Economista com vasta experiência no setor público sumarizou as medidas de ajuste fiscal que podem ser tomadas pelo governo
Em entrevista ao podcast Touros e Ursos, economista com vasta experiência no setor público sumarizou as medidas que podem ser tomadas pelo governo e a ordem de aplicá-las, na sua visão
7:08 - atualizado às 11:24
Uma medida frequentemente mencionada por economistas de mercado e nomes de peso da Faria Lima como fundamental para o ajuste fiscal brasileiro é a desindexação de uma série de benefícios sociais, como a aposentadoria, ao salário-mínimo.
Isso porque o salário-mínimo é corrigido não apenas pela variação da inflação, como também pela variação do Produto Interno Bruto (PIB), de modo a participar aos trabalhadores os ganhos de produtividade da economia.
Entretanto, ao transmitir esse aumento para outros benefícios sociais, a conta para o governo fica enorme.
Só que tomar essa iniciativa de desindexação seria, naturalmente, extremamente impopular, não só por impactar muita gente como também pela percepção de que quem teria que pagar a conta pelo ajuste fiscal seria "o andar de baixo", ou seja, a população mais pobre.
Como as medidas governamentais não são tomadas no apertar de um botão, mas envolvem discussão, política e burocracia, saber como fazer e em qual ordem é tão importante quanto saber o que fazer.
Foi nesse sentido que Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos, resumiu em quatro passos o que seria, na visão dele, o melhor ajuste fiscal possível no Brasil hoje, para estabilizar o crescimento da dívida pública.
Salto, que falou sobre o tema na última edição do programa Touros e Ursos, o podcast do Seu Dinheiro, tem vasta experiência no setor público, tendo sido diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado, e secretário de Fazenda do estado de São Paulo.
"A primeira medida da lista [para um ajuste fiscal] não pode ser [a desindexação do] salário-mínimo, porque não dá para você convencer a sociedade de que o problema fiscal do Brasil é o aposentado que ganha R$ 1.612 e que, no ano que vem, vai ganhar R$ 1.741", diz Felipe Salto, ressaltando a impopularidade da medida.
Ele acredita que essa medida precisaria sim ser discutida em algum momento, mas não deveria ser a primeira da lista, pois há muitas outras que deveriam ser tomadas antes. Confira-as a seguir:
Para Salto, é preciso discutir com o Congresso que "não dá para ele ter R$ 50 bilhões corrigidos permanentemente pela regra do teto porque, se isso continuar acontecendo, ele vai levar o governo à falência", provocando o chamado shutdown, a paralisação da máquina pública.
O economista acredita que seria preciso reduzir o valor das emendas pela metade, o que liberaria R$ 25 bilhões.
O economista-chefe da Warren defende o fim dos supersalários do serviço público sem exceções para qualquer categoria profissional, restringindo as remunerações ao teto do Supremo Tribunal Federal (STF).
Isso implicaria acabar com os chamados "penduricalhos", as verbas que não fazem parte da remuneração em si, mas acabam elevando muito os rendimentos de alguns servidores.
"Não dá para ter gente ganhando R$ 500 mil, R$ 100 mil, R$ 200 mil por mês", disse Salto, que acrescentou: "O que nós podemos fazer é discutir esse teto remuneratório."
Salto defende que o serviço público brasileiro tem muitos servidores de alta qualificação, muito preparados e atualizados e que "não deixam a desejar em relação a nenhum país desenvolvido do mundo".
Ele citou sua experiência de sete anos e meio em Brasília e o contato que teve com servidores do Senado, da Câmara, da Receita Federal, do Tesouro Nacional e do Banco Central, além dos auditores e procuradores do estado de São Paulo.
O economista lembra que, a depender da posição que ocupam, os servidores assumem altos riscos na pessoa física. Nesses cargos de confiança, portanto, seria realmente necessário remunerar muito bem, assim como acontece com cargos semelhantes no setor privado.
"Hoje a alternativa para isso são os conselhos de estatais etc., mas isso é um 'puxadinho', não dá para ser assim. É preciso ter um teto um pouco maior para poder remunerar quem está servindo nesses cargos de maior risco", defende.
Se o Congresso e o Executivo conseguissem de fato limitar os supersalários, haveria uma liberação de R$ 5 bilhões a R$ 8 bilhões, na visão de Salto.




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