Máquina é preparada para se adaptar de acordo com os novos prognósticos que o fenômeno causa e é importante na mitigação dos efeitos da anomalia

Neste mês de setembro, o El Niño ganhou ainda mais força e os efeitos do fenômeno já podem ser sentidos em diversas partes do país, com o aumento das chuvas no Sul e Sudeste, além de secas mais severas em áreas do Norte e Nordeste.

De acordo com as previsões,  há mais de 90% de probabilidade de o El Niño poder alcançar a intensidade muito forte até novembro.  Sendo assim, o Brasil pode sofrer com temperaturas acima da média e mudanças no padrão de chuvas.

A expectativa é de que o El Niño continue atuando até fevereiro e março de 2027, sendo um dos mais intensos já registrados . Especialistas indicam que 2026 pode ser o ano mais quente da história, e, se não for, 2027 certamente vai ser.

A  intensidade do El Niño torna ainda mais desafiadoras as previsões do tempo. Nesse sentido, o Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe) dobrou a capacidade do supercomputador que processa as previsões.

De acordo com o coordenador-geral de Ciências da Terra do Inpe, José Aravequia, o computador é a ferramenta que permite obter esse cenário futuro rapidamente.

Além disso, só o aumento da capacidade não é suficiente. Com o aquecimento, os modelos do clima no passado já não servem como referência para saber o que está acontecendo no presente.

Sendo assim, para ajudar o modelo nas previsões e diminuir os impactos, a máquina vai se adequando a cada nova análise e fazendo novas projeções para o futuro. Segundo o José Aravequia, o supercomputador projeta para o futuro o conjunto de números registrados em cada nova análise.

As formas de monitorar o El Niño também estão sendo ajustadas devido ao aquecimento do planeta. O índice ONI (Oceanic Niño Index) foi usado durante décadas como o principal indicador para classificar episódios de  El Niño e La Niña.

Ele é calculado a partir da anomalia da temperatura da superfície do mar na Região Niño 3.4 do Pacífico Equatorial e usa referências médias climatológicas fixas de 30 anos. Porém, esse método compara as temperaturas atuais com um clima do passado, quando os oceanos eram bem mais frios.

Como alternativa, a  NOAA passou a utilizar o RONI (Relative Oceanic Niño Index). Este novo índice também leva em conta o aquecimento global dos oceanos e avalia como as águas do Pacífico estão em relação ao restante dos oceanos tropicais.

Em conversa com o iG, o coordenador-geral de Ciências da Terra do Inpe, José Aravequia, explicou que o El Niño faz parte de um sistema oscilatório . Ele atua como uma gangorra, com o aquecimento das águas do Pacífico na América do Sul e o esfriamento das águas próximo da Indonésia.

Esse processo acontece de forma natural. Sendo assim, há a oscilação de El Niño para La Niña, intercalando entre o aquecimento e o resfriamento das águas do oceano.

Isso é um fenômeno oscilatório e natural, porém, o que tem sido observado é que a mudança entre El Niño e La Niña está ocorrendo mais rapidamente.

O especialista reforçou que é uma rapidez muito acentuada e que a temperatura da anomalia no oceano está muito acentuada também.

Porém, com o avanço das pesquisas e com as previsões do tempo mais assertivas, Aravequia demonstrou confiança na capacidade da população ao enfrentar esses períodos.

Segundo ele, é importante que a população se programe juntamente com as esferas de governo municipal, estadual e federal para que haja um planejamento de ações de mitigação dos efeitos das situações climáticas que são muito prováveis de ocorrência.

De acordo com o Inpe, o Serviço de Supercomputação (Sesup) foi criado em 1994. Na época, a máquina tinha em torno de 64 GB (gigabytes) e levava um dia inteiro para processar o que hoje um celular faz em cinco minutos.

Ele foi criado para armazenar dados do Inpe como um todo e fazer, inclusive, o armazenamento de dados da previsão do tempo.

A reportagem do iG visitou o local, que fica localizado no Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), departamento do Inpe de Cachoeira Paulista, no interior de São Paulo.

O Sesup é o único datacenter científico do governo federal. Em 2020, um projeto de reestruturação do Inpe destinou cerca de 200 milhões para melhorias na infraestrutura do local.