Crise do Ueno Bank levou Peña a anunciar renúncia no Paraguai. Entenda o caso e as consequências dele para o país.

Crise do Ueno BankComo um escândalo financeiro ameaça derrubar Peña e redesenhar o poder no ParaguaiPor John Lucas

Dê de presentePrefira a Gazeta no GoogleSantiago Peña, ainda no poder no Paraguai, promete comparecer ao processo de impeachment contra ele (Foto: MIGUEL GUTIERREZ/EFE)Ouça este conteúdo

O colapso do Ueno Bank, um dos maiores bancos digitais do Paraguai, desencadeou uma crise financeira e política que pode mudar o comando do país. O escândalo levou o presidente Santiago Peña a apresentar nesta quinta-feira (5) um pedido de renúncia, cuja análise foi interrompida no Congresso por falta de quórum.

Agora, ainda na Presidência, Peña enfrenta um processo de impeachment no Senado. O julgamento foi aberto na noite de quinta e deve continuar ao longo desta sexta-feira (6). Caso seja destituído, Peña deve ser sucedido pelo vice-presidente Pedro Alliana, em meio a uma possível reorganização das forças políticas paraguaias.

Entenda a seguir como a crise se desenrolou e as possíveis consequências para o futuro do Paraguai.

Presidência do Paraguai diz que Santiago Peña está no país, após rumores de viagemApós impasse sobre renúncia, Peña diz que vai se defender em processo de impeachment no Senado do ParaguaiCâmara do Paraguai rejeita pedido de impeachment contra vice de PeñaA crise do Ueno BankA crise política começou após o Banco Central do Paraguai decidir intervir no Ueno Bank, uma das maiores instituições financeiras digitais do país. A medida, aprovada na segunda-feira (2) e anunciada na terça-feira (3), provocou a suspensão das operações do banco, deixando os correntistas temporariamente sem acesso a salários e economias depositadas na instituição. A situação se agravou porque a instituição também concentrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo dinheiro destinado à previdência social.

O Ueno Bank cresceu rapidamente no Paraguai com a expansão dos serviços financeiros digitais a partir de 2021 e a incorporação do tradicional Visión Banco em 2024. Com campanhas publicitárias, patrocínios e benefícios aos correntistas, chegou a quase 3 milhões de clientes em um país com pouco mais de 6 milhões de habitantes. Paralelamente, o banco passou a receber depósitos milionários de órgãos públicos.

A rápida expansão, porém, contrastava com problemas identificados pela fiscalização paraguaia, incluindo empréstimos a empresas ligadas aos próprios controladores do banco, operações sem documentação suficiente e inconsistências no registro de ativos. Durante a revisão dos balanços da instituição, o Banco Central paraguaio constatou que seu índice de solvência havia caído para menos da metade do mínimo exigido por lei. A situação financeira levou a autoridade monetária a iniciar o procedimento de resolução do Ueno Bank.

Entre os US$ 850 milhões em recursos públicos depositados na instituição, aproximadamente US$ 380 milhões pertenciam ao Instituto de Previdência Social (IPS), responsável por aposentadorias e serviços de saúde. A presença desses recursos ampliou a dimensão da crise e provocou questionamentos sobre as decisões que permitiram a concentração do valor no banco.

A paralisação levou manifestantes às ruas de Assunção, que protestaram contra a crise envolvendo o banco. O Ministério Público paraguaio abriu investigações contra o Ueno e integrantes do banco por suspeitas de irregularidades financeiras e a Justiça determinou, nesta semana, a prisão preventiva de seis dirigentes do banco e a prisão domiciliar de outros dois investigados.

Para conter a crise, o Congresso paraguaio aprovou nesta quarta (4), em regime de urgência, uma lei que permite antecipar a devolução de recursos aos correntistas por meio do Fundo de Garantia de Depósitos (FGD). O fundo é destinado a proteger o dinheiro dos clientes caso uma instituição financeira entre em processo de resolução ou liquidação. A lei foi sancionada no mesmo dia pelo presidente Peña.

