Apuração da Polícia Federal a que VEJA teve acesso aponta o filho do presidente como parte da engrenagem de esquema no Ministério da Saúde

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VEJA teve acesso a um inquérito sigiloso da PF que aponta Fábio Luís da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula, como parte de um esquema de tráfico de influência. Mensagens revelam Lulinha atuando com uma lobista e um amigo para agenciar negócios milionários junto ao governo, envolvendo até pagamentos a ex-chefe de gabinete de Lula.

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Em abril do ano passado, a Polícia Federal realizou a primeira fase da Operação Sem Desconto, investigação que desmantelou uma quadrilha formada por empresários, servidores públicos e lobistas que se juntaram para aplicar um golpe contra a Previdência. O caso ganhou rapidamente o selo de escândalo pela crueldade (idosos tiveram suas aposentadorias roubadas), pela ousadia (o esquema operava movido por subornos pagos a funcionários do governo) e pelos números superlativos (foram desviados 6 bilhões de reais de 4 milhões de aposentados). O cheiro de envolvimento de políticos levou o Congresso a criar uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, que produziu marolas em direção a figuras importantes como Fábio Luís da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Lula. Na época, uma testemunha revelou que o primogênito estaria a serviço de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, líder da quadrilha, e atuaria em parceria com Roberta Luchsinger, uma lobista conhecida pelas relações de amizade com petistas de alto escalão, para impulsionar negócios milionários junto ao governo do pai. Embora contundente, o depoimento não veio acompanhado de provas. Sem avanços, a CPMI foi encerrada, mas as investigações prosseguiram.

No início do ano, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a quebra do sigilo telemático de Roberta Luchsinger. A Polícia Federal teve acesso então a mensagens e documentos da lobista armazenados em nuvem. Surgiram novas suspeitas, com a participação do Careca do INSS, mas não relacionadas ao caso do roubo dos aposentados. Na análise do material, os investigadores chegaram à seguinte conclusão: Lulinha teria atuado como uma espécie de agenciador oculto de empresários que tinham interesse em fechar negócios vultosos em Brasília. Além do Careca do INSS e da lobista, o grupo seria integrado também por Fernando Bittar, amigo e antigo sócio do primogênito, conhecido também na época da Lava-Jato por ser um dos proprietários do célebre sítio de Atibaia (a força-tarefa de Curitiba defendia que o verdadeiro dono da propriedade era Lula). O grupo também teria contado com a ajuda de Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, na época em que ele era chefe de gabinete do presidente Lula. Seriam nítidos, de acordo com os investigadores, os indícios de corrupção e tráfico de influência. VEJA teve acesso à integra do inquérito que, a exemplo do que aconteceu há duas décadas, coloca de novo o filho do presidente no topo de um rumoroso escândalo.

De acordo com o relatório da investigação da PF, não há dúvida de que Roberta mantinha uma sociedade oculta com Lulinha e Bittar para intermediar negócios. “Os elementos probatórios obtidos no curso da investigação revelam a existência de um núcleo de atuação permanente e coordenada composto por Roberta Moreira Luchsinger, Fabio Luis Lula da Silva e Fernando Bittar, voltado à interlocução de interesses privados perante agentes e órgãos da Administração Pública Federal”, concluíram os delegados. Nas mensagens, a lobista jactava-se de uma suposta proximidade com o presidente Lula. Segundo ela, o petista já teria, inclusive, lhe oferecido um cargo no governo. Roberta conta que não aceitou. Em conversa com um empresário em 2024, explicou que preferiu se dedicar à “sociedade” com o filho do presidente. “Fui das poucas pessoas q o Lula chamou e perguntou: escolhe onde vc quer ficar. (…) Eu disse: aonde eu tô. Na minha sociedade com Fábio e Fernando.” E explicou o porquê: “Tô em cargo nenhum e ando onde quero”.

A lobista deixava bem claro a seus interlocutores o nível da relação que mantinha com o filho do presidente. “Fefe (Fernando Bittar), Fábio e eu somos uma coisa só. Se um fala vai, tds (todos) vão. A gente é mesmo irmão”, escreveu ela em um dos diálogos anexados ao inquérito. Roberta esclareceu como seria a participação de Lulinha no esquema: “Fábio não faz nada. Ele só entra em campo qdo (quando) precisa. Tem q se preservar”. Não era blefe. O nível de intimidade fica claro também em um grupo de WhatsApp, intitulado “Musaranhos”, que a trinca mantinha para discutir os negócios junto ao governo. Musaranho é um mamífero que parece um rato. Lulinha e Bittar eram os “Musos”, Roberta era a “Musa”. “Convém indicar que Fabio Luis Lula da Silva aparece reiteradamente no material analisado como figura de elevada relevância mesmo que adote postura de menor exposição nas tratativas. As comunicações indicam que Fabio é mencionado por Roberta Luchsinger como referência decisória nos projetos discutidos”, diz o relatório policial.

O inquérito destrincha o esforço de Roberta e Lulinha para convencer o governo a regulamentar o uso de canabidiol no país. Egresso do ramo farmacêutico, o hoje notório Careca do INSS, além de golpear os aposentados, antes de cair em desgraça articulava a realização de um negócio bilionário junto ao Ministério da Saúde. Para o plano dar certo, era preciso destravar resistências políticas e mudar certas regras. Roberta explica o caminho que ela trilhava para driblar os problemas: “Eu trabalho a política via Palácio. Eu sou boa de costura política”. Contratada como consultora do Careca do INSS, a lobista acionou Lulinha para acelerar a regulamentação para a produção e venda de medicamentos à base de canabidiol. Resolvido esse problema, a segunda etapa do projeto era “convencer” o Ministério da Saúde a contratar uma empresa de Camilo Antunes para fornecer os remédios — um negócio superior a 1 bilhão de reais. “Ontem eu disse para Fábio: Antonio tá pressionando e acho bom vc se mexer”, escreveu a lobista em 23 de janeiro de 2025.

De acordo com a PF, Lulinha já estava se mexendo nos bastidores havia algum tempo. O grupo precisava de acesso ao Ministério da Saúde. Coube a Marcola, o chefe de gabinete de Lula, marcar uma reunião entre a lobista e Swedenberger Barbosa, então secretário-executivo da pasta. Essa reunião só aconteceu depois da interferência de Lulinha.