Aditivo alimentar é amplamente presente em produtos sem glúten e ultraprocessados
Aditivo alimentar é amplamente presente em produtos sem glúten e ultraprocessados
Nikolett Emmert (via Pexels) – 05.jan.2024
22.ago.2026 (sábado) - 6h50 Priorize o Poder no Google
A goma xantana é um aditivo amplamente utilizado na indústria de alimentos para estabilizar receitas e ajustar a consistência de sorvetes, iogurtes, bolos, molhos e massas sem glúten, sendo também essencial no preparo de bebidas para quem tem dificuldade de engolir – condição conhecida como disfagia. No entanto, um novo estudo liderado por pesquisadores brasileiros indica que o consumo contínuo dessa substância pode promover um estado inflamatório no intestino.
Publicado na revista PLOS One em abril, o trabalho utilizou ratos adultos para investigar os impactos desse aditivo no organismo. Os resultados validam, de forma experimental, preocupações clínicas antigas: em 2011, a agência norte-americana FDA (U.S. Food and Drug Administration) chegou a emitir um alerta contra o uso de espessantes à base de goma xantana em fórmulas para bebês prematuros por suspeita de que a substância estaria associada ao desenvolvimento de enterocolite necrosante – inflamação grave que leva à morte das células intestinais. Na ocasião, ao menos 7 mortes de prematuros foram associadas ao uso do espessante.
Atualmente, nos Estados Unidos, o uso da goma xantana segue uma regulação mais cautelosa que a brasileira, com cálculo de concentração por grama de produto para pessoas maiores de 12 anos e restrições ao uso em fórmulas e alimentos para bebês. Para prematuros, a proibição é total. A despeito de toda a ação regulatória após o caso envolvendo recém-nascidos, o conhecimento científico sobre o efeito do aditivo no intestino humano não avançou.
Para compreender os efeitos da goma xantana no trato gastrointestinal, os pesquisadores conduziram testes ao longo de 10 semanas. Ratos adultos foram divididos em 4 grupos. O primeiro não consumiu goma xantana (controle). O segundo recebeu uma dose baixa do espessante, mimetizando o consumo de uma pessoa que faz uma dieta sem glúten e consome produtos industrializados que contêm o aditivo. O terceiro grupo recebeu uma dose média da goma (metade da dose máxima), imitando alguém com dificuldade leve de engolir, que usa o espessante apenas em algumas refeições. E o 4º grupo recebeu a dose máxima, simulando a de um paciente com dificuldade de moderada a severa para engolir, que precisa adicionar o espessante em absolutamente todos os líquidos e alimentos que consome.
Embora a goma xantana não tenha afetado o metabolismo geral dos animais, os impactos locais no intestino foram significativos. A adição de goma xantana, em todas as doses testadas, promoveu um estado inflamatório de grau moderado, caracterizado por maior presença de células de defesa (linfócitos) infiltradas na parede intestinal. Esse processo foi ainda mais intenso nos grupos de roedores que receberam doses médias e altas do espessante.
A presença de inflamação foi confirmada também pela análise do tecido intestinal (histologia) e pelo aumento nos níveis de moléculas pró-inflamatórias, como a interleucina-1 beta (IL-1β) e o fator de necrose tumoral alfa (TNF-α).
As análises também revelaram um aumento expressivo nos níveis de uma proteína chamada Claudina-2 na mucosa intestinal. Essa elevação está ligada ao que os cientistas chamam de “aumento da permeabilidade intestinal”, que costuma estar associado a condições inflamatórias, como a doença de Crohn, a colite ulcerativa e a doença celíaca.
Embora a diversidade da microbiota intestinal não tenha mudado de forma expressiva, pondera a pesquisadora, o consumo crônico de goma xantana (durante as 10 semanas do experimento) modificou o equilíbrio entre microrganismos no órgão, aumentando a quantidade de bactérias do filo Elusimicrobiota, associado a estados inflamatórios.
Como destaca Rischiteli, o uso da goma xantana na rotina de crianças e idosos com disfagia despertou a atenção da comunidade científica e clínica para o tema. Contudo, esse aditivo também está amplamente presente em produtos alimentícios ultraprocessados, incluindo os shakes proteicos, bem como em suplementos alimentares.
A Agência FAPESP entrou em contato com a Abia (Associação Brasileira da Indústria de Alimentos) e com a Abiad (Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres), mas as entidades optaram por não se posicionar sobre os resultados do estudo.
O artigo Xanthan gum intake modifies the colon microbiota profile and causes mild colon inflammation in rats pode ser lido em: journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0347232.
Este texto foi publicado originalmente pela Agência Fapesp, em 17 de agosto de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.



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