Juscelino Kubitschek foi o presidente de um Brasil que ousou sonhar grande. O Brasil dos “50 anos em cinco”, do desenvolvimentismo, da nova capital – todas as propostas em sintonia com uma nova visão cultural, representada pela bossa nova e o cinema novo. Foi ainda um presidente com biografia política, com bom trânsito entre vários [...] The post Como Juscelino matou o mercado appeared first on Brazil Journal .

Juscelino Kubitschek foi o presidente de um Brasil que ousou sonhar grande. O Brasil dos “50 anos em cinco”, do desenvolvimentismo, da nova capital – todas as propostas em sintonia com uma nova visão cultural, representada pela bossa nova e o cinema novo.

Foi ainda um presidente com biografia política, com bom trânsito entre vários partidos (a começar pelo seu, o PSD), e um discurso moderno e conciliador.

Todos esses atributos eram embalados por sua personalidade charmosa, simpática e risonha, de quem gostava de dançar em festas, namorar e conversar.

JK deixou o governo sem fazer o sucessor – Henrique Lott foi derrotado por Jânio Quadros, da UDN – mas manteve a mística em torno de seu nome e, pouco tempo depois, já despontava como o favorito às eleições de 1965, quando deveria ter como adversários Carlos Lacerda, da UDN, e Leonel Brizola, do PTB.

Mas Juscelino foi também um presidente gastador, que atropelava os orçamentos, e foi o principal responsável por aumentar o papel do Estado como indutor do crescimento. Foi ainda o criador de Brasília, a capital que saiu do Rio de Janeiro e afastou os políticos e a alta burocracia do Brasil real, criando uma ilha que fortaleceu o inchaço do funcionalismo público, o corporativismo e o clientelismo.

É esse Juscelino – pouco lembrado e menos ainda analisado à luz dos conceitos econômicos – que emerge de Juscelino – Uma Crítica ao Desenvolvimentismo (222 páginas, R$ 79,90), de Lucas Berlanza e Antônio Claret Jr., lançado pela LVM Editora em parceria com o Instituto Liberal. (Compre aqui)

Tanto Berlanza, um jornalista formado pela UFRJ, quanto Claret, advogado, apresentam-se como liberais, e é justamente o liberalismo que pauta sua proposta de mostrar um lado menos conhecido e explorado de Juscelino – e, por isso mesmo, menos charmoso.

Para eles, o juscelinismo nacional-desenvolvimentista trouxe consigo um atraso. Muitas das propostas tiveram suas bases nas agendas surgidas nos anos 30 e 40 do século passado, com ideias que defendiam uma maior intervenção do Estado como forma de favorecer (artificialmente) a industrialização e urbanização.

Claret e Berlanza justificam o que pretendem sustentar. Com uma boa recuperação de momentos históricos, os dois vão na gênese do que seria a formação institucional do Brasil: uma construção forjada a partir de parcerias da Igreja Católica, da Maçonaria e das Forças Armadas com o apoio do Estado português.  Essa situação só se alteraria, em parte, com o golpe militar que depôs o imperador e implantou a República, representado pelos governos de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto.

Mudança ainda mais substancial só ocorreria quatro décadas depois, com a Revolução de 30 e a chegada de Getúlio Vargas ao poder.

Herdeiro do positivismo e representante do caudilhismo, Getúlio havia sido governador do Rio Grande do Sul e ministro da Fazenda. Como presidente, amparou-se em um regime que deveria estar em contato direto com o povo, sobreposto às lutas partidárias. Tinha pouco apreço por eleições, embora viesse a se consagrar em uma delas, a de 1950, mas antes disso já havia resumido boa parte do seu pensamento político.

“O Estado Novo (implantado em 1937) não reconhece direitos de indivíduos contra a coletividade,” discursou Getúlio em julho de 1938. “Os indivíduos não têm direitos, têm deveres.”

Seguidor dessa cartilha, Juscelino – ainda que sem o perfil centralizador e autoritário de Getúlio – cresceu nas hostes do PSD.

Uma das três grandes legendas surgidas na década de 40 (as outras eram o PTB, de inspiração getulista e trabalhista, e a UDN, que reunia liberais dos mais diversos matizes e os oligarcas derrotados em 30), o PSD era o mais amplo e menos doutrinário dentre os partidos brasileiros. Seu líder em Minas Gerais era Benedito Valadares, nomeado governador por Getúlio e mantido no poder por mais de uma década. Foi à sombra de Benedito que Juscelino cresceu.