Ancelotti sabe, melhor do que ninguém, como extrair o máximo de Vinícius Júnior — e essa intimidade tática pode ser um dos trunfos brasileiros nesta Copa...

Role, Da BBC News Brasil em Houston (EUA)Published Há 39 minutosTempo de leitura: 7 minAntes da Copa do Mundo de 2026, uma cobrança rondava o nome de Vinícius Jr.: o jogador que vive um dos melhores momentos da carreira no Real Madrid ainda não havia repetido, com a seleção brasileira, o nível de decisão que apresenta no clube espanhol.

Os números reforçavam a crítica: antes do Mundial, eram apenas 8 gols em 46 jogos pela equipe principal, a maioria deles em amistosos.

Na Copa América de 2024, a ausência pesou: suspenso por acúmulo de cartões, Vini Jr. assistiu da tribuna à eliminação do Brasil para o Uruguai nos pênaltis, nas quartas de final, e assumiu a responsabilidade pelo resultado mesmo sem ter entrado em campo.

Pouco antes da Copa, em amistoso testando-o como o novo 10 da seleção, voltou a ser criticado: cometeu erros pouco comuns e o Brasil perdeu para a França por 2 a 1, em partida na qual pouco produziu.

Mas três jogos de Copa do Mundo depois, esse discurso de críticas perdeu força. Contra o Marrocos, na estreia, foi ele quem marcou o gol que evitou a derrota, garantindo o empate em 1 a 1.

Foi também depois desse jogo que Vini Jr. voltou a falar sobre a relação com Ancelotti, dizendo que o técnico "sempre me faz me adaptar o mais rápido possível à equipe" e que lhe dá "a importância que eu preciso e que mereço".

Contra o Haiti, balançou as redes na partida em que completou 500 jogos como profissional, além de dar uma assistência e participar do lance que originou o primeiro gol de Matheus Cunha.

Foi também o jogo do retorno de Neymar à seleção depois de mais de dois anos afastado por lesão. O camisa 10 entrou no segundo tempo, foi ovacionado pela torcida e teve seu nome cantado no aquecimento — mas quem comandou o setor ofensivo brasileiro, mais uma vez, foi Vini Jr.

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A própria presença de Neymar no banco — ainda em fase de retomar ritmo de jogo e questionado por boa parte da imprensa sobre se teria condições de ajudar a seleção neste Mundial — reforça o quanto o camisa 7 se tornou o trunfo ofensivo do Brasil: se em outros ciclos era Neymar quem desequilibrava os jogos, agora é em Vini Jr. que o Brasil encontra sua principal referência de decisão.

E é o próprio Neymar quem parece reconhecer essa mudança. Depois da vitória por 3 a 0 sobre a Escócia, o camisa 10 falou sobre o momento do companheiro: "Fico feliz pelo carinho da torcida, de todo mundo, mas mais feliz ainda por nossa equipe estar indo bem, muito feliz pelo momento do Vini."

Na partida, Vini Jr. marcou dois gols.

"Vini hoje é o nosso principal jogador e está numa fase incrível, vem nos ajudando, decidindo os jogos. Isso é importante para nós. Foi o que falei: agradeço por todo o carinho, estou muito contente. Agora é mata-mata, seguir vencendo para chegar no nosso objetivo final. Dá para jogar 200 minutos (risos)", disse Neymar.

A fala, vinda de quem por anos foi o nome mais importante da seleção, é talvez o sinal mais claro de que a torcida brasileira está testemunhando algo perto de uma passagem de bastão.

Para o comentarista e ex-futebolista Walter Casagrande, a mudança no protagonismo tem nome e sobrenome: "A mudança do jeito de jogar do Vinícius Jr na seleção se deu com a chegada de Carlo Ancelotti, que conhece bem o poder de decisão dele. Armou um esquema tático parecido com sua época de Real Madrid para deixar o Vini pronto para decidir o jogo sem se desgastar para ajudar na marcação."

"Sem dúvida o Vinícius Jr. é o principal jogador, o mais decisivo, e aquele que não só pode fazer a diferença como está fazendo nessa Copa do Mundo. Ele está nessa Copa no patamar das grandes estrelas da competição como Messi, Mbappé, Dembélé, Haaland, e obviamente o Vinícius Jr. faz parte dessa turma", disse ele à BBC News Brasil.

O jornalista Paulo Vinícius Coelho segue na mesma linha ao falar do papel do treinador italiano: "Carlo Ancelotti conhece o jogador do Real Madrid e o transformou no jogador mais livre do sistema tático. O que tem menos obrigações defensivas e que tem, por isso, mais chance de decidir jogos."

E reforça: "É o melhor jogador brasileiro da atualidade. Do elenco da seleção, o único eleito melhor do mundo e com a ambição de ser campeão mundial."

Vinícius Jr. participou diretamente dos quatro primeiros gols do Brasil no torneio — uma sequência que, segundo levantamento da própria FIFA, o coloca ao lado de nomes como Romário e Ronaldinho entre as participações em gols por Copa do Mundo.