Como Teatro Oficina relê '7 Gatinhos' para discutir a violência contra a mulher
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Ao longo dos anos, esse tema, assim como outras formas de violência contra mulheres, se tornaria recorrente em suas obras —antes da Lei Maria da Penha, da criação do termo feminicídio e de a tese da "legítima defesa da honra" deixar de ser aceita.
Em 1958, Nelson escreveu a peça "7 Gatinhos", que retrata um patriarcado fragilizado, mantido por aparências. Prostituição e diversas violências comandadas por um pai de família compõem as cenas.
Mais de seis décadas depois, o coletivo Viradas da Encruza, composto por artistas do Teatro Oficina Uzyna Uzona, majoritariamente jovens, optou por inserir uma sequência de notícias recentes de feminicídio e estupro, deslocando a montagem para o presente.
No final do segundo ato da peça, a iluminação adquire um tom frio e sons estridentes tomam o espaço projetado por Lina Bo Bardi, no bairro do Bixiga. Os atores se contorcem, correm e gritam enquanto as telas exibem as manchetes.
A cena foi incluída na reestreia, em 20 de junho, sendo o único improviso em toda a encenação.
A adição mostra o contexto que não está explícito nas falas dos personagens, explica a diretora Joana Medeiros, também intérprete do patriarca Noronha.
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"Quer dizer: olha o que está por debaixo do pano, como os nossos corpos não aguentam isso. Olha como, na hora que alguém vai pegar no meu corpo, eu grito, fujo", diz Medeiros. "Olha como as televisões em qualquer padaria estão mostrando as coisas e eu finjo que não vejo, mas por dentro sei."
Desde a estreia da montagem no Oficina, em 24 de dezembro de 2024, estima-se que, em média, 187 mulheres tenham sido estupradas por dia. Cerca de quatro foram vítimas de feminicídio, segundo dados do Mapa Nacional da Violência de Gênero.
Na peça, porém, quem morre em maioria são os homens. Foi a partir daí que a diretora Joana Medeiros viu um tema de revanche feminina no texto de Nelson, apesar das identificações do escritor com posições políticas conservadoras e de suas críticas ao feminismo de então.
As mulheres não são santas, diz Medeiros —nem na peça, nem na vida— mas também são vítimas.
Quando o coletivo entrou em contato com o texto pela primeira vez, identificou-se imediatamente. "Parece que estava na nossa boca. Falamos: É muito atual. Que loucura! É de agora para agora", diz Medeiros.
Essa leitura não é casual, segundo o crítico literário Luís Augusto Fischer. Professor e estudioso da obra de Nelson Rodrigues, ele entende que o autor escreveu teorias sobre a sociedade brasileira.




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