O ódio contra as mulheres é antigo, velho, mas extremamente astuto quando se apropria de novas ferramentas. A misoginia muda de linguagem, encontra novas plataformas, incorpora novos vocabulários e descobre novas maneiras de circular, como aconteceu com o adv…
Quando comecei a construir a pesquisa que mais tarde se transformaria no livro Machosfera: quando a misoginia vira política, o termo machosfera ainda circulava de maneira bastante restrita e red pill era conhecido principalmente como uma expressão do vocabulário masculinista. Os grupos misóginos que hoje aparecem em vídeos, canais, comunidades e redes sociais ainda eram tratados, muitas vezes, como um fenômeno marginal da internet. Essa distância entre o que estava acontecendo e as palavras disponíveis para descrevê-lo foi uma das primeiras dificuldades da pesquisa.
Minha tese, defendida em 2023, buscava compreender a relação entre grupos masculinistas e a extrema direita no Brasil e a presença do discurso de ódio produzido por esses grupos nas campanhas de Jair Bolsonaro em 2018. Para isso, foi necessário reunir peças de um quebra-cabeça que ainda estava sendo montado: estudos sobre gênero, masculinidades, misoginia, radicalização, extrema direita, neoconservadorismo, redes digitais e política. E um ponto importante, eu precisava entender o que as pesquisas internacionais chamavam de “manosphere”. Eu não tinha ouvido falar de nada parecido aqui no Brasil, mas eles estavam lá organizados, organizando.
Eu estava tentando compreender algo que, naquele momento, ainda era tratado como ruído. E foi um dos maiores desafios de pesquisar fenômenos contemporâneos: quando conseguimos nomeá-los, eles já mudaram de forma.
Foi então que compreendi as diversas roupagens da misoginia, que sempre existiu. O ódio contra as mulheres é antigo, velho, mas extremamente astuto quando se apropria de novas ferramentas. A misoginia muda de linguagem, encontra novas plataformas, incorpora novos vocabulários e descobre novas maneiras de circular, como aconteceu com o advento da internet. O que antes podia estar escondido em um fórum anônimo passa a aparecer em um vídeo de milhões de visualizações. O que era uma conversa entre homens em um espaço fechado transforma-se em curso, podcast, canal, perfil, produto, comunidade e, cada vez mais, negócio. Foi nesse deslocamento que compreendi que a machosfera não poderia ser analisada apenas como um conjunto de homens que odeiam mulheres. Era preciso entendê-la como uma estrutura de socialização, pertencimento e produção política.
Olhar para o inimigo
Uma parte importante dessa história aconteceu quando comecei a olhar diretamente para aqueles que estavam do outro lado da disputa. Minha trajetória de pesquisa havia se aproximado inicialmente do feminismo contemporâneo, mas, em determinado momento, ficou evidente que compreender os avanços das mulheres não seria suficiente. Era preciso compreender também as reações a esses avanços.
Foi nesse processo que recebi materiais sobre blogs e fóruns que hoje reconhecemos como parte da machosfera. A sugestão era simples e, ao mesmo tempo, desconfortável: olhar para os “inimigos”. Não para legitimá-los, não para oferecer a eles um espaço que não possuem, mas para compreender sua lógica, sua linguagem e sua capacidade de produzir mundo.
Os grupos masculinistas que encontrei não eram simplesmente homens frustrados falando sozinhos na internet. Havia vocabulário, códigos, hierarquias, referências, mecanismos de socialização e uma narrativa relativamente organizada sobre o mundo. Nessa narrativa, os homens seriam as verdadeiras vítimas de uma sociedade dominada pelas mulheres e o feminismo apareceria como o grande responsável pela suposta perda de autoridade masculina. Direitos conquistados por mulheres e grupos historicamente discriminados seriam interpretados não como avanços democráticos, mas como privilégios retirados dos homens.
A frustração individual era transformada em injustiça coletiva, o fracasso amoroso se transformava em teoria sobre todas as mulheres, a rejeição se transformava em ressentimento, o ressentimento se transformava em ideologia e a ideologia encontrava a política.
Da tela para a política
Talvez uma das conclusões mais importantes da pesquisa tenha sido perceber que a misoginia não estava confinada à internet, ela fazia parte de uma disputa maior sobre poder. No Brasil, essa disputa ganhou força especialmente a partir de 2014, a eleição de Dilma Rousseff foi acompanhada por uma avalanche de ataques misóginos, memes, imagens sexualizadas e discursos que transformavam o corpo e a condição de mulher da presidenta em argumento político. Eu entendi que a misoginia passou a funcionar como linguagem de mobilização.
Não era mais apenas “não gosto dela”, era: uma mulher não deveria estar ali..
Porque quando uma mulher é atacada por aquilo que faz, estamos diante de uma disputa política, mas quando ela é atacada por ser mulher, estamos diante de uma disputa sobre quem pode ocupar o espaço político. O que a pesquisa encontrou foi uma conexão entre esse imaginário e a ascensão da extrema direita brasileira. A eleição de 2018 não criou a misoginia política, mas ofereceu a ela uma oportunidade inédita de ocupar o centro do debate público. Bolsonaro construiu uma persona política baseada em uma masculinidade autoritária, confrontacional e performática. Força, violência, enfrentamento e desprezo pelos direitos humanos eram apresentados como sinais de autenticidade. A agressividade deixava de ser um problema e passava a ser uma virtude.
A política passou a falar como a machosfera e a machosfera passou a encontrar na política uma autorização.
Essa relação não deve ser compreendida como coincidência, o livro procura demonstrar justamente que masculinismo e extrema direita não são fenômenos separados que ocasionalmente se encontram. Eles compartilham uma visão de mundo fundada na rejeição das transformações sociais que ampliaram direitos e deslocaram antigas hierarquias.
A pergunta que ficou
Existe uma pergunta que me acompanha desde que comecei a pesquisar o tema: por que homens ficam tão furiosos diante da emancipação das mulheres? Infelizmente não existe uma única resposta, mas a pesquisa permite observar uma dinâmica. Quando uma ordem social baseada em hierarquias começa a ser questionada, aqueles que ocupavam posições privilegiadas podem interpretar equidade como perda.
A mulher que trabalha deixa de ser vista apenas como trabalhadora e passa a ser percebida como ameaça à autoridade masculina. A mulher que ocupa um cargo político deixa de ser julgada por suas ideias e passa a ser julgada por sua existência naquele espaço. A mulher que recusa uma relação pode ser transformada em inimiga. A mulher que denuncia uma violência pode ser acusada de destruir a vida de um homem.
Existem diferentes formas de uma mesma estrutura se adaptar e a machosfera é uma das formas contemporâneas dessa adaptação. É por isso que estudar masculinismo não significa colocar homens no centro de uma pesquisa sobre mulheres, é exatamente o contrário. Significa compreender uma engrenagem que produz violência contra as mulheres.
Um livro sobre memória e futuro




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