condizem com a versão dos fatos contada pelo tenente-coronel por razões de incompatibilidade com o local em que a arma do crime estava. Segundo o Instituto de Criminalista, a arma estava guardada em um guarda-roupa maior que Gisele.

Além disso, foi comprovado, a partir de uma análise, que não era possível visualizar do banheiro o local onde a soldado suspostamente teria cometido o suicídio, contradizendo o tenente-coronel.

Outra constatação do novo laudo aponta que o padrão como o sangue da vítima escorreu não condiz com a possibilidade de suicídio pois, de acordo com o documento, o disparo atingiu a vítima em um sentido contrário ao que o acusado afirmou ter acontecido.

A soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, foi encontrada morta em seu apartamento no Brás, na região central de São Paulo, no dia 18 de fevereiro. Inicialmente tratada como suicídio, a ocorrência evoluiu para um inquérito de feminicídio qualificado e fraude processual.

De acordo com o MP, após o crime o oficial teria tentado simular um suicídio ao posicionar a arma na mão da vítima e alterar a cena para induzir a investigação a erro.

Laudos periciais apontam inconsistências na versão apresentada pela defesa. As investigações identificaram vestígios de sangue nas roupas do acusado e indícios de que ele teria tomado banho após o crime para eliminar provas.

Entenda: Veja como foi o feminicídio de PM em SP, segundo laudo

Para o Ministério Público, o homicídio foi praticado por motivo torpe, relacionado ao sentimento de posse e à recusa do acusado em aceitar o fim do relacionamento. A denúncia também afirma que Gisele foi surpreendida, sem possibilidade de defesa, circunstância que qualifica o crime.

A defesa do tentente-coronel, composta pelo advogado Eugênio Malavassi, afirmou que analisa a reposta do Instituto de Criminalística sobre os quesitos apresentados no laudo, juntamente com o assistente técnico.

A defesa dos familiares de Gisele, por sua vez, reiterou que "jamais teve dúvidas de que a morte foi resultado de um feminicídio". Para o advogado Miguel Silva, o laudo complementar reforça as provas já existentes e confirma que Gisele foi assassinada pelo tenente-coronel, apontado como como autor do crime.

*Sob supervisão de Carolina Figueiredo