Como acontece desde 1955, o presidente brasileiro é o primeiro chefe de Estado a proferir discurso no Debate Geral

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT) discursou na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, nos Estados Unidos, na manhã desta terça-feira, 22. Durante o discurso, ele falou sobre soberania, o combate ao feminicídio, organizações criminosas e criticou indiretamente o presidente americano, Donald Trump.

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Como acontece desde 1955, o presidente brasileiro é o primeiro chefe de Estado discursar na Assembleia Geral da ONU, logo após os discursos do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, e do presidente da 81ª AGNU, Khalilur Rahman, ministro das Relações Exteriores de Bangladesh.

Confira a seguir, o discurso de Lula na Assembleia Geral da ONU:

"Discurso do Presidente Lula na abertura da 81ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas. Meus cumprimentos ao Presidente da Assembleia Geral, Embaixador Khalilur Rahman, de Bangladesh.

Saúdo cada um dos Chefes de Estado e de Governo e delegadas e delegados presentes.

Dirijo-me em particular ao Secretário-Geral das Nações Unidas. Ao longo de seus dois mandatos, António Guterres foi testemunha direta dos crescentes desmandos das superpotências. Senhor Presidente, Esta é a décima ocasião em que abro o Debate Geral desta Assembleia. Desde que ocupei pela primeira vez esta tribuna, em 2003, este é o momento mais crítico das Nações Unidas.

O sentimento que me move hoje é o da indignação. A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa. Sua capacidade de proteger os mais vulneráveis – os que não têm exército, nem arsenais – nunca foi tão pequena.

Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel. Em 1946, já na primeira sessão desta Assembleia, o Brasil alertava para o alto preço que a comunidade internacional pagaria pelo direito de veto. Esse vício de origem da Carta da ONU conferiu às grandes potências o privilégio da insensatez.

A esse pecado original soma-se agora uma profunda crise de liderança. O ano de 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial. Trilhões de dólares financiam uma nova corrida armamentista. Tensões geopolíticas ameaçam transformar confrontos regionais em uma conflagração de proporções globais.

Os que detêm as rédeas das decisões cruciais devem atuar com responsabilidade e sentido de urgência. Os líderes dos países que integram o Conselho de Segurança precisam se reunir. Não desconheço as realidades do poder. Mas as concessões à lei do mais forte já passaram dos limites. Isso não é idealismo. É o mais puro realismo. A guerra não é a continuação da política por outros meios. É a falência total da política. Num mundo interdependente, liderar é conciliar os interesses da pátria com os da humanidade.

Essa é a constatação de alguém que representa uma nação amante da paz e da liberdade. Alguém que lutou contra uma ditadura militar e defendeu seu país contra um golpe de estado. É a convicção de um operário eleito três vezes presidente e que retirou o Brasil do Mapa da Fome. Esta Assembleia corrigiu recentemente distorções históricas. Reconheceu o tráfico de africanos escravizados como o mais grave crime contra a humanidade. Aprovou a representação mais precisa do mapa-múndi.

Agora deve se debruçar sobre temas determinantes para o futuro da humanidade. Somos chamados a optar entre: multilateralismo ou unilateralismo; democracia ou extremismo; soberania ou subordinação. Essas escolhas demandam coragem, vontade política e clareza de objetivos. Isso é o que se espera de um Estadista. Yasser Arafat e Yitzahk Rabin foram estadistas. Desafiaram o passado para projetar um futuro de paz.

Foram derrotados pelo ódio. Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixados pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza. Civis israelenses pagaram o preço do radicalismo e da intolerância dos atos terroristas do Hamas. Perseguir o Tribunal Penal Internacional e seus integrantes é um estímulo para que esses crimes fiquem impunes.

A relatora especial da ONU, Francesca Albanese, não pode ser silenciada por dizer a verdade. Os assentamentos ilegais na Cisjordânia tornam cada vez menos viável a solução de dois Estados, essencial para que israelenses e palestinos possam viver em segurança.

Ameaçar civilizações de extinção não trará estabilidade para o Oriente Médio. O Estreito de Ormuz transformou-se em trincheira da guerra, quando deveria permanecer uma passagem vital para o comércio internacional. Famílias em todo o mundo pagam pelo aumento dos preços de combustíveis, fertilizantes e alimentos.

A guerra entre Rússia e Ucrânia se arrasta há cinco anos, em um drama humanitário que continua a ceifar vidas. Todos sabemos que não haverá vencedores no campo de batalha.

A diplomacia é a única opção. Iniciativas como o Grupo de Amigos da Paz, criado por Brasil e China, revelam que há forças na comunidade internacional dispostas a trabalhar pelo diálogo. Na América Latina e Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável. Sobretudo num contexto de recrudescimento de tentações hegemônicas.

O Brasil não cabe no quintal de ninguém. Precisamos de parceiros com uma agenda positiva, que fomente o desenvolvimento. Diferenças ideológicas não devem ser obstáculos para maior integração entre vizinhos. Os países da região conheceram os horrores dos regimes de exceção. Percorremos um longo caminho para restaurar a vontade popular.