Crescimento da empresa da última Copa para essa movimenta estruturas da mídia brasileira

Em 2026, o brasileiro que quiser assistir a todos os jogos da Copa do Mundo está, inevitavelmente, ligado na CazéTV. E isso só acontece porque, em um mundo lidando com a pandemia, a Globo resolveu enfrentar a Fifa.

O ano era 2020, e o mundo estava impactado pela pandemia da covid. Com a população em lockdown e incertezas sobre os rumos da economia nos próximos meses, empresas começaram a renegociar contratos. Nesse contexto, a Globo decidiu entrar na Justiça contra a Fifa para renegociar o acordo de direitos de transmissão das Copas do Mundo.

A emissora carioca queria alterar os prazos de pagamento do contrato de US$ 90 milhões que tinha assinado. O processo chegou, sim, a um acordo entre as partes. A Globo seguiu com os direitos da Copa. O preço foi perder a exclusividade.

Foi aí que apareceu uma empresa chamada LiveMode, fundada em 2017 por Edgar Diniz e Sérgio Lopes. Os dois já tinham trabalhado juntos na criação do Esporte Interativo, um canal esportivo que acabou vendido para a Turner.

A empresa de Edgar e Sérgio era a parceira comercial da Fifa para a venda dos direitos da Copa de 2022 e, quando a Globo abriu mão da exclusividade, viu em suas mãos a possibilidade de comercialização de um produto inédito: jogos para plataformas digitais. O problema é que os players da época ainda não tinham experiência no mercado de transmissões ao vivo de esporte. E esse produto nem mesmo tinha sido adequadamente precificado.

O que foi ao mercado foi um pacote de 22 jogos pelo valor de US$ 3 milhões. Era baixo, mas levantou dúvidas. A LiveMode, responsável pela venda, percebeu, então, a oportunidade. E criou, ela mesma, um canal para transmitir o evento. Foi aí que nasceu a CazéTV.

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Antes da pandemia, Casimiro era estagiário do Esporte Interativo e fazia streamings de games na Twitch. Quando veio o isolamento, seus vídeos explodiram e seus chefes, agora donos de uma agência com direitos, viram uma oportunidade de aproveitar essa fama repentina. Em 2020, a LiveMode fez o meio-campo para que Casimiro transmitisse Athletico x Vasco pelo Brasileirão, em modelo pay-per-view.

Eu não sabia que eu podia ganhar dinheiro fazendo live. Isso não existia. Estava fazendo live, estava crescendo. Surgiu a oportunidade de fazer Athletico x Vasco. O Vasco foi espancado. Chegaram com a oportunidade: 'Casimiro, olha só, tu vai chegar aqui, transmitir o jogo. Só que 100% vai ter que voltar para o Athletico. Na época, vou ser sincero, não lembro quantos seguidores eu tinha. Eu já era grande na Twitch. Mas pô, ter a oportunidade de transmitir o jogo do meu time era muito maneiro. E eu aceitei. Aí, quando eu fiz esse jogo, ganhei 20 mil inscritos no jogo, ganhei seguidor para c... Só que o dinheiro não veio para mim. Eu fiquei com essa pulguinha. 'Mano, pode ser um bagulho que dá dinheiro'.Cazé em uma live

O canal de Cazé na Twitch ainda fez transmissões em parceria com o Flamengo, até que chegou 2022. A CazéTV como conhecemos no YouTube foi lançada oficialmente em novembro de 2022 para transmitir aqueles 22 jogos da Copa do Qatar. A eliminação do Brasil para a Croácia bateu, na época, o recorde de maior transmissão ao vivo do YouTube - com 6,9 milhões. Com o sucesso, a LiveMode assumiu a comercialização exclusiva da Copa de 2026.

Em novembro de 2025, a LiveMode adquiriu 100% da CazéTV e integrou Casimiro como sócio da holding global. Em 2024, vendeu parcela minoritária das ações para a General Atlantic e a um fundo da XP. A compra dos direitos da Copa 2026 é fruto também de uma parceria com o próprio YouTube.

Para a próxima temporada, a CazéTV já assegurou direitos das principais ligas do mundo (inglesa, francesa, espanhola, italiana e alemã) e ainda tem parte do Brasileirão, via acordo com a Futebol Forte União — da qual a LiveMode também participa. Os contratos com Fifa e Comitê Olímpico Internacional para transmissão da Copa do Mundo Feminina 2027 e dos Jogos Olímpicos de 2028 também estão selados.

A primeira fase da Copa ainda nem terminou, e Casimiro e os seus festejam números recordes na edição atual do Mundial. Além de vender, em parceria com o YouTube, 11 cotas de patrocínio para o Mundial, gerando receita estimada em R$ 2 bilhões, a CazéTV tenta espalhar por aí as camisas do canal e aposta também em experiências imersivas presenciais em casas montadas no Rio e em São Paulo.

A vitória do Brasil sobre o Haiti teve um recorde no Youtube: 16,1 milhões de dispositivos conectados ao mesmo tempo. Foi a live de maior audiência simultânea na plataforma. A marca anterior já tinha sido alcançada nesta mesma Copa do Mundo pela própria Cazé TV: 12,7 milhões no Brasil x Marrocos.

Casimiro não está — nem consegue — aparecer em 100% da programação. Mas o canal desenvolveu um jeito próprio de transmitir futebol, voltado para o público jovem, e que vira algo estrondoso pelo engajamento nas redes sociais.

Na batalha dos números, a Globo cita dados do Ibope para dizer que mais da metade do público que viu Brasil x Haiti estava na plataforma da emissora carioca, com 51,3 milhões de pessoas espalhadas pelo "ecossistema" Globo — TV aberta, Sportv e GeTV.

Para além do contra-ataque global sobre quem tem menos delay — com direito a campanha para compra de antenas digitais —, o fato de a CazéTV ter a Copa por completo a coloca em uma posição privilegiada para contar, ao vivo, toda a história da primeira Copa com 48 seleções.

A CazéTV tem 48 jogos exclusivos na Copa, pelo acordo que fez com a Fifa. Na madrugada de terça para quarta, haverá a próxima janela para que as emissoras escolham como ficará a grade para a última rodada da fase de grupos.

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