Na primeira vez que o jornalista e escritor Kurt Andersen ouviu falar em Donald Trump , ele estava na redação da revista Time, em Nova York , em 1985. Um amigo, o também jornalista Graydon Carter, acabara de voltar de uma entrevista que fizera para um perfil de um espalhafatoso empresário nova-iorquino do ramo imobiliário. Leia mais (07/03/2026 - 23h00)
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Victor Lacombe Isabella Menon
São Paulo e Washington
Na primeira vez que o jornalista e escritor Kurt Andersen ouviu falar em Donald Trump, ele estava na redação da revista Time, em Nova York, em 1985. Um amigo, o também jornalista Graydon Carter, acabara de voltar de uma entrevista que fizera para um perfil de um espalhafatoso empresário nova-iorquino do ramo imobiliário.
"Ele não era famoso de modo algum", relembra Andersen. "E aí o Graydon me falou sobre ele e sobre tudo que ele era na época —e continua sendo."
Pouco tempo depois, Andersen e Carter deixariam a Time para fundar a revista satírica Spy, que se dedicava a tirar sarro de personalidades da mídia e política americana e da alta sociedade, especialmente a de Nova York. A publicação foi uma das primeiras a retratar Trump com frequência em suas páginas.
"Ele era uma piada local. Ficou mais famoso [depois], mas era uma figura ridícula e perfeita para uma revista satírica nos anos 1980 —bolsa de valores estourando, a ostentação voltou, Nova York está de volta, todas essas coisas da época que ele, à sua maneira, representava", diz Andersen.
Uma das marcas da revista, relembra o jornalista, era sempre se referir aos famosos por um epíteto específico. "Um dos meus favoritos era o do [Henry] Kissinger", diz, sobre o ex-secretário de Estado e homem forte da diplomacia americana por décadas. "A gente chamava ele de 'o criminoso de guerra socialite'. E achávamos engraçado porque sempre nos referíamos a uma pessoa da mesma maneira, e para Trump, escolhemos 'o brucutu de dedo curto'."
A piada de que Trump teria mãos pequenas, que nasceu na Spy, seguiu o bilionário por décadas e o assombrou mesmo quando entrou para a política. Em 2016, durante as primárias republicanas em que, surpreendendo analistas, Trump conquistaria a candidatura à Presidência, Marco Rubio —hoje secretário de Estado— tirou sarro do empresário pelo tamanho de suas mãos.
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Andersen conta que, quando viu a sua piada ganhar vida própria, não acreditou. "No debate entre os candidatos [da primária], Trump disse que não tinha dedos curtos nem nenhum problema lá embaixo. Eu fiquei tipo: isso é real? Estou ficando maluco? Essa piadinha que a gente criou há 30 anos de repente foi parar na política", afirma. "E originalmente não era uma coisa sexual. Era só uma observação, tipo, caramba, pra um cara que mede quase 1,90m, esse sujeito tem dedos muito curtos mesmo."
O jornalista diz que, nos anos 1980 e 1990, Trump, em mais de uma ocasião, enviou fotos das próprias mãos para Graydon Carter a fim de tentar refutar a zombaria. "A gente ficou tipo, cara, isso realmente mexeu contigo", afirma Andersen.
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A anedota revela um traço da personalidade de Trump que, segundo Andersen, manteve-se inalterada ao longo das décadas e só se tornou mais forte quando o bilionário chegou à Casa Branca: seu ressentimento e longa memória a respeito de pessoas que se opuseram a ele. "Eu já disse isso muitas vezes: tudo o que ele é hoje já estava aparente 40 anos atrás. Nada me surpreendeu."
Trump circulou às margens da política americana muito antes de se candidatar à Presidência. Em 1987, gastou US$ 95 mil (equivalente a US$ 276 mil hoje, ou R$ 1,4 milhão) para publicar um anúncio de página inteira em diversos jornais de Nova York argumentando que os EUA deveriam parar de proteger militarmente países que podem pagar por sua própria defesa, como o Japão.
Em sete capítulos, os repórteres Victor Lacombe e Isabella Menon analisam momentos históricos cruciais para a formação do país e relacionar seus impactos e legados às políticas do governo de Donald Trump.



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