Para criminalista, Moraes tem dificuldade de se defender de suspeitas e busca ampla anulação da operação Compliance Zero.
A crise sem precedentes vivida pelo Supremo Tribunal Federal (STF), com troca de alegações e pedidos de investigação entre os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes, tem gerado questionamentos sobre uma possível anulação do caso que investiga o Banco Master.
Mendonça se tornou alvo de graves acusações de abusos na condução dos inquéritos que apuram fraudes bilionárias no Banco Master e no INSS.
A partir de um relatório encomendado à Polícia Federal, Alexandre de Moraes diz que André Mendonça teria cometido, "em tese", improbidade administrativa, crimes de responsabilidade e de abuso de autoridade, com quebra da "imparcialidade judicial" e "favorecimento a determinados grupos políticos" ao atuar como relator das operações que apuram os dois casos — Compliance Zero (Banco Master) e Sem Desconto (INSS).
As acusações são uma reação de Moraes a outro relatório da PF, produzido a pedido de Mendonça, que detalhou supostas interações entre ele e Daniel Vorcaro, a partir da análise do celular de Vorcaro apreendido quando o banqueiro foi preso, em novembro de 2025.
As conversas incluem um suposto pedido do banqueiro para que Moraes interferisse a seu favor na atuação da Procuradoria-Geral da República (PGR) e da Polícia Federal.
Nesta quarta-feira (9/9), o presidente do STF, Edson Fachin, suspendeu parte do Caso Master da relatoria de Mendonça, no qual ele tornou públicas conversas suspeitas entre Moraes e Vorcaro e sugeriu a possível abertura de investigação para apurar a conduta do ministro.
O presidente do STF também convocou sessão plenária extraordinária para a próxima terça-feira (15/9) para que os ministros deliberem sobre a grave crise que a Corte atravessa.
O julgamento marcado para o dia 15 tratará da petição 16.662, procedimento no qual André Mendonça tornou públicas conversas suspeitas entre Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro e sugeriu a possível abertura de investigação para apurar a conduta do ministro.
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Antes, porém, a sessão deve analisar o pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) para que o STF considere nulo o procedimento de Mendonça contra Moraes nesta petição.
Para a PGR, Mendonça extrapolou sua atuação como juiz ao "mirar" as investigações contra um alvo determinado. A procuradoria sustenta, ainda, que o ministro teria que ter submetido a questão ao plenário da Corte antes de determinar essa apuração inicial sobre Moraes e Vorcaro.
As acusações de ilegalidade contra Mendonça lembram outros episódios da história brasileira em que grandes operações foram anuladas.
Caso mais famoso, a Lava Jato se desmantelou após o vazamento de conversas do celular do então chefe da força-tarefa da operação, Deltan Dallagnol, mostrar interações suspeitas entre ele e o juiz Sergio Moro, em 2019.
Depois, o STF considerou que Moro não agiu com imparcialidade e anulou uma série de processos criminais, incluindo as condenações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Para a criminalista Marina Coelho, professora do Insper e vice-presidente do Instituto dos Advogados de São Paulo, a reação de Moraes contra Mendonça tem clara intenção de buscar a ampla anulação do caso Master, ao colocar um ponto de interrogação na Operação Compliance Zero.
"Ele escolheu, na defesa dele, o ataque. E esse ataque não dá para ser só em relação ao Mendonça, ele tem que atacar o Mendonça e a operação como um todo. No fundo, a defesa que ele pode fazer é uma defesa de nulidade, porque, no mérito, pelo que a gente percebe, é mais difícil [Moraes se defender]".
"Então, eu penso que é justamente isso: atacar não só o André Mendonça, mas também colocar um ponto de interrogação em relação às questões da operação do Master, a Compliance Zero, e como isso tem sido conduzido para tentar cavar nulidade", afirma a criminalista.
A professora diz não ter elementos para afirmar, com certeza, que Mendonça não cometeu qualquer ilegalidade, já que o caso está em sigilo e não é de todo conhecido.
Na sua visão, porém, o que foi apresentado até o momento por Moraes não tem embasamento para contestar a conduta do ministro André Mendonça e iniciar uma investigação contra ele.




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