O histórico Inglaterra x Argentina pelas quartas de final da Copa do Mundo de 1986 não criou personagens apenas dentro de campo. Enquanto Diego Maradona virou “Dios” com a sua mão e o “gol do século”, enfileirando adversários desde o meio de campo, uma foto e um vídeo de uma briga entre torcedores fizeram a fama de Raúl “Pistola” Gaméz nas arquibancadas do Azteca. Quarenta anos depois, porém, o argentino rejeita o papel de herói que aquela imagem lhe atribuiu. —
O histórico Inglaterra x Argentina pelas quartas de final da Copa do Mundo de 1986 não criou personagens apenas dentro de campo. Enquanto Diego Maradona virou “Dios” com a sua mão e o “gol do século”, enfileirando adversários desde o meio de campo, uma foto e um vídeo de uma briga entre torcedores fizeram a fama de Raúl “Pistola” Gaméz nas arquibancadas do Azteca. Quarenta anos depois, porém, o argentino rejeita o papel de herói que aquela imagem lhe atribuiu.
— Não me arrependo do que fiz, mas, com o passar do tempo, as histórias se engrandecem. Me dá um pouco de vergonha porque já passaram 40 anos e tenho 82. Não se tratava de defender, não era heroico. Os únicos heróis foram os soldados que estavam nas Malvinas, na neve, com fome, sem armas, e que ficarão na História para sempre — ressaltou Gaméz, em entrevista à Rádio Rivadavia.
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A cena que o tornou conhecido era de violência. O então torcedor do Vélez Sarsfield aparece sem camisa, em posição de lutador de boxe, diante de dois ingleses, um deles já sentado depois de levar um soco. A fotografia rodou a Argentina e, no dia seguinte, estava no tradicional jornal “Clarín”. Em meio à euforia pela vitória sobre a Inglaterra, Gaméz se transformou em um dos personagens daquele jogo.
O contexto da Guerra das Malvinas ajudou a ampliar a repercussão. Assim como a atuação de Maradona dentro de campo, a briga foi interpretada por parte dos argentinos como uma espécie de resposta simbólica à derrota nas trincheiras do arquipélago, disputado quatro anos antes daquele jogo. O conflito deixou 649 soldados argentinos mortos e uma ferida ainda aberta no país.
— Nesse dia teve briga por todos os lados, nas ruas, na saída do jogo. Os ingleses são provocadores, ainda mais quando bebem. Quando não bebem, são exemplos. Essa briga da foto foi uma das menores. Era para abrir espaço para os argentinos. Eles estavam nesse lugar, e os ingleses os empurraram — disse Gámez, 40 anos depois, à Rádio Rivadavia.
Campeão da Libertadores
Ele já era um torcedor conhecido e atuante na política interna do Vélez, mas a imagem daquela briga impulsionou a fama. Pouco mais de uma semana depois, participou das comemorações da seleção na Casa Rosada pelo título daquela Copa. Alguns anos depois, em 1993, com o seu grupo político no poder, assumiu o cargo de diretor de futebol do Vélez e foi um dos responsáveis pelas conquistas da Copa Libertadores e do Mundial de 1994. Na final continental contra o São Paulo, no Morumbi, em outro demonstração da sua personalidade, Gaméz chegou a discutir com o árbitro Ernesto Filippi no intervalo. “Nunca havia visto um uruguaio cag**, Filippi. Você é o primeiro!”, teria falado o dirigente, segundo a revista argentina El Gráfico.
Gámez foi eleito presidente do Vélez em 1996 para o primeiros dos seus três mandatos (1996/99, 2002/05 e 2014/17), e se tornou um dos dirigentes mais vitoriosos do clube, somando o período como diretor de futebol e como mandatário, com três títulos argentinos, além das conquistas internacionais. Ainda durante seu primeiro mandato, em 1998, foi chefe da delegação da seleção argentina na Copa da França.
A idolatria no Vélez é tanta que, há poucos anos, teve um mural pintado em sua homenagem nos arredores do Estádio José Amalfitani. Mas a imagem escolhida não poderia ser outra: a foto da briga com os ingleses, com o mapa das Malvinas ao fundo. A cena permanece como símbolo de sua trajetória, embora o próprio Gámez insista em separar a fama conquistada naquele dia da ideia de heroísmo.


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