O novo Podcast Plus do Observador conta uma história que mistura paixões, famílias e revoluções. A filha do último diretor da PIDE, Annie Silva Pais, juntou-se à revolução cubana.

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Muito bom dia. O Observador tem mais um podcast Plus, chama-se "Os escândalos de uma revolucionária" e conta a fascinante história, não apenas de como a filha do último diretor da Polícia Política do Estado Novo se apaixonou pelo regime cubano e se tornou na intérprete favorita de Fidel Castro, como ao mesmo tempo manteve uma relação de afeição pelo pai e se preocupou quando ele esteve preso depois do 25 de abril. Vamos, por isso, no contracorrente de hoje, não só a Cuba dos primeiros anos da revolução, como à PIDE dos últimos anos da ditadura. José Manuel, já ouviste os episódios todos, o que mais te surpreendeu nessas horas de escuta?

Bem, primeiro que tudo, surpreender, não me surpreendeu muito, porque de alguma forma a história não era totalmente desconhecida. Há um trabalho feito no Expresso pelo José Pedro Castanheira e o Valdemar Cruz. Depois houve um livro publicado, eu não li o livro todo, mas tinha folheado o livro, li umas partes, portanto, sabia do caso. Mas uma coisa é saber do caso, outra coisa é saber dos detalhes do caso e como essas coisas todas foram acontecendo. E alguns aspetos que também são muito interessantes no podcast, que não é apenas a história de como é que ela mudou de regime, que foi o que aconteceu.

Ela, a Ani Silva Pais.

A Ani Silva Pais, mas também tudo o que aconteceu depois, o que acontece na década de 60, década de 70 e na década de 80, e a própria relação que ela vai tendo com dignitários do regime cubano e como é que tudo acaba por acabar, e não acaba muito bem. Dito isto, e só para não fazer spoiler. Estamos a falar basicamente de uma senhora, ainda jovem, que era filha de uma família que eu classificaria uma família da classe média lisboeta, mas onde o pai era um militar que depois se tornou diretor da PIDE. Uma filha única, não tem irmãos, nem irmãs, que vivia no bairro de Arroios, naquilo que é o bairro das colónias. O bairro das colónias é uma zona de Arroios, que é uma zona de classe média, não tem nada de especial. As casas nem sequer são muito grandes, não é uma zona particularmente de classe alta da cidade de Lisboa, e que cresce aparentemente muito marcada pela mãe, já falaremos um pouco disso, condicionada pela mãe, e que depois casa com um diplomata suíço. O diplomata suíço é colocado em Cuba e ela, filha, repara, estamos a falar do diretor da Polícia Política. Na altura ainda se chamava PIDE, depois veio a chamar-se DGS e ele continuou como diretor da DGS, mas de um dos responsáveis pela repressão política no regime antes de 25 de abril, antes do fim da ditadura. E ela acaba por apaixonar-se pelo regime e com aquele lado sempre um pouco equívoco do que é paixão pelo regime e o que é paixão pelas figuras emblemáticas do regime, particularmente primeiro por Che Guevara, e já falaremos um pouco disso, e depois a sua própria proximidade ao líder máximo, Fidel Castro. Há isto, que o podcast começa, isso já não é spoiler, porque as pessoas já podem ouvi-lo. Começa com um episódio em que o marido dela, o suíço, está no aeroporto de Havana, à espera que ela chegue do México, numa altura em que se percebe que há uma crise naquele casamento. Ela está para regressar, não está para regressar, vai regressar, não vai regressar. Não sai do avião. O que se passou, o que não se passou. E depois percebe-se que ela foi retirada do avião pelo regime. Já tinha, de alguma forma, desertado. Depois a seguir segue-se o divórcio, segue-se muitos outros episódios e várias coisas que são muito significativas e reveladoras. O pai, quando sabe disto, vai falar com o Salazar e diz: "Eu não posso continuar como diretor da PIDE, depois de uma coisa destas na minha família." Continua. Repara, isto passa-se na primeira metade dos anos 60, numa altura precisamente em que, eu agora não sei dizer, mas está aqui a Inês Figueiredo, que é a autora do podcast. Eu não sei se isto se passa antes ou depois daquilo que marca muito o trajeto na PIDE de Silva Pais, que é o assassinato de Humberto Delgado.

Bom dia. A deserção e o conhecimento da deserção.

A deserção é antes, é em 1965.

