Associação prevê falta de ácido fluossilícico nos próximos meses e pede suspensão temporária da fluoretação
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26.ago.2026 às 17h00
A interrupção da fluoretação da água pode retirar uma camada de proteção contra a cárie e, se a suspensão se prolongar, aumentar o risco de problemas de saúde bucal, principalmente entre crianças, idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica.
O alerta ocorre após a Aesbe (Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento) pedir à Justiça a suspensão temporária, pelo prazo inicial de 90 dias, da obrigatoriedade de adicionar flúor à água distribuída pelos sistemas de abastecimento.
O acesso à água fluoretada é uma determinação da lei federal 6.050, de 1974. A Aesbe vê risco de desabastecimento de ácido fluossilícico (usado na adição de flúor) nos próximos meses, após a fabricante de fertilizantes Mosaic interromper o fornecimento do insumo.
O ácido fluossilícico é um subproduto da produção de fertilizantes à base de fosfato. A Mosaic sofreu um baque após a escalada do preço do enxofre, que serve como matéria-prima nessa produção, em meio aos conflitos no Oriente Médio e ao fechamento do estreito de Hormuz.
A Aesbe tem como associadas companhias como Sabesp, Cagece (Companhia de Água e Esgoto do Ceará), Cagepa (Companhia de Água e Esgotos da Paraíba), Cesan (Companhia Espírito Santense de Saneamento), Sanepar (Companhia de Saneamento do Paraná) e BRK.
O impacto mais direto de uma eventual suspensão é odontológico. Segundo Thiago Lucena, dentista e mestre em Odontologia pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), o flúor presente na água ajuda a proteger os dentes contra os ácidos produzidos por bactérias e favorece a remineralização do esmalte.
"A suspensão temporária da fluoretação não significa que as pessoas vão desenvolver cárie imediatamente, mas retira uma importante camada de proteção coletiva", afirma.
A fluoretação da água não depende da iniciativa individual. A proteção é oferecida de maneira coletiva, inclusive a pessoas que não utilizam regularmente creme dental fluoretado ou que têm menor acesso a consultas e tratamentos odontológicos.
Segundo Lucena, uma interrupção prolongada pode ser mais preocupante porque elimina progressivamente a exposição preventiva oferecida pela água. Um período curto, por outro lado, tende a ter consequência menor.
Helvécio Carvalho de Sena, consultor ambiental e doutor em saneamento básico pela USP (Universidade de São Paulo) faz avaliação semelhante. Para ele, uma interrupção de três meses, isoladamente, provavelmente teria impacto pequeno na saúde bucal. O problema está na possibilidade de o desabastecimento se estender.
"Se realmente fossem apenas 90 dias, a consequência seria pequena. A questão é se isso se prolongar, porque não sabemos quanto tempo durará o desabastecimento", afirma.
Segundo o Ministério da Saúde, estudos apontam uma redução de cerca de 50% na prevalência da doença com a fluoretação, com maior impacto entre grupos vulneráveis.
Procurado pela Folha, o Ministério da Saúde afirmou que recebeu representantes da Aesbe e da Abcon (Associação Brasileira das Empresas de Saneamento) em 23 de julho para avaliar o cenário, orientar sobre medidas de contingência e apoiar a busca por fornecedores nacionais e internacionais. A pasta disse ainda que monitora os estoques de ácido fluossilícico no país.
"A suspensão do uso do ácido fluossilícico requer análises técnicas consistentes e a adoção de medidas de contingência, atualmente em análise pela pasta", afirmou o ministério, acrescentando que a água fluoretada é recomendada pela OMS (Organização Mundial da Saúde).




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