Augusto Cury fez fortuna com uma teoria contestada por especialistas — e agora quer sua lógica para a política

Dê de presentePrefira a Gazeta no GoogleAugusto Cury: escritor criou conceitos como Síndrome do Pensamento Acelerado, Gestão da Emoção e Mesa Redonda do Eu (Foto: Renato Pizzutto/Band)Ouça este conteúdo

Augusto Cury (Avante) entrou na corrida presidencial com um recorde que nenhum outro candidato pode ostentar. Ele é dono do maior patrimônio declarado entre os concorrentes de 2026: R$ 242 milhões — quase 35% acima da fortuna de Romeu Zema, segundo colocado no ranking.

Para chegar lá, o psiquiatra e escritor de 67 anos construiu um império comercial com livros de autoajuda, cursos, palestras, apostilas e um método pedagógico vendido para prefeituras e escolas particulares de todo o Brasil. E tudo isso a partir de uma teoria sobre a mente humana que ele mesmo criou e, agora, tenta aplicar ao país inteiro.

Segundo Cury, o “gatilho” (para usar um termo psicológico da moda) dessa trajetória foi uma depressão. No início da década de 80, quando ainda cursava a Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (SP), ele passou por uma crise emocional que o levou a se perguntar por que tinha tão pouco controle sobre as próprias emoções.

Usando a si mesmo como laboratório, Augusto Cury passou os anos seguintes pesquisando e escrevendo sobre o que chama de “mecanismos de construção do pensamento”. Até que, em 1999, o psiquiatra publicou Inteligência Multifocal, um livro ambicioso onde apresentou pela primeira vez sua própria teoria sobre o funcionamento psíquico das pessoas.

Para Cury, a memória funciona por meio de “janelas”. Algumas guardam traumas e lembranças negativas. Outras, experiências saudáveis. E cabe a cada indivíduo administrar quais dessas janelas devem ser abertas diante das situações do dia a dia.

Essa é, em linhas gerais, a Teoria da Inteligência Multifocal — a base de tudo que viria depois, encorpada ao longo do tempo com novos conceitos. Todos com nomes supostamente técnicos e um tanto grandiosos: Síndrome do Pensamento Acelerado, Gestão da Emoção e Mesa Redonda do Eu, entre outros.

Para alcançar um público maior, Augusto Cury passou a traduzir suas ideias para uma linguagem mais simples, em livros com temas de fácil identificação. Títulos como “Nunca Desista de Seus Sonhos”, “Pais Brilhantes, Professores Fascinantes” e “Seja Líder de Si Mesmo” marcam essa fase, impulsionada por números de vendas expressivos.

Hoje, Cury soma mais de 40 milhões de exemplares vendidos, segundo dados fornecidos por ele mesmo e pelo mercado editorial. Uma parte importante desse sucesso veio de uma parceria com a rede de revendedoras da Avon, que distribuiu obras do autor em regiões do Brasil onde livrarias praticamente não existiam.

Outro ponto de virada foi a publicação de O Vendedor de Sonhos (2008), romance sobre um morador de rua que impede o suicídio de um homem rico pregando o desapego material. Mais do que uma incursão do escritor pela ficção, o livro é uma forma de apresentar suas teses em uma embalagem mais acessível, “infiltradas” nas histórias e nos discursos dos personagens.

A estratégia funcionou: a obra vendeu mais de 2,5 milhões de exemplares, virou trilogia, peça de teatro e filme na Netflix. Mas a jogada seguinte seria ainda mais lucrativa.

Em 2010, Augusto Cury lançou a Escola da Inteligência, um pacote de material didático e treinamento de professores baseado exatamente na Teoria da Inteligência Multifocal. Inicialmente voltado para escolas particulares, o produto logo se expandiu para a rede pública.

A venda costuma ser feita diretamente para prefeituras — muitas vezes sem licitação, sob a justificativa de que o material é exclusivo (uma brecha legal usada quando se alega que só aquele fornecedor pode entregar o serviço).

Cuiabá (MT), Paranaguá (PR), Lagoa Santa (MG) e Itajaí (SC) estão entre os municípios que contrataram o programa. Levando em conta estes e outros contratos, o valor médio anual fica na casa de R$ 1 milhão.

Em 2020, a Arco Educação, uma das maiores empresas brasileiras do segmento, comprou 60% da Escola da Inteligência voltada ao setor privado por R$ 288 milhões (valor que deixou a companhia avaliada em R$ 480 milhões). Na época, o programa atendia cerca de 900 colégios e 330 mil alunos.

No ano seguinte, o psiquiatra levou sua tese para dentro de um shopping center. Em parceria com a rede Multiplan, surgiu o MultiSer, um “centro de gestão da emoção” instalado no RibeirãoShopping, no interior de São Paulo.

“Estamos iniciando um projeto que completará o nosso sonho: tratar, também, da alma humana”, disse José Isaac Peres, fundador da Multiplan. Cury completou: “Toda vez que tenho um projeto que procura neutralizar a dor humana, para mim é fazer das pequenas coisas um espetáculo aos olhos, o que me faz viajar para dentro de mim”.

Mas o conceito que sustenta esse império é contestado no meio científico. Em abril, depois de Augusto Cury anunciar sua candidatura à Presidência pelo Avante, o jornal Folha de S. Paulo consultou cinco psiquiatras sobre a Teoria da Inteligência Multifocal — e todos a refutaram.

Segundo os especialistas, o conceito não possui validação estabelecida por meio de revisão por pares (a avaliação de estudos por outros pesquisadores da mesma área). E, por esse motivo, não é utilizado por eles na prática clínica.

“Cury não é pesquisador nem cientista. Portanto, mesmo com a genialidade que ele possa ter, criar uma teoria do nada é bastante arriscado”, afirmou ao jornal o professor da USP Wagner Gattaz.