Nova gestão completa 1 ano priorizando saúde financeira, reforma das competições e melhoria da arbitragem e da base
Nova gestão completa 1 ano priorizando saúde financeira, reforma das competições e melhoria da arbitragem e da base
Nelson Terme/CBF - 14.nov.2025
3.jul.2026 (sexta-feira) - 6h00 Siga o Poder360 no Google
O futebol brasileiro sempre soube produzir espetáculo em campo. Agora, o desafio é fazer a saúde financeira dos clubes acompanhar esse protagonismo. Há 1 ano, ao assumir a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), a nova gestão colocou a sustentabilidade econômica do setor dentre as prioridades, para fortalecer o esporte dentro e fora de campo.
Um dos pontos de partida da nova fase é o projeto da sustentabilidade financeira dos clubes. Os times viveram um período de crescimento acelerado de receitas e de avanço das SAFs (Sociedades Anônimas do Futebol). Com mais dinheiro circulando, os custos no mercado de jogadores cresceram e o equilíbrio do sistema se rompeu, sendo necessária a implementação do SSF (Sistema de Sustentabilidade Financeira).
“A dívida dos clubes, que era de R$ 7,8 bilhões em 2022, saltou para quase R$ 14 bilhões. As receitas cresceram 35%, e o endividamento cresceu quase 80%”, afirmou o diretor-executivo da CBF, Helder Melillo.
A entidade chamou à mesa equipes das Séries A e B, consultores, federações e especialistas do ramo para compor o Grupo de Trabalho de Fair Play Financeiro, a fim de desenvolver um modelo aplicável ao Brasil e colocar o fortalecimento econômico dos clubes no centro da agenda.
O SSF do futebol brasileiro surgiu dessa união, que estabeleceu regras de responsabilidade com as contas e punição para os clubes infratores. O modelo inclui normas de controle financeiro, fiscalização das contas e a criação da Anresf (Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol).
Trata-se de um órgão independente, responsável pela fiscalização e aplicação das medidas estabelecidas no regulamento. “Era importante construir uma estrutura permanente para acompanhar essa transformação”, disse Melillo.
Dados analisados pela Anresf mostram que os gastos ligados à formação de elenco cresceram 140%, 4 vezes mais que as receitas. O fenômeno passou a ser associado ao conceito de “doping financeiro” –expressão usada para definir situações nas quais os clubes ampliam gastos acima da própria capacidade econômica para aumentar a competitividade.
Assim, o regulamento foi elaborado pela CBF em conjunto com representantes das Séries A e B. Dos 40 clubes convidados para o grupo de trabalho, 34 participaram da construção do modelo. “Os clubes participaram com sugestões, críticas e comentários ao regulamento”, afirmou o presidente da Anresf, Caio Cordeiro de Resende.
O objetivo do fair play financeiro é ampliar a previsibilidade de caixa dos clubes e criar um ambiente sustentável para as competições nacionais, com reflexos diretos na qualidade do futebol. Os clubes das Séries A e B passarão a operar com limites proporcionais à própria capacidade de arrecadação. A regra principal é que os gastos com o elenco profissional não ultrapassem 70% da receita anual das equipes.
O sistema também estabelece acompanhamento contínuo de balanços financeiros, monitoramento de dívidas e verificação periódica de obrigações financeiras. Segundo Ricardo Gluck, vice-presidente da CBF e presidente do grupo de trabalho, o modelo ajudará a reduzir distorções competitivas. “O fair play não é uma ferramenta para limitar a competitividade. A ideia é criar um ambiente mais equilibrado e previsível para os clubes”.
Também nesse sentido, a criação do SSF aproxima o futebol brasileiro dos modelos de controle financeiro adotados pelas principais ligas internacionais. “O Brasil era a única dentre as 6 maiores ligas do mundo que não tinha regras de sustentabilidade financeira”, afirmou Caio Cordeiro de Resende, presidente da Anresf.
Estruturado a partir de experiências internacionais, o modelo brasileiro estabelece controle de endividamento e limitação proporcional de gastos. A ideia é que parte das medidas seja implementada gradualmente até 2027. “Mais organizados, os clubes conseguem investir em infraestrutura, categorias de base e formação de elencos mais fortes”, disse Resende.
“O Brasil já é uma potência na formação de atletas e no tamanho do mercado consumidor. A ideia é fortalecer também a organização do futebol”, explicou Ricardo Gluck. A implementação do sistema financeiro é feita de forma paralela a discussões sobre a criação de uma liga nacional.
Os primeiros resultados práticos começaram a surgir. Em junho deste ano, a Ponte Preta, de Campinas (SP), foi excluída do Parf-B (Programa de Apoio à Reestruturação Financeira de Clubes da Série B), por causa de atrasos salariais. Um marco na cruzada por mais responsabilidade financeira no futebol brasileiro, de acordo com a CBF.
O desenvolvimento de uma liga para o futebol brasileiro é uma das prioridades da gestão de Samir Xaud à frente da confederação, conforme o discurso de posse. Mais do que uma promessa, a proposta reflete o entendimento de que o futebol nacional precisa avançar na organização para se tornar mais forte, competitivo e sustentável do ponto de vista financeiro.
Nos primeiros meses da nova gestão, porém, a prioridade não foi discutir modelos comerciais ou estruturas jurídicas. Antes de qualquer debate sobre a liga, a CBF entendeu que era necessário enfrentar alguns dos principais desafios estruturais do futebol brasileiro: o fair play financeiro e a profissionalização da arbitragem.
O debate foi fortalecido no âmbito internacional em janeiro deste ano, quando a CBF promoveu uma imersão na Europa com a participação de 40 representantes de clubes e presidentes de federações. A delegação visitou algumas das principais organizações do futebol mundial, incluindo Bundesliga (Alemanha), La Liga (Espanha) e Premier League (Inglaterra), além das respectivas federações nacionais.
O objetivo era apresentar e discutir temas estruturais trabalhados no Brasil, especialmente a questão financeira e a arbitragem. As conversas também trouxeram um novo olhar sobre as ligas. Nos encontros, ficou evidente a importância dessas organizações na valorização do produto, na relação com os torcedores e na criação de novas receitas para o futebol.
Ao longo dos últimos anos, a CBF manteve uma posição de distanciamento institucional em relação ao tema, enquanto os clubes buscaram construir soluções próprias. Surgiram 2 grupos: Libra (Liga do Futebol Brasileiro) e FFU (Futebol Forte União), bem como modelos de organização. Porém, as divergências internas em temas relacionados à divisão de receitas dificultaram a construção de consensos.


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