Formato fortalece modalidades e ligas esportivas menos populares, mas desperta polêmicas ligadas à promoção irregular de bets, à falta de auditoria das métricas de audiência e, em Portugal, a disputas regulatórias.
Role, Da BBC News Brasil em LondresPublished 3 julho 2026Tempo de leitura: 10 minAcostumado a importar tendências dos Estados Unidos e da Europa, o mercado brasileiro de mídia esportiva agora vive uma inversão de papéis: passou a exportar para o mundo o modelo de transmissões lideradas por influenciadores digitais em plataformas nativas da internet, como YouTube e Twitch, nos moldes da CazéTV e da Goat.
Os jogos da Copa do Mundo transmitidos pela CazéTV, criada pelo apresentador Casimiro Miguel, teriam quebrado recordes de lives no YouTube — a partida entre Brasil x Japão, por exemplo, teria sido acompanhada por 19 milhões de pessoas.
Enquanto no Brasil a CazéTV responde a acusações de promoção irregular de bets, a LiveMode, empresa por trás do canal, expandiu sua operação para Portugal. Ela reuniu influenciadores, humoristas e jornalistas para lançar sua operação no país em parceria com o camisa 7 da seleção portuguesa, Cristiano Ronaldo.
O projeto está no início, mas a empresa diz já considerar a iniciativa bem-sucedida. Sua primeira grande transmissão, o jogo entre Brasil e Marrocos na Copa do Mundo, teria alcançado quase um terço dos lares portugueses, informou à imprensa portuguesa a LiveMode, que não respondeu aos pedidos de entrevista da BBC.
No Reino Unido, influenciadores como Mark Goldbridge e o ex-jogador Gary Neville passaram a transmitir partidas da Bundesliga — a principal liga de futebol da Alemanha —, e na França o streamer Zack Nani adquiriu direitos da Saudi Pro League — a liga saudita de futebol — e dos jogos da seleção francesa sub-21.
Isso sem contar as competições criadas especificamente para o ambiente digital, como a Kings League, formada pelo ex-zagueiro da Espanha Gerard Piqué em parceria com o influenciador espanhol Ibai Llanos.
Embora ainda estejam longe da escala alcançada pela CazéTV, que rivaliza com a maior e mais tradicional emissora do Brasil, a Globo, essas iniciativas já sacodem a mídia esportiva internacional.
Segundo a consultoria britânica Ampere, especializada nos mercados de mídia e esportes, a América Latina é a região onde é mais disseminado o consumo de transmissões em que os chamados criadores de conteúdo reagem e comentam as partidas.
Veja Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil
Fim do Promoção Agregador de pesquisas
No México, que lidera o ranking, 73% dos fãs de esportes acompanham esse tipo de conteúdo; no Brasil, quarto colocado na lista, o índice chega a 62%.
Para Minal Modha, diretor de pesquisas da Ampere, isso está ligado ao consumo excepcionalmente alto de redes sociais na região. Não por acaso, países como o Brasil costumam figurar entre os que mais passam tempo conectados a essas plataformas.
Nesse contexto, transmissões como as da CazéTV são capazes de unir duas paixões do público local. "Assistir a um jogo com um influenciador comentando combina o prazer do esporte com aquele que vem do uso das redes sociais", explica Modha.
Sua visão encontra eco na avaliação de Victor Machado, diretor de TV, entretenimento e esportes do YouTube no Brasil. Para ele, uma das principais razões para o sucesso da CazéTV é o senso de comunidade criado pelo canal.
Isso se deve tanto aos apresentadores, que dizem ser amigos e manter uma relação que vai além das transmissões, quanto ao próprio Casimiro, que desperta identificação por não ter o perfil de um narrador consagrado, mas ser o espelho de um torcedor comum.
Casimiro começou a comentar partidas esportivas de maneira despretensiosa em transmissões online. Só depois de viralizar, profissionalizou a atividade e passou a rentabilizá-la.
Mas esse engajamento também é reforçado pela interação entre os usuários, que podem comentar as transmissões em tempo real por meio do chat das plataformas digitais.
É uma experiência que as emissoras tradicionais tentam reproduzir por meio de iniciativas como a chamada TV 3.0, em fase de testes no Brasil. A tecnologia promete recursos mais interativos e uma experiência de consumo mais personalizada, mas ainda está distante da escala e da familiaridade que o YouTube e a Twitch já alcançaram.
Esse senso de personalização, acrescenta o executivo, também favorece modalidades esportivas e campeonatos menos populares, muito comuns especialmente na Europa e que raramente encontrariam espaço nos canais tradicionais.
São competições que ficavam restritas à TV por assinatura, dependendo de um público disposto a pagar valores elevados para ter acesso ao conteúdo — no auge da TV a cabo, há mais de uma década, os pacotes esportivos podiam facilmente superar os R$ 100 mensais.


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