Toda vez que a minha filha precisa se despedir da avó paterna, que mora no Rio de Janeiro , passa alguns dias tristíssima e pede para dormir abraçada comigo. Leia mais (08/20/2026 - 23h00)

Escritora e roteirista de cinema e televisão, autora de “Depois a Louca Sou Eu” e "A Boba da Corte"

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20.ago.2026 às 23h00

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Tati Bernardi Toda vez que a minha filha precisa se despedir da avó paterna, que mora no Rio de Janeiro, passa alguns dias tristíssima e pede para dormir abraçada comigo.

Também resmunga chorosa quando a minha mãe vai embora, mas sabe que pode revê-la logo, pois moramos perto. No último domingo, ainda com saudades da avó carioca, disse o seguinte: "Pede pro papai demorar um pouco, quando eu fico assim eu preciso de mulher".

Achei a frase "eu preciso de mulher" curiosa, um tanto deslumbrante, e quis explorar mais sentidos possíveis. Então ela explicou que adora estar com o pai, os meninos da escola, os avôs, mas que estar entre mulheres, fosse eu, as avós, a madrasta ou as amiguinhas da mesma idade, dava a ela uma sensação mais parecida com "descansar no sofá, tomando leite com chocolate e ganhando massagem no pé".

Sempre me senti mais radiante e aconchegada na presença de mulheres, e a maturidade ainda me mostrou como seria inviável atravessar demissões, divórcios e lutos sem estar cercada por elas.

Pensando nisso, topei participar de um evento criado por e para mulheres. Diante de uma plateia formada por jovens meninas iniciando suas carreiras, eu e outras colegas, com profissões variadas, precisávamos contar um pouco sobre nossas experiências profissionais.

O problema é que, de saída, já estava tudo errado: éramos cinco brancas, sudestinas e nascidas em famílias classe média. Claro que passei por perrengues, machismos, preconceitos e assédios, mas não orientar nosso discurso a partir de um recorte de classe e de cor seria vexatório. Briguei pelo tema, porém ele foi derrubado de imediato.

A mais loira de todas selou nosso destino rumo ao ridículo naquela manhã. Ela resolveu falar como só chegou aonde chegou porque os homens poderosos a ajudaram muito. E deu uma dica memorável para as espectadoras: "Não compita com eles, não confronte. Use seu jeitinho, seu charme, para ficar amiga deles, e assim você terá tudo!". Poderia estar no manual da boa moça para casamento do século 19.

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Sendo o mundo como ele é, não dá para dizer que ela estava errada como estrategista, mas aquilo me desceu tão mal que me lancei como uma onça faminta ao microfone. Então, enquanto estava lá tentando argumentar, me dei conta de algo interessante. Em minha trajetória como escritora e roteirista, de fato alguns homens foram importantes. No entanto, com absolutamente todos eles o desfecho foi o mesmo: passaram a me ignorar, e até maldizer, quando conquistei reconhecimento.

Adoravam "me descobrir", me apresentar, conseguir um freela, uma publicação, uma oportunidade. Ser os mestres, os guias e os salvadores da menininha desconhecida. Mas assim que ganhei algum público e status (e idade), se tornaram ocupadíssimos ou inimigos. Concluí que há décadas falo deles na análise, me perguntando o que fiz para que a amizade acabasse. Me culpando, muitas vezes. E o insight finalmente chegou: bem, eu fiquei do tamanho deles, ou, vai ver, até maior. E isso não interessa a muitos homens —à maioria deles.

Não consegui falar isso na hora para aquelas jovens cheias de talento e desejos. Então estou escrevendo agora.