E a morte de Humberto Delgado é 64 ou é 66? Agora eu estou confuso com as datas. Tinha a ideia que era 64. Repara, são dois momentos. E por que eu estou a referir isto? Porque há várias idas a Salazar do Silva Pais, quer por causa da história da sua filha, quer depois por causa da história do assassinato de Humberto Delgado, as circunstâncias em que isso aconteceu, daquilo que nós sabemos ou não sabemos do que se passou nesse momento Portanto, há esse aspecto. Depois ele continua como diretor da polícia, é preso, não foge na altura do 25 de Abril, é preso no gabinete. Fica preso durante bastante tempo. Acaba por ser julgado, mas a meio do julgamento é libertado e aqui há uma relação com ela, ela volta a Portugal. E a sua volta a Portugal é muito curiosa, porque ela ao mesmo tempo envolve-se com a ala mais à esquerda da revolução, designadamente chamada a quinta divisão, que era a propaganda da revolução, é onde estão alguns dos mais radicais. Funcionava ali no Forte do Alto duque, onde hoje penso que está o serviço também do Ministério Público. Estou a dizer isto porque eu já uma vez, num daqueles processos de liberdade de imprensa, já lá tive que ir. Nunca lá tinha entrado, no Forte do Alto Duque, e até gostei muito de ser convocado, que depois não teve sequência. Já nem sei se era como testemunha, se como arguido que lá fui. Ela ao mesmo tempo colabora com isso e ao mesmo tempo vai visitar o pai. De alguma forma, tenta mover influências para ver se o pai é libertado. O pai está doente, acaba por ser libertado numa altura em que está a ser julgado precisamente por causa da doença, mas já não vive muito tempo depois disso. Tudo isso é contado com algum detalhe, como é que acontece tudo isto, porque é muito interessante, porque há a relação com a mãe e é uma das coisas que eu acho que é mais interessante em que se percebe isso. Eu sou um pouquinho mais velho, não tão velho como seria hoje a Aniciva Pais. Ela seria praticamente a idade da minha mãe, um bocadinho mais nova que a minha mãe.

Em 35, a minha mãe era 30, o meu pai 31, é mais ou menos aquela geração. E eram ambos filhos únicos também, por acaso, quer o meu pai, quer a minha mãe, não tenho primos. Não tenho primos direitos. Uma infelicidade da infância não ter primos direitos.

Nota que à época isso era excecional.

Sim, era relativamente excecional. Em compensação, depois nós éramos cinco irmãos. Coisa que também já não é frequente. Percebe-se aquilo que era a maneira de estar da Aniciva Pais. A relação com a mãe, a preocupação, uma relação muitas vezes tensa e, ao mesmo tempo, uma vontade de emancipação. Esta geração é a geração que nós vemos também nalguns daqueles filmes do James Dean, do final dos anos 50, do princípio do rock'n'roll. Não é ainda a geração dos Beatles, que é uma coisa diferente, que é já anos 60. É um bocadinho anterior a isso, mas é já uma geração que vai chegar à idade adulta no pós-guerra. Repare, em 55 se tem 20 anos. Já estamos no pós-guerra, numa altura economicamente efusante, mas ao mesmo tempo de quebra de tabus e de quebra de-

De barreiras e preconceitos

...barreiras e preconceitos e formas de viver, e tudo isso vai mudar nesta altura. São pessoas que apanham este momento. Percebe-se uma coisa também que é, porventura, não digo que tenha acontecido em todo lado, mas típico de família, filhas únicas ou filhos únicos, que é às vezes uma relação complicada, neste caso concreto, com a mãe, depois há discussão se é porque ambas queriam ser muito bonitas ou se sobretudo a mãe queria ser a mais bonita das duas, e ela era indiscutivelmente bonita e atraente, tinha namoros e tinha essas coisas todas. Depois acaba, de facto, por casar com um diplomata suíço. Para a família é o descanso. Está tudo como deve ser, nasce uma figura, um senhor conservador, como se esperaria numa família com aquelas características. E em Cuba, é sempre um equívoco que nunca é completamente resolvido, na minha perspetiva. Haverá quem diga que sim, que é resolvido, mas eu acho que há aqui um lado ambíguo, que é até interessante, que é: ela apaixona-se primeiro por Che Guevara ou primeiro pelo regime? E este aspecto é interessante, porque isto acontece com muita gente.

