OUTRO LADO: Concessionárias falam em prejuízos causados pelo período de chuvas e que parte dos problemas estão sendo resolvidos
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Tatiana Cavalcanti Bárbara Sá Tulio Kruse
Cemitérios concedidos à iniciativa privada na cidade de São Paulo apresentam um cenário de quase abandono: sepulturas violadas, mato alto, banheiros sujos sem água nem sabão, vias esburacadas e acúmulo de entulho. A degradação afeta a circulação de visitantes, a localização de túmulos e a infraestrutura básica oferecida à população, além de expor os frequentadores a abordagens informais de flanelinhas e ao apelo comercial ostensivo com venda de planos funerários no entorno dos velórios. Em 2023, a rede pública com 22 cemitérios municipais e o crematório Vila Alpina foi concedida por um período de 25 anos, até 2048, a quatro consórcios de empresas privadas: Consolare, Cortel, Grupo Maya e Velar. Os contratos de concessão exigem que as empresas mantenham as áreas comuns e quadras limpas e com grama aparada, garantam sanitários higienizados e gratuitos com água e papel, conservem calçadas e vias pavimentadas, instalem placas de sinalização legíveis e ofereçam segurança patrimonial ativa.
A Folha visitou seis cemitérios da capital paulista, além do Crematório Vila Alpina, nos dias 21 e 22 de outubro e retornou aos mesmos locais em 2 e 3 de novembro.
A pior situação encontrada foi a do Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte, administrado pela Cortel. O mato alto encobria as sepulturas, impossibilitando a localização dos túmulos, inclusive na área dos jazigos particulares. Também havia acúmulo de sujeira. O banheiro feminino exalava odor forte, não tinha água nas três pias e faltava sabão. As vias asfaltadas acumulavam lama, as placas indicativas estavam enferrujadas e desgastadas e as placas dos túmulos e gavetas apresentavam nomes apagados.
A contadora Adriana Moraes, 58, afirmou ter de lidar com o problema de perto. A mãe dela morreu em 2022, antes da concessão do serviço, e ali foi enterrada. Um ano depois, Adriana comprou um jazigo particular no local atraída pela promessa de um cemitério em estilo jardim. "Mas o que encontrei foi mato alto e sujeira." Ao tentar agendar a exumação do pai, morto em agosto de 2023, após a concessão, Adriana disse ter sido informada de que não há mais vagas para exumações em 2026 e que terá de retornar em janeiro. Em nota, a Cortel SP afirmou que regularizou a situação do banheiro feminino e programou capina das quadras. A empresa disse que intervenções nas vias dependem de aprovação de plano e que chuvas causaram deslocamentos de terra, além de afirmar que a limpeza interna e o reparo de construções particulares cabem aos cessionários, segundo decreto municipal.
Sobre as exumações, disse que os procedimentos seguem cronograma por força-tarefa, com previsões até janeiro de 2027 devido ao alto volume. A SP Regula, agência reguladora da Prefeitura de São Paulo, afirmou que investiga a situação das exumações. Na zona leste, o Vila Formosa, da Consolare, tinha mato alto entre as sepulturas, sacos de lixo e entulho no chão na primeira visita da reportagem. Na segunda ida ao local, o mato estava cortado e não havia lixo. O cemitério, no entanto, reunia túmulos abertos, placas apagadas e excesso de propaganda de jazigos e planos na entrada dos velórios, o que incomodou familiares. A Consolare afirmou que a zeladoria no Vila Formosa é organizada por quadras com recolhimento diário. Sobre a oferta de jazigos e planos funerários, disse que os materiais seguem regras do poder concedente, mas serão reavaliados. A concessionária acrescentou que o local conta com vigilantes, apoio da GCM (Guarda Civil Metropolitana) e cobrança de estacionamento autorizada.
Na mesma região, o complexo Vila Alpina, da Velar SP, tinha um contraste: enquanto o cemitério São Pedro apresentava mato alto, sujeira nas vias, falta de placas e somente banheiros químicos, o crematório Vila Alpina, logo ao lado, contava com instalações limpas, banheiros em bom estado e ambiente silencioso. Sobre o cemitério São Pedro, a Velar SP disse que a limpeza é permanente e setorizada, podendo gerar defasagens pontuais devido à extensão de 226 mil m² e às fortes chuvas. A concessionária afirmou que as reformas buscam melhorias previstas em contrato e ocorrem de forma isolada, prevendo a entrega de seis salas de velório em novembro e que os banheiros químicos atendem adequadamente até a conclusão das obras.
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Na zona oeste, o cemitério do Araçá, da Cortel, tinha jazigos abertos, trechos do piso de concreto quebrados e restos de reformas acumulados nos muros.
A Cortel disse que os resíduos perto do muro são resultado de chuvas e obras de reparo e já foram removidos. Afirma ainda que recupera o pavimento com prioridade para áreas de maior circulação e fechou um jazigo em ruína após fiscalização. No centro, o cemitério da Consolação, da Consolare, o problema era a falta de sinalização e a numeração confusa das quadras. Além disso, o portão principal estava quebrado e ficava fechado.
A escassez de placas e a falta de atualização das que existem complicavam a localização de sepulturas e jazigos, inclusive de quem vai ao local para ver os túmulos de personalidades, como da pintora Tarsila do Amaral (1886-1973), do advogado abolicionista Luiz Gama (1830-1882) e do escritor Monteiro Lobato (1882-1948). "O cemitério é lindo e muito bem cuidado, mas falta um pouco mais de indicações para localizarmos esses túmulos", disse a cuidadora gaúcha Katia Panisson, 53, que circulava pelo local a turismo e se deparou, por acaso, com o jazigo de Domitila de Castro Canto e Melo, a marquesa de Santos (1797-1867). A Consolare afirmou que o restauro do portão principal do Consolação integra plano aprovado por órgãos de preservação e que o acesso ocorre pela lateral. A empresa disse que a zeladoria das áreas comuns é permanente, mas lembrou que a manutenção de placas individuais e jazigos cabe aos responsáveis. O melhor cemitério encontrado pela reportagem foi o Campo Grande, do Grupo Maya, na zona sul. O local estava limpo e organizado, havia cadeira de rodas à disposição na recepção, placas novas e seguranças. No estacionamento (gratuito), no entanto, havia a presença de flanelinhas e alguns pontos com limo no chão. O Grupo Maya afirmou que a atuação de flanelinhas ocorre fora do perímetro de sua gestão, mas aciona a GCM e a Polícia Militar quando necessário. Sobre o limo, afirmou que a arborização e as chuvas favorecem a formação, mas realiza uma força-tarefa com maquinário específico para remoção. Ao ser questionada a respeito dos problemas encontrados nos cemitérios, a SP Regula afirmou que a concessão à iniciativa privada trouxe avanços na qualidade do atendimento, como enterros gratuitos para inscritos no CadÚnico, vulneráveis e doadores de órgãos. A agência municipal disse que realiza fiscalizações contínuas e que, desde outubro de 2024, aplicou 75 multas e advertências por falhas de manutenção e zeladoria.
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