Com dez anos de operação recém-completados, a hidrelétrica de Belo Monte é vista por cientistas como um alerta para os riscos de expansão da geração hidrelétrica na Amazônia, defendida pela área energética do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Leia mais (06/28/2026 - 05h00)

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Com dez anos de operação recém-completados, a hidrelétrica de Belo Monte é vista por cientistas como um alerta para os riscos de expansão da geração hidrelétrica na Amazônia, defendida pela área energética do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Estudos publicados em revistas científicas sobre os impactos do megaempreendimento apontam, por exemplo, risco de colapso da fauna aquática do rio Xingu e aumento do desmatamento na região de Altamira, Pará, onde está a usina hidrelétrica.

Lançam dúvidas também sobre a sustentabilidade da geração hidrelétrica na Amazônia em relação a outras fontes de energia, já que o alagamento de áreas antes ocupadas por florestas gera elevadas emissões de gases do efeito estufa.

Belo Monte começou a gerar energia em maio de 2016, sob a oposição de povos indígenas da região, de entidades ambientalistas e de cientistas. Com capacidade total de 11,2 mil megawatts (MW), é a maior usina hidrelétrica em solo brasileiro.

Para driblar os entraves ambientais, foi construída sem um grande reservatório —tipo de projeto conhecido como hidrelétrica a fio d'água— e com um canal artificial de alimentação das turbinas que evitou o alagamento de uma área conhecida como Volta Grande do Xingu.

Essa área, de 130 quilômetros de extensão, é justamente hoje a mais afetada. O desvio de água para as turbinas alterou o regime hídrico da região, que convivia com períodos de secas e cheias, pondo em risco espécies importantes para a economia local.

Dois estudos publicados em 2025 e 2026 concluíram que essa mudança alterou o perfil de peixes na região, que passaram a ter menos acesso a alimentos e a locais de reprodução em áreas que antes eram alagadas.

"A redução na oferta de comida leva a uma diminuição no tamanho corporal final, no tamanho dos ovos e na idade de puberdade, além de reduzir a biomassa total dos peixes", dizem os autores de um deles, que investigou os impactos sobre uma espécie de bagre da região.

As projeções feitas pela equipe coordenada pelo zoólogo Erival Gonçalves Prata, da UFPA (Universidade Federal do Pará), indicam que, sob limitação severa de alimentos, os indivíduos da espécie terão dificuldade em atingir a maturidade, com "cessação reprodutiva completa".

Outras espécies vêm sofrendo problemas semelhantes, aponta pesquisa coordenada por Nathalia Napole, doutoranda em ecologia pela UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte). O trabalho identificou uma mudança no perfil dos peixes pescados na região.

A captura de espécies centrais para o consumo e o comércio, como o curimatã, caiu e foi substituída por espécies menos desejadas, como o pacu. Como o bagre, o curimatã também depende das cheias para se alimentar e reproduzir.

A troca de peixes maiores por menores pode explicar a queda de 34% na biomassa capturada pela atividade pesqueira na região após o início das operações da usina. Sem o curimatã, o estudo estima que o volume de pesca da Volta Grande pode cair 78%, com forte impacto sobre as comunidades locais.

"Há mudanças emergentes na pesca de subsistência em Belo Monte, trazendo potencial risco de perdas econômicas, ecológicas e socioculturais", disse Nathalia à Folha.

"Dado o crescente número de empreendimentos hidrelétricos na Amazônia —juntamente com as pressões combinadas de seca, incêndios, desmatamento e mudanças climáticas— os impactos sobre a fauna aquática podem ser graves e irreversíveis", alertam os pesquisadores do estudo sobre os bagres.