O herói ou a causa. Evidentemente que depois ela se apaixona pelo regime e serve o regime, serve a causa e está no círculo próximo do topo do regime, é uma das intérpretes preferidas. Ela depois vai servir como intérprete, porque ela sabe muitas línguas e é uma intérprete do regime. Vai ter protagonismo com isso e proximidade com o próprio Fidel Castro e depois com outros ministros. Ela depois tem uma relação com um ministro, que também não acaba mal. Naquelas coisas do regime cubano, acaba até bastante mal, esse ministro. Mas ali a dúvida surge um bocadinho sobre até que ponto é que o primeiro cruzamento que acontece com o Che Guevara, numa receção de embaixada em que ela estava vestida com um vestido vermelho Os vestidos são feitos por modistas. Estamos a falar de um tempo, e também me recordo disto, os vestidos da minha mãe eram feitos por uma modista. Muitas vezes havia coisas que eram feitas em casa pelas próprias famílias. Tricotavam-se camisolas, por exemplo, que é uma coisa que hoje é inimaginável. As camisolas eram tricotadas em casa.

E passavam de primo em primo.

E passavam de primo em primo, de irmão em irmão. É um tempo muito diferente do tempo de hoje. E ela tem esse vestido e depois Che Guevara chega disfarçado, com aquela farda verde, umas botas com lama, botas de tropa, entra por ali adentro e elogia o vestido dela. E ela não toca no vestido, tem o vestido assim tipo imaculado, este vestido passou a ser sagrado. Há aqui uma dúvida. E aquilo leva para algo que eu acho que é sempre interessante, não há muita literatura sobre isso, que é a relação de Fidel Castro com as mulheres. Fidel Castro casa duas vezes.

Estás a falar de Fidel ou do Che?

Do Che, perdão. A relação de Che com as mulheres. Isto passa-se com Che Guevara. Com Fidel é um pouco diferente.

É bastante diferente.

É bastante diferente. Che Guevara tem um papel na revolução cubana, que muitas vezes se discute até que ponto é que ele teve. Por exemplo, ele é, no tempo da revolução, o marxista. Fidel ainda não era, ou pelo menos não parecia ser. Fidel ainda mantinha uma relação equívoca com os Estados Unidos. Depois rapidamente aquilo se torna anti-imperialista. Mas a relação privilegiada, por exemplo, com a União Soviética, ainda passa muito pelo Che. Mas que isso seja tudo um pouco complicado, porque saber se Che era ou não membro do Partido Comunista Cubano, não seria. O Partido Comunista Cubano tinha estado ligado, no início, à ditadura de Batista, porque tinha feito parte do primeiro governo de Batista, porque Batista, que era Fulgencio Batista, que é o ditador que é derrubado por Fidel Castro, que depois é outro ditador e com mais sucesso. Fulgencio Batista, quando chega também é para derrubar uma ditadura, também parece ser um momento democrático, depois aquilo é que se torna algo diferente. Tudo isto é uma história que às vezes é pouco conhecida, porque fica tudo na nebulosa e envolvido na mitologia da revolução cubana. Ora bem, o que é que Che poderia ter que era quase magnético para muitas mulheres? Ele tem um primeiro casamento com uma revolucionária ainda no tempo do exílio. Ele vai viajando de país em país na América Latina, tentando fazer revoluções, e aí é alguém que é quase professora dele. É uma marxista mais antiga, com mais conhecimento, com mais retórica, e quando ele vai para Cuba no Granma, que é o navio que os leva, e depois cria o tal foco guerrilheiro na Sierra Maestra, há um outro envolvimento com uma guerrilheira. Ele tem um filho e uma filha desse primeiro casamento, depois tem o segundo casamento, tem quatro filhos. Esta segunda mulher escreve umas memórias. Claramente umas memórias de uma mulher ainda apaixonada, pelo menos com essa retórica, mas era difícil também ser algo muito diferente, porque ela é uma mulher da revolução, mantém-se em Cuba, e em Cuba, Che é Cristo, porque o deus é Fidel. A relação é um pouco essa e há imagens por todo lado. Quem já visitou Cuba sabe que é assim. E agora, muitas vezes a questão que se coloca é se Che era capaz ou não de exercer uma atração quase magnética. E nós, de alguma forma, percebemos que isso podia acontecer por algumas das características que ele tinha. Porque ele era alto, magro, mas ao mesmo tempo diz-se que tinha um aspecto relativamente frágil. E a fragilidade é uma coisa que, aliás, estão aqui duas mulheres comigo, que é algo que muitas vezes-