Luís Tomé diz ser cedo para entender a real dimensão da migração de milhares de pessoas para Ceuta. Admite que Marrocos pode ter facilitado a ida de pessoas e sublinha a resposta fragmentada da UE.

Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra, o programa na Rádio Observador em que destacamos as principais questões geopolíticas no mundo. Hoje contamos com a análise de Luís Tomé, professor catedrático, diretor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa e também investigador sénior do Instituto Português de Relações Internacionais. Luís Tomé, seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Vamos começar por abordar a crise em Ceuta, o tema que acaba por marcar a geopolítica mundial. Há ainda milhares de pessoas na cidade, embora o Ministério da Administração Interna de Espanha diga que muitos já estão a regressar ou que já regressaram mesmo a Marrocos. A minha primeira pergunta, Luís Tomé, é se a crise está a ficar resolvida ou se podemos esperar algum tipo de situação semelhante ou pior no horizonte.

Olá, bom dia. É difícil saber, até porque também não temos a certeza exatamente porque é que subitamente tantos milhares de migrantes conseguiram atravessar para este território espanhol. Aliás, as únicas fronteiras da União Europeia em África são precisamente Ceuta e Melilla espanholas. Mas é provável que isto, por um lado, tenha que ver com a política migratória espanhola, não só porque legalizaram cerca de 1 milhão de migrantes, como recentemente um tribunal superior sentenciou que não é possível devolver imediatamente migrantes que chegam por mar, mas isto também não pode ser desligado, muito provavelmente, de tensões que conhecemos entre Israel e os Estados Unidos com o governo espanhol, que por sua vez melhoraram significativamente as relações com Marrocos. E já não é a primeira vez que Marrocos facilita a passagem de migrantes do seu território para os territórios espanhóis, que não reconhece como tais, de Ceuta e Melilha, em 2014 ou 2021. Ora, por que Marrocos é aqui importante e por que é que poderá ter permitido a passagem destes migrantes? Porque nós conhecemos as tensões de Marrocos com a Argélia a propósito da Frente Polisário do Sahara Ocidental. É verdade que a Espanha mudou a sua tradicional posição há poucos anos e a nossa chamada neutralidade para reconhecer o plano de Marrocos para o Sahara Ocidental, mas o primeiro-ministro Sánchez esteve em Argel no dia 20 de julho. E portanto, agora que Marrocos está a colaborar com Israel e com os Estados Unidos, sobretudo neste novo plano de Gaza, sinalizou muito provavelmente a sua indisposição por esta visita do primeiro-ministro Sánchez à Argélia. E se for assim, provavelmente não vamos ter o volume de novo de migrantes a passar para o lado espanhol, em Ceuta ou até mesmo em Melilha, mas a crise que se instala na União Europeia revela a polarização imediata a propósito das políticas migratórias e por isso o próprio primeiro-ministro espanhol-

Esta questão está a desagregar a União Europeia?

Com certeza. Nós vimos de imediato alguns países pedirem a suspensão do acordo Schengen. Nós vimos o primeiro-ministro Sánchez hoje a falar numa atitude egoísta de governos europeus a propósito desta crise de Ceuta, pedindo uma reunião de emergência e a Itália, mais a Alemanha e outros 22 países estão a exigir, designadamente à Comissão Europeia, à Frontex e por aí fora, uma coordenação para um real controle da fronteira externa da União Europeia e do espaço Schengen. Portanto, a polarização é uma constante sempre que há alguma vaga migratória, seja a partir de Itália, seja a partir da Grécia ou, neste caso, de Espanha, isso é evidente e é por isso que há atores externos que instrumentalizam politicamente a pressão migratória porque sabem que é profundamente divisiva entre os países europeus.

Vamos avançar, Luís Tomé, a olhar também para falar um pouco sobre a situação no Médio Oriente, até porque o Pentágono não quis comentar as notícias sobre possíveis ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão. Luís Tomé, este conflito pode estar à beira de uma nova escalada relacionada com as ações de Israel?