Nesta quinta-feira (5), as autoridades iniciaram a primeira etapa dos pagamentos via fundo, destinada a clientes com depósitos de até 10 milhões de guaranis (cerca de R$ 8,9 mil), sem dívidas com o Ueno Bank e com contas em outras instituições financeiras. O limite geral da garantia é maior, chegando a 228,3 milhões de guaranis (aproximadamente R$ 204 mil) por depositante. A medida, porém, ainda não resolveu a situação de todos os correntistas nem esclareceu quanto dos recursos públicos poderá ser recuperado.

O escândalo atingiu Peña por suas antigas relações com o Grupo Vázquez, controlador do Ueno Bank. O presidente manteve participação acionária em uma empresa vinculada ao conglomerado até março de 2025, quando afirmou ter vendido suas ações. Desde a quebra do banco, a oposição passou a questionar os depósitos de instituições públicas no banco durante seu governo e possíveis conflitos de interesses.

O presidente do Banco Central do Paraguai, Carlos Carvallo, também se envolveu no escândalo. Ele renunciou na terça-feira (3), a pedido de Peña, em meio a questionamentos sobre a fiscalização da instituição, já que Carvallo havia presidido a Financiera Ueno, antecessora do banco, antes de assumir o comando da autoridade monetária em 2023.

Peña negou ter cometido irregularidades no caso e afirmou que já não mantinha participação na instituição. O banco também sustentou que o presidente não era acionista ou investidor direto da instituição.

Cezar Roedel, mestre em relações internacionais e estrategista internacional, avalia que o volume de recursos públicos e previdenciários administrados pelo Ueno Bank, somado aos questionamentos sobre a independência da fiscalização bancária, coloca em debate a transparência e a segurança jurídica do sistema financeiro paraguaio. Segundo o analista, o escândalo também expôs possíveis conflitos de interesses nas relações entre o poder público e o setor privado, que ainda precisam ser esclarecidos pelas investigações.

A crise financeira ganhou dimensão política mais forte nesta quarta-feira, quando 35 deputados apresentaram pedidos de impeachment contra Peña e o vice-presidente Pedro Alliana, alegando conflitos de interesses e omissões na fiscalização bancária. No dia seguinte, Cartes, presidente do Partido Colorado, também apoiou o afastamento de Peña, acompanhado por parlamentares governistas e dissidentes da legenda.

Cartes conserva influência sobre a bancada e a estrutura partidária. Foi com seu apoio que Peña chegou à Presidência em 2023. Roedel avalia que o escândalo precipitou o anúncio da renúncia de Peña, mas não explica sozinho a rapidez dos acontecimentos que culminaram na eventual queda do governo dele. Segundo o analista, Peña já vinha enfrentando desgaste político, inclusive dentro do próprio partido, e a intervenção do Banco Central no Ueno apenas acelerou um processo de enfraquecimento do governo que já estava em andamento.

Peña anunciou nesta quinta-feira (5) que deixaria o cargo para preservar a “estabilidade e as instituições democráticas”. Mesmo assim, a Câmara aprovou a abertura de impeachment contra ele por unanimidade e o processo foi enviado ao Senado. Os deputados, porém, rejeitaram, por 48 votos a 30, o pedido de impeachment contra o vice-presidente, Alliana.

Após as votações do impeachment na Câmara, houve uma tentativa de analisar a renúncia de Peña em uma sessão conjunta de deputados e senadores. Caso ela fosse aprovada, Peña se livraria do processo de impeachment e poderia gozar dos benefícios concedidos a ex-presidentes eleitos, que se tornam senadores vitalícios (com direito a voz, mas sem voto), e contam com imunidade parlamentar. Nesse caso, um eventual processo criminal contra ele poderia depender da retirada de sua imunidade pelo Senado, o que geraria um novo e longo processo político.