O ditado afirma que quem vive de passado é museu, mas todo brasileiro abre um sorriso quando a imagem de Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho aparece na tela. Eles habitam a memória de tempos alegres, dançantes, um começo de século em que a gente se se

O ditado afirma que quem vive de passado é museu, mas todo brasileiro abre um sorriso quando a imagem de Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho aparece na tela. Eles habitam a memória de tempos alegres, dançantes, um começo de século em que a gente se sentia entre os grandes — e nem estou falando só de futebol. O intervalo da Final da Copa do Mundo, neste domingo, nos lembra que somos, sim, grandes ao olhar do mundo. Olha quanto Brasil aí, gente!

As coisas não andam muito animadoras em campo há algumas décadas. Coincidentemente, sem as chuteiras dos Ronaldos parece que o brilho se apagou um pouco. Mas após duas semanas de ressaca de uma eliminação viking do Brasil na Copa, Madonna trouxe esse passado para o presente e colocou os ex-jogadores como condutores de sua aparição no show do intervalo. Cores do Brasil na tela, o bom humor do Bruxo com uma malemolência que é só dele dançando "Music", que também embalava a pista quando o milênio virou; o jeito bonachão do Fenômeno ao volante de um carro que carrega a maior cantora do mundo. Os dois com o pé no gramado ao lado da rainha do pop. Ela afirma que a música faz as pessoas se unirem, faz a burguesia e os rebeldes ficarem juntos. Quem disse que a gente não vinha?

Em campo, um dos maiores jogadores de todos os tempos, o argentino Messi, que joga pelo país que é nosso maior rival. Lá, eles gostam de afirmar que não são latinos. Mas quem entra no gramado logo depois de Madonna é Shakira, latiníssima, dizendo que "a gente tem tudo que precisa" na música tema da Copa. "Onde tem uma roda, tem um caminho", diz um dos versos. Dá para encerrar o mês de competição com algo positivo e ir levando, mesmo com todo o emblema, todo o problema, todo o sistema?

A autoestima volta de vez quando o telão mostra Pelé dizendo "Love, Love, Love". É a primeira Copa após a morte do Rei e o discurso famoso, foi ali mesmo, naquele estádio, que se chamava Giants Stadium, em 1977, após a sua última partida como profissional. O Brasil dizendo o que importava bem antes de todo mundo parar de se importar com amor. Lamine Yamal cumprimenta Trump com um sorriso amarelo, como se a burguesia e o rebelde do bairro periférico espanhol pudessem se unir. Lembro-me então dos versos de Caetano: "Pelo mundo inteiro eu chamo essa chama que move. Pelé disse love, love, love. Absurdo, o Brasil pode ser um absurdo. Até aí, tudo bem, nada mal."

Música, como explicou Madonna bem assessorada pelos Ronaldos, faz as pessoas se unirem mesmo. Poderíamos seguir o verso e nos juntarmos num mesmo acreditar. Tem uma roda, tem um caminho. Temos várias. E elas seguem rolando por aí. "Não pense no ontem e não olhe no relógio", diz a letra convocando para a pista. A festa é mesmo a maneira de expurgar fantasmas. Amanhã vai ser melhor.

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