Eu creio que sim, porque nós temos sempre que temer quando há um encontro, sobretudo como o recente entre o primeiro-ministro Netanyahu e o presidente Donald Trump, que se movem muito pelas suas agendas pessoais e têm uma relação de amor-ódio entre ambos, num contexto em que, em particular Netanyahu quer voltar a ganhar as eleições para continuar como primeiro-ministro e se livrar dos julgamentos que tem a cargo. E portanto, as notícias que surgem de uma nova operação militar conjunta dos Estados Unidos com Israel contra o Irão merecem-nos alguma credibilidade. Agora, a realidade é que os Estados Unidos, primeiro com Israel, depois por via de um memorando de entendimento e a seguir de novo numa escalada direta com o Irão, não têm conseguido atingir nenhum dos seus objetivos. E hoje mesmo o Irão, designadamente o comando central conjunto do Irão, volta a ameaçar com uma larga escala e com uma região em chamas e a apelar aos países da região para considerarem o alinhamento com os Estados Unidos. E portanto, vamos continuando a ver este jogo bizarro de quente e frio, meio cessar-fogo, meio intensificar das operações militares A situação é bastante tensa e claramente a alastrar. Israel, que se compromete a retirar do sul do Líbano, não o faz, está permanentemente a dizer que a guerra com o Irão não acabou e eu acho que de facto veremos alguma escalada nos próximos tempos, porque o governo Netanyahu tem que mostrar pra população israelita qualquer ganho, por causa da contestação que há dentro de Israel do acordo do propósito de Gaza. Portanto, Netanyahu vai gerindo esta situação política interna também na relação com Donald Trump, que não quer indispor, e sempre utilizando o Irão como principal fator de coesão com os Estados Unidos e internamente dentro de Israel, e não tem nenhum interesse num prolongar-se à fogo e negociações profícuas entre Teerão e Washington. Israel é aqui um ator chave para provavelmente ajudar a incendiar a situação no Médio Oriente e o Irão não dá mostras de apaziguamento e portanto a situação continua muito caótica e muito perigosa.

Ainda no Médio Oriente, mas em Gaza há relatos de ataques israelitas que continuam a matar na Faixa de Gaza, numa altura em que se fala do desarmamento do Hamas. Estas ofensivas podem pôr em causa os planos que estão em marcha na região?

Podem, claro. Isto é uma espécie de déjà vu, se nós recuarmos aos dias mesmo imediatamente antes da tomada de posse de Donald Trump pela segunda vez, em janeiro de 2025, havia um acordo que depois Israel acabou por não respeitar. Em maio do ano passado a mesma coisa. Em outubro, finalmente, o grande plano de 20 pontos da administração Trump. Mas a realidade é que Israel nunca cumpriu a sua parte, que é retirar, pelo contrário, até aumentou entretanto a sua presença em Gaza, e o Hamas nunca cumpriu aquilo que era suposto, que era o seu desarmamento. Agora o Hamas disse que sim, também não tem grandes alternativas, mas não sabemos, por um lado, a credibilidade do Hamas em se predispor a fazê-lo, que diz que o fará mediante o cumprimento israelita destes compromissos, isto é, retirar gradualmente do território e entregar à administração um grupo tecnocrata de palestinianos. E, sobretudo, não sabemos se outros grupos palestinianos terroristas ainda em Gaza também vão ou não aceitar os termos do acordo e se Israel o fará, porque há muita contestação interna. Como dizíamos há pouco, Netanyahu vai a eleições e todas as sondagens dentro de Israel são largamente favoráveis a que as operações continuem em Gaza para exterminar desde logo o Hamas e não confiando que há civis inocentes em Gaza. Além dos membros mais extremistas do governo Netanyahu, que claramente já se manifestaram contra este tipo de acordo. Portanto, eu tenho muitas dúvidas sobre verdadeiramente o Hamas desarmar e tenho muitas dúvidas sobre o cumprimento por parte do governo Netanyahu daquilo que aparentemente aqui está, que é a sua retirada gradual, permitindo a transição pra uma governação internacional e de tecnocratas palestinianos. É um déjà vu. Esperemos que sim, a população de Gaza já sofreu demais, a destruição é demasiada, mas as condições políticas internas a Israel e depois lidando com grupos terroristas como o Hamas e outros que permanecem em Gaza merecem-nos muita reserva sobre este tipo de acordo.

Justo é. Vamos avançar, falar também um pouco da situação na Ucrânia, até porque Volodymyr Zelensky continua uma demanda, digamos assim, à procura da licença para poder produzir mísseis Patriot em território ucraniano, numa altura em que ainda se registam ataques russos constantes. Só nas últimas 48 horas, Kiev foi atacada duas vezes com recurso também a mísseis balísticos. A minha primeira pergunta é se o líder ucraniano tem conseguido fazer progressos no que diz respeito aos Patriots e o que é que nos dizem estes ataques russos à capital ucraniana.

Estes ataques russos vêm na continuação daquilo que fez nos últimos dois, três meses de intensificar os ataques à retaguarda, como que respondendo à intensificação e à habilidade ucraniana de atacar a retaguarda, infraestruturas críticas energéticas, Mar de Azov, Frota Fantasma, Crimeia. Nós vimos uma intensificação desta guerra aérea, mísseis sobretudo do lado russo e claro, drones do lado ucraniano. Mas aqui o ponto essencial é mais uma pirueta do presidente Donald Trump, que depois da Cimeira da NATO, e ainda há dias quando recebeu o presidente Zelensky, apontar no sentido das licenças norte-americanas para a Ucrânia produzir em território ucraniano mísseis intercetores do sistema Patriot, hoje volta atrás, porque o que ele diz exatamente hoje é que os Estados Unidos afinal não estão prontos pra isso. É algo difícil de se fazer e ele utilizou a expressão "Não concordamos com isso". Estamos conversando sobre o assunto, mas é difícil abrir mão desse tipo de tecnologia. Ora, é verdade que nós não podemos assentar a nossa análise no que Donald Trump diz, que diz uma coisa e o seu contrário com pouco espaço de tempo. Mas depois de termos todos assumido credibilidade, porque foi sendo repetido desde a Cimeira da NATO e na cimeira que também fez com Zelensky, que sim, que essas licenças estavam permitidas, a dúvida era saber a rapidez com que isto podia ser feito. Agora quando ele diz que afinal de contas não, é difícil abrir mão desse tipo de tecnologia, das duas uma: ou é pra depois se desdizer novamente e voltar.

Está a dar o engodo a Zelensky?

Pois, essa é a dúvida. Ou volta atrás e afinal de contas mantém a linha que saiu da Cimeira da Aliança Atlântica e do encontro com Zelensky Ou então manifestamente está a recuar, porque entretanto, como avançou uma legislação que permite inúmeras sanções à Rússia, esta primeira fase que passou no Senado da lei Lindsey Graham, talvez Donald Trump esteja agora a querer fazer uma festinha, mais uma ao presidente Putin. E o problema, até por esta intensificação dos ataques russos, mostram que Putin continua sem dar nenhum sinal de concessões e aparentemente a estratégia de Putin é alcançar os seus objetivos maximalistas na Ucrânia, se não por via militar, através do presidente Donald Trump. E este recuo de Trump em relação às licenças fomentam essas aspirações putinistas e obviamente cria um problema adicional para a Ucrânia e para os seus aliados europeus, porque é algo urgente de que a Ucrânia necessita, sistemas de defesa aérea, são cruciais os Patriot e depois há um adicional. A capacidade norte-americana de produzir mísseis Patriot é cerca de metade da capacidade dos Estados Unidos de produzir isto, é metade da capacidade russa de produzir mísseis. Portanto, mesmo que os Estados Unidos estivessem a produzir sistemas interceptores Patriot para dar à Ucrânia, que jamais o farão, mesmo atribuindo licenças que demoraria algum tempo para os ucranianos poderem fazer, há aqui um gap e, portanto, também é possível que Donald Trump queira reservar o máximo de capacidade de produção americana para fazer face aos toques no Médio Oriente e a esta nova campanha contra o Irão. Mas está aqui um sinal político errado à Ucrânia, à Europa e a Putin se confirmar que volta atrás nas licenças, incapacitando os ucranianos de produzirem esses sistemas.

É uma situação para continuarmos a acompanhar nas próximas semanas. Muito obrigado, Luís Tomé. Chegamos ao final do nosso tempo. Luís Tomé é professor catedrático, diretor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Autônoma de Lisboa, investigador sênior do Instituto Português de Relações Internacionais e foi o convidado de hoje do Gabinete de Guerra, que fica como sempre também disponível em .